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Dança das cadeiras

Ao comprar um móvel de segunda mão num bazar você integra uma cadeia que ajuda quem precisa, reaproveita uma peça antiga de qualidade e gera menos lixo

por Roberta De Lucca | foto Cacá Bratke | produção Samir Zavitoski

Na sua casa existe algum móvel que, além de decorar, tenha sido comprado para ajudar uma criança com câncer, uma pessoa com necessidades especiais ou um deficiente visual? Na minha não tem. Mas, se eu tivesse pensado nisso antes, a mesa antiga de madeira maciça que coloquei na minha sala poderia trazer esse toque do bem em sua história. Em vez de comprar o móvel na feira de antiguidades do bairro paulistano do Bixiga, eu poderia ter ido a um bazar de uma entidade beneficente e encontrado uma peça similar, ou até mais bacana, e com duas vantagens: provavelmente eu teria gasto menos e ao assinar o cheque estaria doando o valor da compra para pessoas que precisam de ajuda. Vai dizer que não é unir o útil ao agradável?

Comprar um móvel usado nesses locais pode ser um negócio da China. Afinal, organizar bazares de usados e seminovos com peças a preços baixos (até irrisórios) foi o caminho encontrado por muitas entidades assistenciais para transformar em dinheiro os donativos que recebem. O que parece inútil para uns serve para outros e ao final de um mês se converte numa boa receita para a associação auxiliar na inclusão social de quem precisa, cuidar da saúde de doentes, alfabetizar crianças e adultos ou ensinar um cego a ler. "Nosso objetivo é comercializar barato para arrecadar o quanto pudermos para a fundação", diz Sandra Marchi, coordenadora do bazar da Fundação Dorina Nowill Para Cegos, em São Paulo.

Faro para bons negócios
Com uma frase simples assim Sandra resume o espírito de um bazar de usados. E com o coração aberto para embarcar nessa corrente filantrópica você pode passar a encarar um deles com outros olhos. Aliás, o sentido da visão é imprescindível quando se vai a um bazar, pois a primeira impressão nem sempre é das melhores. Ao entrar num local como a Casa Hope, um sobrado no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, você se pergunta o que está fazendo ali, espremido naquele estreito corredor entre sofás, cadeiras, armários, mesas e camas desmontadas amontoadas umas nas outras. Mas, ao ignorar a bagunça e afinar o olhar para "enxergar" oportunidades, não demora muito para descobrir peças baratas que bem poderiam estar na sua sala. Quando fiz essa reportagem, vi uma cadeira dos anos 60 que ficaria bárbara numa mesa de jantar acompanhada por cadeiras de estilos diferentes. Bastava trocar o estofado da peça de míseros 10 reais. Não comprei porque não tem lugar para ela em casa, mas talvez fosse perfeita para você. "Registramos cerca de 2 400 vendas mensais no bazar, e o dinheiro vai para a Casa Hope, que cuida de 75 crianças carentes com câncer e assiste seus familiares", diz Elza Fátima Campana, coordenadora do Bazar Hope.

Nem adianta olhar no para saber mais, ao final deste texto, para pegar o endereço e ir atrás da cadeira, porque certamente ela já foi vendida. Em vez de se decepcionar, aprenda a primeira lição sobre como garimpar móveis usados: quando gostar de algo, compre na hora, porque amanhã dificilmente vai estar lá. "Existem pessoas que vêm aqui todos os dias e até duas vezes por dia", afirma Rita de Cássia Bettega, gerente do Samburá, bazar do Lar Escola São Francisco, um dos mais tradicionais de São Paulo. Rita conta que os maiores compradores são decoradores, antiquários e donos de lojas e de barracas em feiras de móveis e peças antigas. Embora seja fácil perceber que a concorrência é grande, mesmo que você não se transforme num "rato de bazar" são boas as chances de encontrar peças de qualidade, feitas com madeiras nobres como imbuia, jatobá, mogno e marfim, por exemplo.

