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Não é preciso gastar muito verbo para dizer que as ruas das cidades grandes e médias brasileiras deixaram de ser habitáveis. Isso todo mundo sabe. Vai longe o tempo em que as crianças podiam brincar com os amigos na rua, sob os olhos descansados dos pais e vizinhos que conversavam por ali, sentados na calçada. Foram-se todos para dentro de casa, em parte por medo da violência, mas também porque ninguém mais tem tempo de jogar conversa fora com os vizinhos. Mas essa é uma cantilena antiga. O que pouca gente percebe é que, ao nos fecharmos em casa, perdemos uma coisa valiosa: o espaço de lazer.
Essa carência da vida urbana é mais difícil de ignorar no caso das crianças, que, na ausência de quintal, parque ou rua, trazem para dentro de casa as brincadeiras, os brinquedos e às vezes toda a molecada do prédio para brincar no quarto. Difícil não ouvir esse tipo de apelo (muitas vezes feito aos berros) por mais espaço.
O problema também afeta os adultos, mas poucos percebem, tão condicionados estamos a esquecer nossa própria satisfação e a focar a atenção nas obrigações, competição e prova de competência. E o que é o lazer, senão um prazer pessoal, a realização daquela atividade de que você gosta?
"O lazer é fundamental para o ser humano, mas as pessoas desaprenderam a se divertir de verdade", diz a educadora Célia Tilkian, diretora-geral do Colégio Pentágono, de São Paulo. Resta essa nova modalidade de diversão, o lazer de consumo, representado pelos shopping centers, que oferecem o pacote completo: compras, cinema, parquinho e restaurantes. Tudo bem, as cidades litorâneas ainda têm as praias (quando estão limpas e não têm assaltantes). E há também os espaços públicos, como centros culturais e unidades do Sesc, onde a proposta é mais lúdica, didática e cultural. Mas quem é que tem um desses perto de casa - ou que seja longe, mas tenha estacionamento barato?
É fácil. Comece comprando um terreno grande. Instale uma piscina, plante um pomar com árvores frutíferas e construa ali uma casinha para as crianças brincarem e uma quadra poliesportiva. Na residência principal, faça uma sala de jogos ampla, outra para a TV, outra para o som e uma biblioteca. Uma estufa no quintal para brincar de jardinagem também cai bem. Pronto, diversão garantida. Agora é só convidar os amigos e acabou o problema. Não se esqueça de me chamar.
Bom, mas, se você, assim como quase todo mundo, não tem tanto espaço no apartamento ou não está com dinheiro sobrando, tudo bem. Sempre é possível explorar os espaços disponíveis na casa ou apartamento para criar locais de diversão.
A designer aposta tanto na importância do lazer doméstico que não se importa em deixar na porta da casa um tanquinho de areia para as filhas, Jade Maria e Luz Maria. "Água e areia são importantes para desenvolver as sensações táteis, estimular as descobertas de enterrar e desenterrar e de ver objetos afundando e boiando. Quem puder deve ter um tanque de areia ou uma piscininha no quintal ou na varanda", afirma a coordenadora do Núcleo de Pesquisas Sobre o Brincar da PUC de São Paulo, Maria Ângela Barbato Carneiro. Importante é deixar os brinquedos bem acessíveis.
Quando envolve o lazer dos filhos, o segredo está em estabelecer regras. Você pode abrir a casa para eles receberem os amigos num esquema diferente. Em vez de a moçada ficar apenas assistindo vídeo, jogando games e navegando na internet, libere a cozinha. Deixe sob responsabilidade deles o preparo de pizzas, macarrão ou sanduíches, por exemplo, e combine previamente que a limpeza também é encargo deles. A noitada ainda pode se completar com jogos de tabuleiro.
"Os jogos são instrumentos de lazer para qualquer idade. Divertem, afinam a personalidade e são um mecanismo de autoconhecimento. Com eles as pessoas acabam expondo suas reações mais primitivas", diz Mônica Hardy Sabino, diretora comercial da Origem Jogos e Objetos - empresa mineira que produz jogos. Amante de jogos de tabuleiro desde menina, a administradora Silvia Del Gallo passou sua paixão para as filhas e a neta de 5 anos. "Gosto tanto dos jogos que eles ficam expostos numa estante da sala para quem quiser usá-los."
O publicitário Bruno Graell Reis também vê os jogos como instrumento de reunião e não pensou duas vezes quando levou para o apartamento uma mesa de sinuca. "Gosto de ter a casa cheia e a sinuca foi uma maneira de trazer os amigos para se divertirem aqui." Para completar, ele tem uma mesa de pebolim (que ele, carioca, chama de futebol-totó) espremida no quarto de empregada. "Uma vez por semana me reúno com colegas da agência para disputar um campeonato."
Na casa de Carlo Giovani, o lazer com os amigos é mais sensorial. O designer gráfico oferece jantares em que os convidados ajudam a preparar a comida. "Combinamos um prato básico e cada um traz um ingrediente. Na hora vamos adaptando a receita", diz ele, explicando que o atrativo está justamente na surpresa quanto ao resultado e na participação de todos. "Não tem graça sentar, comer e ir embora. O legal é todos elaborarem a alquimia dos alimentos."
A própria Célia Tilkian é adepta do lazer doméstico. Uma vez por mês ela e o marido chamam amigos para assistir a uma palestra em sua casa. "Escolhemos alguém que tenha algo interessante a dizer sobre filosofia e arte, por exemplo, e promovemos um encontro cultural." Daí para bolar um sarau literário, uma noite com música ao vivo ou uma oficina de pães não precisa muito. Basta botar abaixo a convenção de que lazer em casa é sinônimo de piscina, churrasqueira, playground e salão de jogos e um espaço de qualquer tamanho pode ser o lugar perfeito para você, sua família e seus amigos se divertirem muito.
2. Deixe caixas ou cestos de brinquedo ao alcance das crianças para que elas possam pegar o que quiserem com total liberdade
3. Existem empresas que fabricam tinta esmalte fosca usadas em quadro-negro escolar. Que tal pintar uma porta ou uma parede do quarto das crianças para elas desenharem com giz?
4. Estimule o faz-de-conta comprando ou fazendo fantasias para seus filhos - mas um cesto com roupas velhas, lenços, luvas e chapéus também vale para despertar a fantasia
5. Uma barraca de pano montada no quarto, varanda ou quintal é um elemento tão lúdico quanto a piscina de água ou de bolinhas e o tanquinho de areia
6. Para tirar seus filhos da frente da TV ou do computador, invente novidades como um piquenique na sala. Leve-os a uma loja para comprar jogos que despertem o interesse deles, faça bijuterias com suas filhas ou confeccione pipas com os meninos
7. Saiba ouvir, respeitar e negociar (se for o caso) as prioridades de lazer de seus filhos
8. Não basta fornecer todos os elementos para divertir as crianças. Você também tem que brincar com elas
Por que não ensinar aos demais? Mesmo que os ásanas (posições do yoga) não saiam perfeitos, certamente o encontro numa tarde de domingo vai render bons momentos. Você tem amigos que tocam instrumentos? Então convide os músicos de fim de semana para uma canja na sua casa. E que tal resgatar diversões da infância, como uma boa partida de jogo de botão ou de batalha naval? Quem sabe as mulheres não se inspiram a tentar atividades que nunca fizeram, como confeccionar enfeites para o Natal ou fazer biscoitos? Na verdade, o que fazer é o menos importante. O que vale mesmo é experimentar coisas novas ou que estavam esquecidas e valer-se delas para se divertir com os amigos. Isso, sim, é lazer de verdade.
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