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Reta final. Últimos 100 metros da prova dos 800 metros em atletismo da Olimpíada de Los Angeles, em 6 de agosto de 1984. A emoção ensurdece o estádio enquanto Joaquim Cruz arranca. Com passadas largas, ele emparelha com o campeão inglês Sebastian Cole, que dominava as provas na época, era o favorito e estava ganhando a prova até os 700 metros. "Naqueles segundos o chão se desmanchou. A dor do esforço se foi e eu voei, corri no ar", diz Joaquim. O final da competição é eletrizante: em segundos ele abre vantagem sobre o inglês, ganha a primeira medalha de ouro do Brasil na modalidade e estabelece o novo recorde olímpico para a prova, que passou a ser de 1min43s e durou oito anos.
Pergunte a Joaquim o que ele pensou naquela hora e ele hesita, procurando palavras. Ele não pensou em nada. Ele nem sentia o mundo ao redor. "A platéia parecia apenas uma massa embaçada de cores, e o barulho era só um zunido baixo. Eu via e sentia como se o tempo estivesse parado." Os cientistas chamam essa percepção diferente da realidade de estado ótimo de ativação. "A pessoa nesse estado sofre certa amnésia, perda de sensibilidade corporal e desligamento total do que está à volta", diz a psicóloga Kátia Rubio, professora de psicologia do esporte da Universidade de São Paulo (USP). Nesses momentos de altíssima concentração, as tensões estão sob controle e não interferem na performance do atleta.
Não é o sonho de todos nós quando estamos entregues a uma atividade importante? Um trabalho puxado, um amor intenso, ou mesmo aquela pelada deliciosa com os amigos no fim de semana? Enfim, qualquer coisa para as quais você gostaria de ter concentração total, estar 100% concentrado, imerso, entregue. A ponto de todo o resto não existir e você ficar só com você.
O piloto Hélio Castroneves, corredor de fórmula Indy e bicampeão da corrida de Indianápolis, mergulha em si mesmo toda semana. Basta ter corrida. "Na pista estou tão presente que chego a ouvir cada pecinha do carro em movimento." Sua concentração está tão focada que, ao terminar a prova, muitas vezes Hélio precisa recorrer aos companheiros e aos vídeos para recordar alguns momentos da corrida. É como se ele se desligasse completamente do que acontece para além da sua máquina.
Esse estado de atenção é bem parecido com o que acontece na prática da meditação, que também é um exercício de autocontrole por meio da concentração. "Tanto o atleta quanto o meditante alcançam o estágio de concentração em que não escutam e não enxergam nada além do seu foco, seja uma pista de atletismo, seja a evolução espiritual", diz Marcos Rojo, professor de educação física e yoga da USP e coordenador do curso de pós-graduação em yoga das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), de São Paulo.
Acontece. Talvez Joaquim Cruz tenha ganhado um brinde na Olimpíada de 84, um brinde maior que sua medalha de ouro. "Naquele momento eu desviei o foco da minha vida: não é mais o fim da competição que importa, mas sim o que fazemos para chegar ao fim dela", diz o atleta. "Quando ganhei em Los Angeles, me dei conta de que não sabia responder aos jornalistas o que eu sentia naquele momento, no final da prova. Mas tinha a sensação de que tinha estado bem próximo de Deus."
Há indicações de que tanto o estado meditativo quanto o estado ótimo de ativação existiriam porque, cada um a seu jeito, estimulariam o envio da endorfina liberada pelo cérebro para o resto do corpo. "As pesquisas apontam nesse sentido, mas não são conclusivas", diz a psicóloga Luciana Ferreira Ângelo, da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do Instituto do Coração, em São Paulo.
Para qualquer praticante de qualquer esporte que já está se animando e imaginando intensos momentos desligado do mundo, uma observação importante: essa concentração intensa não ocorre por acaso. Mas pode ser, sim, aprendida, exercitada. E nem precisa gastar a paciência dos colegas de time, porque ela pode ser treinada fora da quadra, do campo, da pista. O segredo? Meditação. Hoje, os atletas utilizam-se de técnicas para "aprender" a entrar e permanecer no nada, no casulo. Ou seja, atletas podem treinar para controlar a mente e não deixar que nenhum estímulo tire sua concentração.
A campeã olímpica de basquete "Magic" Paula aprendeu a suportar os minutos que antecedem uma importante partida se recolhendo, sozinha, no vestiário. "Um pouquinho antes de entrar no ginásio, eu mentalizava o jogo", diz. Foi por um pequeno instante de distração, vale dizer, que Joaquim Cruz perdeu a medalha de ouro nos 800 metros em Seul, quatro anos depois da glória de Los Angeles. O ouro ficou para trás quando ele, num ínfimo instante, percebeu sua própria imagem transmitida num telão do estádio. "Ali, perdi a fração da corrida."
Ao lado das questões pessoais, também treinava forte. Todas as manhãs, todas as tardes, todos os dias - ao lado do seu mestre, o treinador Luiz Alberto de Oliveira. Mas como qualquer probleminha, por menor que seja, pode virar um problemão - basta a gente querer - foi preciso também aprender a acalmar a mente para, no momento da competição, ela estar focada. Nos dias que antecederam a vitoriosa competição, ele procurou ficar só, algumas vezes com seu treinador. "Caminhei na pista, consegui não pensar em mais nada. Me senti quieto, com consciência de mim, em paz", lembra. E, afinal, o que é a meditação senão estar consigo mesmo?
O yoga ensina exercícios de respiração, chamados de pranayamas, que buscam obter e controlar a energia vital, o prana. Daiane parece saber disso. "Respiro fundo antes de começar e me concentro. Nem mesmo a torcida me tira a atenção naquele momento." Seu próximo gesto, a partir daí, será o de, em menos de um segundo, compor um salto chamado tecnicamente de "duplo twist estendido". Daiane dos Santos é a única ginasta do planeta capaz de realizá-lo: de costas, ela parte e dá um giro de 180 graus no ar, depois completa duas voltas sem pôr os pés ou as mãos no chão. Conseguiu imaginar? Tudo isso com o corpo ereto. "Só dou conta de tudo quando termino", diz.
O vôo de Daiane dos Santos dura uma fração de segundo. O de Joaquim, alguns segundos. As dificuldades pelas quais os dois tiveram que atravessar, durante competições, ganham um tom de sonho. E, no final, o gosto que fica é o de ter ido além da vitória. Todos nós, mesmo que só um pouquinho, não nos sentimos assim quando vencemos barreiras, sejam internas ou externas? As dificuldades desaparecem na lembrança e a emoção da conquista ganha todos os espaços da memória. Vira um registro pessoal inesquecível, dos grandes troféus do canto das boas recordações.
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