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Espetáculo do vazio

O estilista Jum Nakao nos convida a despir as fantasias e vestir a própria pele

por Marcia Bindo | foto Ivan Shupikov

O desfile do estilista paulistano Jum Nakao no São Paulo Fashion Week começou quando acabou. Quem assistiu desde o início viu uma passarela como tantas outras: caras e bocas, rebolados e pernas. De estranho, só o fato de que as modelos, vestidas com colantes pretos do pescoço aos pés, ostentavam perucas pretas que lembravam aquele brinquedinho, o playmobil, e usavam, sobre os colantes, roupas feitas de papel vegetal branco delicadamente recortado, imitando bordados e rendas. Mas aquilo era encenação. O desfile de verdade começou quando as modelos se juntaram e, de maneira agressiva, rasgaram as roupas de papel. O estilista, câmera de vídeo em punho, filmou a reação do público: a platéia estava comovida, arrebatada com a surpresa. "Queria provocar uma reflexão sobre a efemeridade da moda", diz ele. O nome do desfile, "Desejo", é sugestivo.

"O desejo é passageiro como a moda. Não dá para ficar prisioneiro dessas ilusões". Jum, 37 anos, vai transformar seu desfile em um projeto cultural. Os bastidores foram documentados para virar um livro e um DVD, reunindo visões sobre a moda de profissionais de diversas áreas, como teatro, psicanálise e filosofia. Nesta entrevista, ele convida o leitor a se despir de conceitos e meditar sobre o assunto. Já que, para ele, "só conseguimos enxergar o que está por trás das coisas se buscarmos ficar vazios".

Como foi o processo de criação do seu desfile?
Surgiu de um questionamento pessoal de como eu queria me relacionar com meu trabalho. Queria algo totalmente desprendido de amarras e convencionalismos, em que as pessoas pudessem interagir, que não fossem meras espectadoras, provocando-as a pensar. Então surgiu a idéia de fazer algo inusitado. Pensei em uma coleção feita de roupas de papel, porque esse material transmite poesia e sonho e é efêmero - pode deixar de existir em poucos minutos.

Por que você o chamou de "Desejo"?
Queria fazer uma reflexão sobre o mecanismo que gera o desejo. Esse sentimento é cultivado por nós mesmos e uma das maneiras de saciá-lo é com a posse. No instante em que as modelos destruíram as roupas, houve um sentimento de perda. Assim é o desejo: uma armadilha, pois é transitório.

O que você queria mostrar com isso?
A realidade é que moda não é apenas roupa. Pense bem: roupas são pedaços de tecidos, que servem para proteger nosso corpo. Moda é mais uma entre as várias maneiras de você ser. Todos nós somos através da moda. Como também somos por meio do trabalho, de atitudes, das palavras, do olhar. É, na verdade, mais uma maneira de a gente se relacionar com o mundo. Por que você resolveu fazer um desfile conceitual? Porque atrás de cada forma existe teoricamente um conceito que a gerou. O meu trabalho foi o de eliminar a forma, deixando só o conceito. A diferença é que o conceito se sustenta, e a forma, por si só, não.

Podemos pensar a beleza nesse raciocínio?
Claro. Existe um padrão que estabelece o que é belo e o que é feio, e que fica totalmente preso à forma. Se ser belo fosse seguir um manual em que temos que ter tanto de altura, tanto de peito e tal, isso seria muito fácil. Com o avanço da pesquisa genética, das intervenções cirúrgicas, de modificações, poderíamos criar uma sociedade com pessoas padronizadas que buscam um ideal único - o que é extremamente prejudicial, pois perdemos a individualidade.

E onde está o mais importante, que é a essência das pessoas? Acho que o caminho da busca da beleza é exatamente a busca da essência.

Qual é a maneira saudável de se relacionar com o vestuário?
Esqueça o que as pessoas dizem e busque o jeito como você quer se relacionar com o mundo. Como? Fazendo uma auto-análise profunda. Por alguns minutos esqueça a mídia e as coisas ao seu redor e pense qual é sua vocação, qual é seu dom. A partir disso você pode estabelecer um contato mais honesto com seu ser, com sua busca, com sua realização profissional - e, por que não, com sua maneira de se vestir. Muitas vezes, o compromisso com você mesmo se perde nessa indústria de imagens. Acho que a moda deveria ser uma ferramenta de comunhão do que você é com o mundo.[

A customização é a busca dessa identidade?
A princípio sim. Roupas customizadas ou "feitas sob medida" surgiram com a intenção de as pessoas imprimirem sua identidade em suas peças. Mas percebi que até a customização começou a ter sempre um mesmo caminho - ficar parecido com algo que já existe - sem seguir um processo criativo.

Você trabalha com moda. Isso não é incoerente?
Sim, esse é o meu trabalho. Só que eu acredito que qualquer tipo de trabalho ou expressão artística jamais deve fechar um tipo de pensamento, porque, a partir do momento em que entramos nesse processo de definir as coisas, tiramos a possibilidade de as pessoas pensarem, estabelecendo uma verdade única - o que é uma grande mentira. A moda deveria ajudar as pessoas a ter opinião própria. Mas ela acaba fazendo com que muitas pessoas se desviem de sua essência para assumir um padrão preestabelecido.

E quais são as suas verdades?
Tem coisas que eu gosto e pronto. Eu adoro X-salada, acredito em ETs e meu programa predileto é a série de TV Arquivo X. Meu herói é o agente Fox Mulder, que trabalha nos "arquivos X" e investiga casos paranormais acobertados pelo governo americano. Por mais que ele vá atrás da verdade, o próprio governo destrói as provas para deixar tudo sempre cientificamente explicado. E, por mais que ele sempre esteja próximo da verdade e nunca a atinja, ele não desiste nunca. Pois ele acredita que ela existe. É por isso que eu gosto dele.

Mas não dá para negar que existe a indústria da moda.
Sim, existe. Mas às vezes tenho a impressão de que todo mundo está sendo levado por um bonde, sem pensar. Chegou a hora de a galera dizer: pare, que eu quero descer! Eu quis fazer isso com o meu trabalho. Você pode optar pela mediocridade, por sobreviver, por acordar e fazer de hoje mais um dia - ou de hoje uma obra. É uma questão de opção. E moda também tem que ser. Senão a gente vai acabar virando "playmobils".

Para saber mais

Livro e DVD Desejo, Jum Nakao, editora Senac - um debate sobre a moda e os bastidores do desfile no SPFW de junho de 2004. www.jumnakao.com.br

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