PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Como nossos pais

Muitas vezes seguimos sem pensar os passos ensinados pelos pais. Olhar para eles e compreender o modelo de vida que herdamos ajuda a desvendar nossa personalidade

por Alessandro Meiguins e Mariana Lacerda | foto Caco Galhardo

Passou mais de um ano até que Eduardo percebesse. O jeito como ele desfez seu casamento foi igualzinho ao do seu pai quando se separou da sua mãe: largando tudo, o dinheiro, o apartamento, o emprego. Seu Oswaldo havia ido para a França, Eduardo foi para a praia. Aí ele percebeu que sua relação de mais de sete anos havia sido igualzinha, sem tirar nem pôr, à história dos pais. "Eu estava seguindo um script que dizia como eu devia me relacionar comigo mesmo, com os outros e até com Deus", afirma. Eduardo descobriu que, embora pensasse que já era adulto e dono de sua vontade, ele, aos 31 anos, não tinha sequer começado a escrever sua própria vida.

Parece triste, mas a história do Eduardo não é nem pior nem melhor que a de todos nós. Ninguém nasce como carro novo, pronto para usar. Pelo contrário, viemos ao mundo à mercê da sorte e, até termos consciência de quem somos, emprestamos modelos dos pais e das pessoas de quem mais gostamos, uma herança que eles também receberam de alguém e que, de tão infiltrada em nosso modo de ser e de pensar, nunca será totalmente desenterrada e reconhecida. E acredite: isso é a coisa mais natural e saudável do mundo. Se você está vivo e é capaz de segurar e ler esta revista, deve isso a muita gente, a começar pelos seus pais.

O caso é que, do repertório de habilidades e soluções que eles lhe deixaram, algumas não servem - e causam sofrimento. Para descobrir de onde vieram seus traços marcantes e decidir se interessa mantê-los ou não, ajuda muito saber como nos desenvolvemos e como lidamos com os modelos que encontramos na vida. É disso que fala esta reportagem. Só que aí é com você e mais ninguém. Que tal assumir a autoria da sua vida?

Que história é essa?
Imagine que você é escritor e protagonista de um romance único: a história da sua vida, uma novela que dura toda sua existência. Só que o romance da sua vida começa no seu nascimento. E nesse ponto da história, vale lembrar, você não sabe escrever. Tudo bem, ninguém é uma página completamente em branco. Embora haja muita polêmica a esse respeito, pode-se dizer sem medo de errar que a força original da vida está em você desde o princípio. Foi ela que fez você crescer em um ritmo vertiginoso no útero aquecido de sua mãe e, na hora certa, o ajudou a abrir o berreiro na maternidade. "Já nascemos com traços únicos, próprios. Em outras palavras, nascemos sendo uma força, uma pulsão, uma vibração de energia particular, única, diferente do mundo inteiro", diz o filósofo Luís Fuganti, fundador da Escola Nômade, de São Paulo, voltada para o desenvolvimento do potencial humano.

Mas também não dá para negar que, desde o início e por um bom tempo, quem teve lápis e papel na mão para escrever sua história foram seus pais. Eles que decidiram quando dariam início à sua vida, escolheram seu nome, sua religião. Decoraram seu quarto, escolheram suas roupas e decidiram se você iria ter irmãos, em que bairro morar, a escola, a decoração das festas de aniversário e até seu time de futebol - se você é daqueles que se orgulha de torcer para o time adversário, saiba que sua escolha rebelde também tem o dedo de seus pais. Enfim, nesse começo, todas as linhas da sua novela são escritas pelos seus pais - ou pelas pessoas que criaram você. No entanto, são esses capítulos iniciais que vão lhe permitir escrever um dia, de próprio punho, o seu romance, aquele cujo ponto final é a morte.

