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Aos 10 anos de idade, David embarcou em um veleiro com os pais Vilfredo e Heloísa e os irmãos Pierre e Wilhelm, de 15 e 7 anos, para dar a volta ao mundo. O Brasil acompanhou a aventura da família Schürmann, que abandonou casa, trabalho e escola e o conforto da vida em terra firme para viver seu sonho no mar. David, hoje com 30 anos, passou a adolescência viajando de barco.
Em vez de jogar videogame, seu passatempo era observar a natureza, surfar e velejar. Não freqüentou shopping centers: aprendeu a trocar objetos com nativos de diversas culturas. Nesse novo modo de vida, deu duas voltas no globo, percorreu mais de 130 mil quilômetros e visitou 45 países. Mais velho, estudou cinema na Nova Zelândia. Mas nunca conseguiu ficar muito tempo em um só lugar. Bateu seu recorde agora: há um ano e meio em São Paulo, prepara seu primeiro longa-metragem, O Mundo em Duas Voltas, previsto para o início de 2005. O filme mescla a histórica expedição de Fernão de Magalhães, no início do século 16, com a aventura vivida pela família Schürmann em 1997, quando percorreu a mesma rota. Nesta entrevista, David conta que o maior desafio não foi enfrentar tempestades, tubarões ou os piratas no mar da China, mas conviver pacificamente com a família no espaço limitado do veleiro, lidar com a saudade e a impermanência, sempre no balanço inconstante das ondas.
Como foi sair da terra firme?
O primeiro ano no veleiro foi difícil, de adaptação. Era complicado ficar 24 horas por dia com meus pais em um espaço delimitado. Então, eles resolveram descer do pedestal de pais, aquela coisa mais ditatorial. Essa foi a grande sacada para a gente viajar junto tanto tempo, senão ia dar muita briga. Eles incluíram os filhos de uma forma mais horizontal nos relacionamentos. A gente participava das decisões e escolhas das rotas, o que tornou a viagem mais democrática.
Como era a convivência em alto-mar?
Era boa, com um monte de desentendimentos, como em qualquer família. Mas descobrimos um segredo para conviver bem em um espaço pequeno: todos os mal-entendidos e problemas familiares que aconteciam eram falados na hora. Isso porque não tínhamos como fugir, escapar dos pepinos. Então percebi uma coisa importante: dependíamos muito uns dos outros, não valia a pena ficar de mal. As pessoas normalmente vão engolindo sapos durante a vida, escondem as dificuldades e um dia estouram e soltam tudo. No barco, não dava tempo de acumular roupa suja, sempre deixávamos o cesto limpo.
Era difícil cultivar amizades?
Costumávamos ficar no máximo três meses em cada lugar. Eu sabia que faria amizades e iria embora - mas havia sempre a possibilidade de rever aquelas pessoas. Fui criado sem esse apego emocional e aproveitava a cada instante a diversão com meus amigos. Mas, claro, quando comecei a namorar foi mais difícil. Quando tive de ir embora e deixar a minha primeira namorada, aos 14 anos no Caribe, eu chorei para caramba, passei supermal.
Você não sentia saudades?
Mesmo carregando no veleiro minhas coisas mais importantes e ficando com a família, batia forte a saudade de lugares e pessoas que conhecia. Hoje, tenho vontade de voltar para vários locais.
Mas sem tentar recriar os momentos. Aprendi isso quando voltei para uma ilha na Polinésia e tentei recriar a história que vivi lá. Tinha se passado um ano e o lugar havia mudado muito, principalmente porque a televisão entrou na ilha. Antes as pessoas ficavam na calçada tocando música e jogando conversa fora. A TV transformou os hábitos do lugar totalmente. Então, entendi que as pessoas e as coisas mudam o tempo inteiro. E que uma das falhas do ser humano é tentar recriar o passado.
Qual foi seu maior aprendizado?
Vivi muito tempo com os povos primitivos do Pacífico e senti que eles realmente vivem a vida, enquanto nós ocidentais tentamos sobreviver. Eles aproveitam o momento, não têm a ganância de querer ser parte de alguma coisa grandiosa, de ter muitas coisas e de querer ser eterno. Eles querem viver a vida que eles têm, se divertir e ter os prazeres simples da vida.
Você se acha um cidadão do mundo?
Meu pai instituiu uma coisa de ser brasileiro. Ele dizia: "Vocês são cidadãos do mundo - mas são brasileiros". Isso foi muito bacana, pois criou nossa noção de identidade. Quando você viaja, a primeira coisa que querem saber é de onde você é. Em 1995, quando voltei para o Brasil, percebi o porquê de eu gostar de algumas coisas que faziam parte da minha infância. Comecei a entender por que eu sou desse jeito. Por isso, digo que minhas raízes são brasileiras, mas funciono como uma vitória-régia, que vai boiando e em cada lugar se adapta àquele ambiente, mas sem perder sua raiz, sua identidade.
As culturas estão homogêneas?
Achava que o mundo logo ficaria muito chato com o imperialismo americano, pois todo mundo ia ficar igual: usando calça jeans e comendo fast food. Quando fiz uma segunda viagem ao Taiti e vi um McDonald's, quase morri do coração. Mas um amigo mexicano me explicou que existem mais restaurantes mexicanos nos Estados Unidos do que McDonald's no México! Isso mostra que os Estados Unidos também estão mudando. Nas minhas viagens, vi que, nos últimos cinco anos, por causa da conjuntura internacional e do terrorismo, há um movimento das diversas sociedades começarem a olhar para suas próprias culturas, para o seu quintal, em vez de se espelhar nas grandes potências.
O que você aprendeu vendo essa pluralidade de culturas?
Aprendi cedo a não tentar entender a cultura com meus olhos, porque do meu binóculo eu vou achar tudo sempre estranho. Quando você viaja e fica um bom tempo em cada lugar, começa a compreender por que as pessoas são de um jeito e pensam de uma maneira. O grande problema da humanidade é que as pessoas querem impor as suas maneiras de viver e dizem que o resto está errado. O preconceito acaba quando você compreende o outro.
Qual é a sua religião?
Eu fui batizado católico, mas sou um pouco hindu, budista, muçulmano e tal, porque, se pegarmos todas as religiões e as destilarmos, sobra uma essência. Depois de ter visto tantas crenças, tantas pessoas e tantos lugares, acredito cada vez mais que ninguém está certo e ninguém está errado. Mas acho importante as pessoas terem uma crença. O ser humano ainda não está pronto para ter a consciência de que no fundo não há uma razão para estarmos na Terra. Acho que ainda somos muito primitivos para aceitar isso. Acredito muito mais na influência de energia no mundo do que em outra coisa. Quando você focar sua energia no que realmente gostaria de fazer na sua vida, as coisas naturalmente acontecem.
A vida de nômade transformou algo?
A minha visão do mundo. As pessoas gostam de ver a vida como um túnel. Gostam de estar num trilho de trem que tem um caminho certo, porque acham que é mais fácil e seguro, não querem enxergar outras paisagens. Enquanto eu acho que o mais belo na vida é exatamente deixar meu barco ser guiado pela correnteza, pelo coração.
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