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Boca fechada

Tradição em diversas religiões, o jejum dá um descanso ao organismo, reeduca a alimentação e favorece a introspecção

por Roberta De Lucca | foto André Spinola e Castro

Todos os meses, quando chega a esta parte da revista você encontra uma reportagem que aborda um dos grandes prazeres da vida: comer. E, justamente porque comer é gostoso, procuramos trazer matérias que ajudem você a se alimentar melhor, sem perder o deleite de saborear um bom prato. Para sair um pouco da rotina, nesta edição o assunto é justamente o oposto: vamos falar de jejum, que é quando ficamos um período sem comer nada sólido e tomamos apenas líquidos. Está certo que nem todo mundo consegue se imaginar passar 24 horas sem botar um grão sequer de arroz na boca, e tomar apenas água ou suco, mas quem jejua garante que é bom e ajuda a limpar o organismo.

Na cultura hindu, que baseia seus hábitos alimentares na medicina ayurvêdica, jejuar é ato cotidiano. O décimo primeiro dia de cada mês é o ekadasi, o dia em que ninguém come sólidos e apenas ingere um pouco de líquido. "Em geral, as pessoas exageram na quantidade de comida e não têm uma dieta balanceada. Por conta desse excesso, e porque estamos sempre comendo, o organismo não tem tempo de digerir os alimentos em sua totalidade e eles se putrefazem dentro do corpo, tornando-se tóxicos. Aí o jejum ajuda a eliminar essas toxinas que sobraram", afirma o médico ayurvédico Bokkulla Ramachandra Redy, que mora no Brasil há 15 anos e regularmente receita jejum para seus pacientes. Para Redy, o dia sem comer também auxilia na liberação das toxinas dos agrotóxicos das verduras e legumes, do tabaco e do álcool ingerido normalmente.

O jejum, porém, não é unanimidade em todas as medicinas. Nem na ocidental e tampouco em outros modos orientais de ver o corpo, como a medicina chinesa. O médico Ysao Yamamura, que dirige o Centro de Pesquisa e Estudo da Medicina Chinesa vinculado à Universidade Federal de São Paulo, não acredita nessa prática como ferramenta para limpar o corpo. "Se alguém sente necessidade de se desintoxicar é sinal de que está comendo veneno", diz. Por isso, para Yamamura mais vale uma alimentação o mais natural possível que abster-se de comida. "Se os animais não jejuam voluntariamente, os humanos não deveriam fazer o mesmo. Bichos param de comer quando estão doentes e pessoas também. Fora isso, ninguém precisa deixar de comer", afirma, sem, no entanto, condenar quem jejue.

O endocrinologista Sergio Dib, da Universidade Federal do Estado de São Paulo, explica que naturalmente fazemos jejum diário, enquanto dormimos. Daí, na opinião do médico, não temos necessidade metabólica de ficar 24 horas sem comer. Mesmo porque, completa ele, não existe comprovação científica de que a abstenção de comida faça uma faxina extra no organismo para complementar a eliminação rotineira das toxinas por meio das fezes, urina e suor. O alerta que Dib faz é para adeptos de longos jejuns. Nas primeiras 12 a 24 horas, o organismo usa todo o glicogênio armazenado para suprir a necessidade energética. Após 24 a 48 horas passamos a consumir nossos estoques de gordura e depois de 48 horas o corpo queima a proteína dos músculos. "Daí para a frente o organismo entra em processo de inanição, que leva, por exemplo, à falência muscular, renal e cardíaca e, em casos extremos, à morte. Mas é claro que o tempo para se chegar a isso varia conforme o indivíduo", diz Sergio Dib, afirmando que ficar um ou dois dias de estômago vazio não é prejudicial a uma pessoa saudável, pois o corpo sobrevive com suas reservas naturais.

Um dia líquido
Então, se você pretende dar um tempo para o seu organismo depurar os excessos que cometeu ao longo da semana, pode ficar um ou dois dias sem comer tranqüilamente. "Mas tomar água é fundamental", afirma Clifford Lo, coordenador da Divisão de Nutrição da Escola Médica da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Conforme o pesquisador, que realizou estudo sobre os efeitos do jejum em pacientes pediátricos em pós-operatório, o fator mais limitante do jejum é a falta de água. "Mais de 90% dos alimentos é composto por líquidos e uma pessoa precisa de pelo menos 2 litros por dia. No jejum sem água, a desidratação acontece em cerca de dois dias e ao fim de sete a dez dias poucas pessoas sobrevivem."

Adeptos do jejum total conseguem passar o dia tomando água e nada mais. Mas a maioria das pessoas faz jejum parcial, que inclui, a exemplo da dieta prescrita pelo doutor Redy, a ingestão de suco ou chá, além de água, ao longo de 24 horas. Esses líquidos suprem as necessidades de hidratação do corpo e o açúcar das frutas alimenta e diminui a fraqueza. A diferença em relação a um dia normal é aprender a ficar de estômago vazio sem sofrer com a falta de saciedade que sentimos após as refeições. Por outro lado, experimentamos como é ficar com o corpo mais leve e sem aquela preguicinha típica que nos envolve enquanto fazemos a digestão. Além disso, jejuar pode nos fazer reavaliar velhos hábitos. "Quando o homem se priva de comida, ele tem um tempo para pensar no quanto come em exagero e em quantas pessoas não têm acesso nem a um quarto dessa comida", afirma Fernando Altemeyer, do departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC de São Paulo. Conforme o professor, o jejum religioso do ramadã, por exemplo, leva os muçulmanos a compreenderem o que sente uma pessoa com fome e isso desperta a caridade.