Aprendendo a viver
Para começar, quando você é pequeno, o mundo chega até você interpretado pelos seus pais, até as sensações mais básicas. O que é essa sensação estranha na barriga? Ah, é fome. E esse arrepio? É frio. Ah, esse desconforto é que é a dor? E essa coisa boa, é carinho? Tudo é novo. É por isso que, quando uma criança cai, imediatamente busca o olhar da mãe: para compreender o que aconteceu e saber como reagir. Se a mãe está com os olhos e a boca escancarados, a criança chora. Se a mãe nem ligou, segue em frente. "Os pais ajudam a criança a compreender o mundo. E ela passa a usá-los como referência para tudo", diz a psicanalista Eloísa Tavares de Lacerda, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que estuda a primeira infância. Com os pais, aprendemos, ainda que inconscientemente, a manifestar nossa existência, por meio de sentimentos e de gestos.
Espelho, espelho meu
Essa imitação permanente acontece por dois motivos. O primeiro é que não temos outro modelo, não temos idéia de como fazer diferente. O segundo é porque, repetindo os pais, garantimos sua atenção e seu amor. "Precisamos de amor. É uma necessidade tão crucial quanto o ar que respiramos, e por ela somos capazes de tudo", afirma a terapeuta Heloisa Capellas, coordenadora do Instituto Thame de São Paulo, que ministra o método de autoconhecimento chamado Processo Hoffman da Quadrinidade, que revê a infância dos pacientes. Até aqui, tudo lindo.

Esse macaquinho imitador vai muito bem até que começa a repetir gestos dos pais de que eles não gostam. Quem já não viu uma criança ser repreendida por falar o palavrão que ouviu o pai dizer com os amigos? Em vez de agradar, recebe uma bronca. E percebe que o amor que recebe não é gratuito: ele está condicionado a regras de comportamento. Se o menino fica quieto, ganha um beijo. Se grita, ganha um tapa. É o que alguns psicólogos chamam de programação. A criança vai deixando de ser ela mesma, para seguir o gosto dos pais.

Repetições automáticas
Mas, sem querer, você continua imitando muitas coisas de que seus pais não gostam. Porque aprendemos de ver, sentir e perceber o humor dos pais, através do seu jeito de ser. Não é de estranhar, portanto, que tanta gente comece a vida achando que trabalhar é uma tortura. O que mais esperar, se nossos pais chegavam do serviço exaustos, com dor de cabeça, mau humor e sem vontade de brincar? No mínimo, esse tal de trabalho é algo muito chato. Na infância, o modelo inteiro dos pais é apreendido sem que a criança consiga distinguir entre o que lhe será bom ou ruim na idade adulta. A historiadora gaúcha Maria da Luz Oliveira, de 36 anos, passou a vida vendo como seu pai era desorganizado com compromissos, contas bancárias e cartões de crédito. Era o jeito natural e permanente dele. Na idade adulta, Maria reconhece sua dificuldade enorme em se organizar. "Às vezes é só depois de um dia ou dois que me lembro daquele compromisso importantíssimo. Quando lembro."

Outras crenças aprendemos ao ouvir o que eles, na melhor das intenções, nos disseram. O técnico em turismo Marcos Amaral, de tanto ouvir sua mãe dizer, com toda sinceridade, que sua concepção não tinha sido planejada, criou uma dificuldade enorme em planejar a própria vida, "como se fosse algo tão impossível, improvável, que não fizesse parte de mim", diz Marcos. A questão é essa: o modelo dos pais fica embutido por baixo da maioria de nossas atitudes. "As mensagens expressas pelos pais de uma forma ou de outra passam a fazer parte da vida dos filhos", afirma o psicanalista Luís Cláudio Figueiredo, professor de psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Nem tudo são flores
A fase do papagaio que repete tudo só termina na adolescência, quando as repetições perdem sentido, porque descobrimos outras referências para guiar nosso crescimento. Primeiro porque descobrimos outra fonte importante de afeto, além dos pais: a namorada ou o namorado. Depois, porque o corpo começa a se transformar, e passamos a nos observar. E assim, olhando para o próprio umbigo, esbarramos na possibilidade de não sermos assim tão parecidos com papai e mamãe. É nesse momento que os pais se tornam pessoas normais, cheias de erros e acertos, como qualquer ser humano. E o nosso impulso, após o questionamento, é o de ganhar independência. Alguns autores afirmam que esse é o único momento de lucidez do ser humano. Puxa, o pai não é o herói que se pensava que era. Nem a mãe o ser mágico que o sustentou até agora. E o que estava embaixo do tapete vem à tona.
Emoções escondidas
O que nossos pais fizeram, afinal? "Nos ensinaram a viver na sociedade. E isso significa seguir regras cheias de padrões de comportamento, consumo, etiqueta, valores morais e beleza", diz Luís Fuganti. O caso é que, para uma criança cheia de vontades e de curiosidade para conhecer o mundo, ajustar-se à sociedade equivale ao suplício que é largar o brinquedo para tomar banho, uma tremenda frustração. Por que não posso ter todos os brinquedos da loja? Por que não posso acompanhar minha mãe ao trabalho? A criança não entende e se magoa uma, duas, três, muitas vezes. Quantos nãos você ouviu dos seus pais? Pois é. Se para cada mágoa de infância ganhássemos uma bala, sairíamos dessa fase com um estoque suficiente para os netos. Mas, antes que você decida cobrar sua cota de doces dos seus pais, cabe uma lembrança: isso é normal. Criança nenhuma pode ser criada fazendo o que quer. É o preço que se paga para viver em sociedade: um depósito abarrotado de balas de mágoa, de variados sabores: tem aquela com gosto de "vergonha porque recebeu uma bronca na frente de todo mundo", tem a outra com sabor de "raiva porque o irmão ganhou o brinquedo melhor", e aquela, azedinha, com gosto da "goiaba que você roubou do vizinho e foi pego no ato". É esse tesouro, escondido pela criança por medo de perder o amor dos pais, que o adolescente, em sua primeira experiência de liberdade afetiva, faz questão de exibir sempre que tem chance.