Todos os dias as entidades retiram doações e por isso há novas peças à venda na mesma proporção. Em algumas associações, como Lar Escola São Francisco, Unibes e Casas André Luiz, os itens com chances de serem vendidos por um valor melhor (mas nada exorbitante, que fique bem claro) recebem tratamento VIP: uma lixadinha, um pouco de cera e até descupinização, se o reparo não sair caro. "Só mexemos nas peças que podem ganhar mais valor de venda", afirma Poli Gorodetchi, do bazar da Unibes - União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social. Ali é possível encontrar itens de época bem conservados, como um móvel original art déco (estilo de mobiliário surgido nos anos 20 que não tem os excessos de rebuscados do mobiliário do século 19) por 700 reais - uma barganha.

O preço é determinado por um antiquário que avalia voluntariamente as peças antigas. O mesmo acontece no Bazar Hope, que conta com a ajuda de um antiquário, parente de um voluntário. Em outras entidades, entre elas o Samburá, freqüentado por decoradores como Sig Bergamin, um dos mais celebrados do país justamente por seu talento em criar ambientes que misturam peças de estilos diferentes na medida certa, a análise empírica do móvel conta com a experiência de quem trabalha no ramo há anos. "Nosso marceneiro determina o valor do item por sua madeira, design e época. Em alguns casos, chamamos um profissional para examinar a peça", diz Rita Bettega. "Nos cinco Mercatudo das Casas André Luiz, os preços variam entre 50% e 60% do valor de mercado", afirma Jorge Alexandre Lima, coordenador da rede, que vende todo tipo de móveis, boa parte bem popular. Mas no meio deles há armários e mesas dos anos 50 e 60 imperdíveis.

Diminua o lixo, restaure
Ele quase sempre precisa de um reparo. E aí está a parte mais divertida da história. Além de lapidar seu olhar, você ainda tem que treinar sua verve moveleira para pensar em como o móvel vai ficar depois de restaurado (se o trabalho for fácil você mesmo pode encarar o desafio, que tal?), ou até se ele pode ganhar outra função. Quer um exemplo? No Samburá vi um móvel para telefone dos anos 60/70, com gaveta, prateleira para lista telefônica e assento para as pessoas sentarem durante a conversa. Eu não o compraria para colocar o telefone, mas com uma pintura eletrostática de cor viva ele seria um bom lugar para colocar o equipamento de som ou para guardar CDs. Tudo depende do ponto de vista e do estilo da sua casa, claro.

Olhar uma coisa e vê-la transformada em outra é liberar sua criatividade sem medo de errar. Na Casa Cor da Rua, espaço mantido pela Organização de Auxílio Fraterno (OAF), de São Paulo, o lixo vira móvel e peça de decoração com a maior facilidade. Os 21 adolescentes coordenados pela irmã Ivete de Jesus aprendem a transformar encostos de cadeiras e cabides antigos de boa madeira em mancebos transados que já foram presenteados a gente importante, como o presidente Lula. Com o pínus-canadense de palets (estruturas de madeira usadas para armazenar carga), a irmã Ivete bolou banquetas inspiradas nos anos 50. "Gosto de decoração e pego referências de revistas. Tudo o que fazemos aqui sai da nossa cabeça. Não trabalhamos com orientação de designers de móveis", diz, acrescentando que algumas peças estão sendo exportadas para a Itália.

O mais legal nesse trabalho é que o material é doado por empresas que descartam seu lixo e principalmente por catadores de rua que sabem o quanto é importante reutilizar o que seria destinado aos aterros. E você também entra nessa cadeia quando compra um móvel usado ou da OAF (que é apenas uma entre centenas de entidades similares espalhadas pelo Brasil). Quanto mais consumimos esses produtos, mais colaboramos para a preservação dos recursos naturais.