Aprenda com a fome
Talvez esse motivo não o inspire a jejuar, mas mostra que você pode aproveitar o dia do jejum para refletir e perceber novidades, como as próprias reações de seu organismo e da sua mente. Jejuar pode servir para reeducar a alimentação. À medida que jejuamos com mais freqüência, percebemos que ingerir alimentos leves antes e após os períodos sem comer facilita o jejum. O corpo se acostuma a processar comidas menos gordurosas e industrializadas e o aparelho digestivo começa a ficar mais tempo em descanso do que quando comemos muito. Quando chega o dia do prato vazio, não sentimos tanta fome quanto nas primeiras vezes em que vivemos nosso dia de faquir. E de quebra ganhamos alguns dias a mais de alimentação saudável.

Algumas pessoas defendem que o jejuador aproveite o dia para atividades mais relaxantes e introspectivas. O professor de yoga Sandro Malburgh Bosco, que durante quatro anos jejuou uma vez por semana, diz que a fome serve inclusive para afiar a mente. "A idéia é dominar o pensamento até passar por cima da idéia fixa no desejo de comer."

"Também podemos aproveitar esse momento para cuidar do corpo e da mente, fazendo massagem, yoga, exercícios leves e meditação", diz Fernando Moura Garcia, que há 20 anos jejua a cada 15 dias e há 11 anos trabalha com naturopatia - método de tratamento que se vale de alimentação natural, massagens e fitoterapia, entre outras técnicas naturais de cura.

Nada impede, porém, que você fique sem comer num dia normal de trabalho, como fazia Sandro Bosco. Aí o segredo é testar seu organismo e perceber se você encara numa boa a rotina do escritório com um buraco no estômago, ou se prefere pegar mais leve e jejuar no fim de semana, aproveitando para ir ao parque tomar sol, ficar em casa arrumando os livros, assistindo a um filme ou meditando. O que não vale é viver o jejum como uma privação, um sofrimento - afinal, foi você quem optou por ficar um dia sem botar nada na boca para dar um tempo para o seu organismo, lembra?

Você pode adotar uma postura meio budista, aderir ao meio-termo. O príncipe Siddharta Gautama meditou muito até perceber que ninguém deve se entregar a todos os prazeres mundanos e tampouco vestir a camisa do ascetismo. Ao se dar conta disso, ele aceitou a tigela com leite e arroz que uma camponesa lhe ofereceu após dias a fio de jejum. No momento em que comeu, restaurou as energias, abandonou a companhia dos ascetas radicais com quem estava e foi meditar em outras bandas até tornar-se Buda. Como você vê, nem um dos homens mais iluminados foi tão radical. Prova de que não é preciso ser um asceta para jejuar. Basta aproveitar a oportunidade de aprender com a novidade.

Lição de casa
A chef e proprietária do restaurante italiano Spadaccino, Paula Lazzarini, preparou uma receita de trenette cuja massa é feita com farinha de trigo e grano duro, acompanhada por molho de alcachofras, para você fazer bonito frente aos convidados. "A massa só de grano duro é muito mais dura e de pouca elasticidade, mais difícil de trabalhar. Por isso, a receita leva metade de farinha comum, que ajuda na sova", diz. Paula afirma ainda que o trenette (um tipo de talharim) é mais espesso e mais curto (entre 15 e 20 cm de comprimento) que as massas comuns, sendo bem fácil de fazer em casa. Outra dica da chef é trabalhar sobre uma tábua grande de madeira, que rouba menos calor do que a pedra da pia e mantém a massa na temperatura ambiente enquanto ela está sendo feita. Uma tábua de material plástico também pode substituir a madeira.

ingredientes da massa (para 4 pessoas)

200 g de sêmola de grano duro

200 g de farinha de trigo

4 ovos

Assim é mais fácil
1. Uma semana antes do dia do jejum, substitua os alimentos sólidos do jantar por uma sopa. Com isso, o organismo se acostuma com menos comida e você não sentirá tanta fome quando jejuar.

2. Se quiser jejuar segundo os preceitos da medicina ayurvédica, na manhã do dia de jejum tome um copo de água morna com gotas de limão e uma colher (sobremesa) de mel. Ao longo do dia, tome água e suco.

3. Caso sinta um pouco de sonolência ou prostração (sintomas derivados da falta de alimento), coma uma pitada de sal para aumentar a pressão ou um pouco de mel para restaurar a vitalidade.

4. Dia de jejum não é sinônimo de não fazer nada. Ocupe-se. Quanto mais atividades fizer, menos vai pensar na comida. Sinta as reações do corpo e faça o que tiver vontade.

5. Meditar é uma opção. Quando ficamos sem comer, é natural pensarmos em comida. Treine a mente para se desviar desses pensamentos.

6. Diabéticos, pessoas que tomam medicação contínua, crianças e idosos não devem jejuar.

7. Para fazer jejum de mais de dois dias, converse com seu médico ou um nutricionista para maiores orientações.

Para saber mais

• Bokkulla Ramachandra Redy

• Centro de Pesquisa e Estudo da Medicina Chinesa, www.center-ao.com.br

• Você Sabe se Desintoxicar?, Dr. Soleil, Paulus

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