Começa então uma guerra. Uma guerra saudável de separação, e com ela uma lenta conquista da independência. Começamos a nos habilitar para enfim escrever nossa história, para nos tornarmos adultos. Nunca é fácil. Mas para alguns é pior, dependendo da infância e da relação com os pais. "Sem perceber, engordei muito nessa época. O principal era deixar de ser o príncipe da mamãe. Não agüentava mais ser perfeito, bonitinho, comportadinho", diz Eduardo, aquele que contou parte de sua vida no início do texto. Aos poucos, a batalha vai arrefecendo, o tiroteio escasseando, e de repente cessa. A guerra acabou. Você é adulto, pronto, sabe o que quer e comprou esta revista. Chegamos ao presente. Aqui. Agora.

Vozes internas
OK, agora você é dono do seu nariz. Você paga suas contas, escolhe seus relacionamentos, seu trabalho, sua diversão, enfim, você deu seu grito de liberdade. Tudo bem, então? "Quase." Todo mundo tem um quase. Tudo estaria bem, não fossem alguns empecilhos que você não consegue superar e não sabe por quê, coisas como (escolha sua opção): a) sua dificuldade em se planejar; b) sua incapacidade de lidar com dinheiro; c) o medo da solidão;

d) o pavor de perder o emprego;

e) _________ (escreva aqui seu quase).

Os impedimentos à felicidade de cada um, é claro, variam de pessoa para pessoa. Mas, de maneira geral, esses tropeços estão ligados àquelas mágoas, de todos os sabores... Seu chefe grita com você na reunião e você se vê com a mesma vergonha que sentiu quando seu pai lhe deu uma palmada na frente dos amigos. Nessas situações, em vez de agirmos sensatamente, em vez de sentir, pensar e agir, simplesmente sentimos e agimos, porque não queremos encarar aquele sofrimento antigo. É dessas fendas da memória, das quais desviamos o olhar, que ressurgem os comportamentos criados na infância (as imitações dos pais etc.), porque nunca olhamos o buraco de perto para ver o tamanho, a profundidade e o perigo real que ele representa. E de repente você está respondendo como seu pai ou sua mãe, só para não ter que enxergar a verdade (que seu pai batia em você). "A herança da infância nos deixa incapacitados para lidar com algumas situações. E essa incapacidade pode durar a vida toda, se você não dedicar a atenção necessária para desvendá-la e curá-la", diz Lidia Straus, professora de psiquiatria da infância da Unicamp.

Herança do bem
A saída, dizem os psicólogos, começa por enxergar que, naquele estoque de balas, tem muita coisa gostosa e nutritiva, que também compõe a herança recebida dos pais: tem "sabor facilidade de fazer amigos igual a seu pai" e gosto de "mulher responsável como a sua mãe" (sem falar dos deliciosos "historinhas antes de dormir" e "vem cá que eu mamãe dá um beijinho"). "Para poder sentir e pensar alguma coisa, você dependeu de uma linguagem que veio da sua família, que nada mais é que um sistema de pensamento que você herdou, com acertos e falhas. Um programa que diz 'viva assim, ria desse jeito, chore somente escondido, brigue quando ele chegar do futebol, não se entregue ao amor, desconfie de estranhos' e por aí vai", diz Luiz Cláudio. Ninguém criou por si sua linguagem, ela foi implantada, como um software, em seu hardware. Mas dá para fazer atualizações. Você pode ir escolhendo seus sotaques e nuanças.