Deixamos de comprar uma peça nova - que resulta na derrubada de árvores - e evitamos que móveis velhos virem lixo. Sem falar que adquirimos bens de excelente qualidade e humanizamos ainda mais a nossa casa. "As pessoas não podem viver num lugar com cara de show room. A morada deve ser agradável e resgatar memórias afetivas. Quando adquirimos uma poltrona dos anos 60 lembramos de nossos pais, da nossa infância", afirma Nick Santiago. Mestre na arte de buscar peças em qualquer estado em bazares e lojas de móveis usados, ele coloca mais lenha na fogueira para inspirar quem está quase convencido de que vale a pena investir num móvel de segunda mão. Nick defende que, ao participar de todo esse processo, despertamos para a possibilidade de transformar nossa casa cada vez mais no melhor lugar para se estar.

Aprenda com quem entende
Nick Santiago é um verdadeiro "rato de bazar". Ele vive garimpando peças que podem ser recuperadas e colocadas à venda em sua loja, sugestivamente batizada de Le Mocó. Com sua experiência de anos, Nick dá dicas preciosas para quem deseja se iniciar na arte de descobrir bons achados entre montes de móveis usados.

1. Sempre vá ao bazar pela manhã. Em geral é quando as peças que chegaram no dia anterior são colocadas à venda. Para garantir a viagem, informe-se com o pessoal do bazar quanto à periodicidade de entrada dos produtos na loja.

2. Cuidado para não se empolgar com as ofertas tentadoras. Pergunte-se se você realmente precisa daquele móvel, se ele cabe na sua casa e se combina com as outras peças.

3. Gostou da cadeira? Então veja se ela está firme ou com a estrutura bamba. Caso esteja "jogando" muito, às vezes requer um serviço de marcenaria mais trabalhoso. O segundo passo é virar a cadeira, sofá ou poltrona. Se a parte inferior estiver muito estragada - com molas quebradas, madeira podre ou infestada de cupins - não vale a pena.

4. Cupim não determina a desistência da compra. Se o móvel não estiver tomado pelos insetos e tiver bom preço, vale a pena comprar e tratar a madeira com produto especial.

5. Às vezes aquele pé de cadeira que está faltando vai encarecer demais o preço final do móvel após a restauração. Pense bem antes de comprar.

6. Pechinche o preço, principalmente dos móveis estofados. Quanto mais velho o tecido, mais poder de barganha você terá.

7. Além dos bazares, vá a lojas de móveis usados de bairro. São baratas e têm sempre boas ofertas. O mesmo vale para feiras de móveis usados e antiguidades.

8. Arrisque-se a colocar a mão na massa para recuperar uma cadeira ou mesa. Tirar as camadas de tinta com solvente e lixa não é tão difícil e tampouco passar uma cera para dar acabamento. É uma boa chance para usar sua criatividade.

9. Quando olhar para um móvel, veja se ele pode ter outra função na sua casa. Um baú velho serve como mesa de apoio. Com uma nova pintura, um armário antigo de consultório médico de ferro pode ser colocado na cozinha. Uma mesa pequena pode substituir um criado-mudo tradicional. Um cesto de palha se transforma em luminária.

10. Quanto mais freqüentar bazares, mais você se acostumará a ver as peças que são boas e valem ser compradas. É uma questão de treino.

Para saber mais
Agente Cidadão, www.agentecidadao.com.br

Ajuda Brasil, www.ajudabrasil.org

Bazar Hope
Rua Joaquim Távora, 1426, Vila Mariana, São Paulo
fone: (11) 5084-7111
www.hope.org.br

Casa Cor da Rua
Rua dos Estudantes, 483, Liberdade, São Paulo
fone: (11) 3272-9724

Casas André Luiz, www.andreluiz.org.br

Fundação Dorina Nowill
Rua Doutor Diogo de Faria, 558, Vila Mariana, São Paulo
fone: (11) 5087-0999
www.fundacaodorina.org.br

Bazar Samburá - Lar Escola São Francisco
Rua França Pinto, 783, Vila Mariana, São Paulo
Fone: (11) 5579-4633
www.lesf.org.br

Le Mocó
Rua Aureliano Coutinho, 278, loja 3, São Paulo
fone: (11) 3662-4651

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