E como achamos esse idioma próprio? Em algum momento paramos e nos perguntamos: e se fizéssemos diferente? Ou, num momento de dor, chegamos à conclusão de que "isso não pode mais ficar assim", como se os erros que fazemos, e as dores que eles acarretam, chegassem a um limite.

Lina Teixeira, artista plástica de Curitiba, levou muito tempo de sua vida repetindo seu pai. "Eu negava meu pai, porque via nele coisas iguais às minhas. Quando meu pai via que o trabalho não lhe fazia bem, ele mudava de emprego, e às vezes de cidade, de um dia para o outro. E eu repeti isso. Perdi boas chances profissionais por ser impulsiva como ele e paguei um preço alto por isso. Até que percebi que meu pai fez o que fez pelo bem da família. Consegui entender que, por amor, ele nunca teve medo de conquistar novos degraus. Parei de repeti-lo, vi o positivo nos seus gestos e ele virou meu melhor amigo."

Desenvolvimento
O processo de crescimento e aprendizado é permanente. Não existe aposentadoria da vida. Isso, para os terapeutas, chama-se desenvolvimento da personalidade. "A nossa geração, comparada à dos nossos pais, é privilegiada. Quem fazia terapia era doente. Hoje, a conversa com o terapeuta é uma ferramenta bem vista e bem-vinda, na busca do autoconhecimento", afirma a advogada Patrícia Müller, de 45 anos.

E a história segue assim: apesar de tudo, percebemos que estamos aptos a viver em sociedade e, dentro dela, podemos ser o que quisermos. Como Marcos Amaral, que penou para se livrar da ladainha de que não tinha sido planejado. "Percebi que isso não tinha nada a ver comigo. Que abaixo desse slogan havia uma pessoa organizada, com facilidade para coordenar grupos, excursões, aventuras: eu." Marcos só entendeu seu problema quando olhou de perto. Com isso, ficou ainda mais consciente da sua capacidade de liderança.

A hora do amor
E acaba que, ao notarmos que temos defeitos e qualidades, que fomos criados por pessoas imperfeitas como nós, passamos a nos aceitar por inteiros. "Se hoje você consegue olhar para trás e ver o que não é bom, foi sua história que lhe deu essa competência. Quando a gente encara a dor, é possível trazer ao presente um novo significado. É um caminho corajoso, porque tem que voltar ao passado e mexer nas lembranças que você queria esquecer", diz Heloísa.

Em um mundo ideal, utópico, isso não seria assim. "A educação ideal explica os limites, sem reprimir a liberdade da criança, em vez simplesmente impô-los. Mas quem sabe fazer isso? Será que temos a condição de ser melhores que nossos pais?", diz Denise Ramos, professora de psicologia da PUC-SP. Seus pais também não receberam esse amor utópico, ideal, perfeito. Por isso não conseguiram lhe oferecer tamanha abundância. "Um amor desse jeito, incondicional, é a meta de toda a humanidade. Basta alguém, ou uma geração, quebrar o ciclo negativo do amor pela troca. Basta você começar", afirma Heloísa. Aprendemos a negar nosso lado que erra. Aceitamos só o acerto, só o perfeito que conseguimos manifestar. A auto-estima vem quando você se ama com os seus erros e com os seus acertos. E, consciente da importância do romance que vem sendo escrito há anos, toma a caneta nas mãos.

Para saber mais

LIVROS
• O Desenvolvimento da Personalidade, Carl Gustav Jung, Vozes, 1998
• O Código do Ser, James Hillman, Objetiva, 1997
• Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo, Peter Gay, Companhia das Letras, 1989
• Como Passar Sua Vida a Limpo, Marisa Thame e Kani Comstock, Pensamento, 1994
• Eu e Tu, Martin Buber, Centauro, 2003

Na internet
www.institutothame.com.br
www.linhadefuga.com.br

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2008 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved