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Solte a imaginação e pense, nem que seja por alguns instantes, em como seria bom viver curtindo cada momento. Centrado e tranqüilo, você não daria importância a pequenos problemas. Pelo contrário: diante de alguma dificuldade corriqueira, abriria um sorrisão daqueles e pensaria que, na vida, tudo se ajeita. Passaria mais tardes ao lado dos amigos queridos e da família. Ouviria mais as músicas de que gosta. Prestaria mais atenção na beleza que é um dia ensolarado de inverno. Ou no prazer de comer aquela torta deliciosa que só sua mãe sabe fazer. Daria risadas com freqüência, principalmente de si mesmo. Encucaria menos com o amanhã e aproveitaria todas as horas de hoje, ciente de que elas não voltam mais. Enfim, não desperdiçaria o tempo com besteiras, como tanta gente faz por aí. Que sonho, não? Você provavelmente leu as palavras acima com um brilho nos olhos e um sorrisinho discreto, íntimo, pensando como a vida pode ser boa. Mas lá no fundo, também, deve estar suspirando, imaginando que ninguém consegue viver tão intensamente, tão... vivamente. Engano seu.
A publicitária Mara Gabrilli, por exemplo, vive exatamente assim: intensamente. Para ela, não há nada mais maravilhoso do que estar vivo. "As pessoas fazem drama por tudo, se descabelam por bobagens", afirma. "Nem se dão conta de que deveriam valorizar o lado bom da vida. Parecem esquecer que só se vive uma vez." Detalhe: Mara é tetraplégica. Adquiriu a deficiência há dez anos, em um grave acidente de carro. Mas a experiência traumática lhe trouxe mais que cicatrizes. A tragédia mudou sua maneira de enxergar a própria vida. Aproximou-se da família, ficou mais despreocupada e decidiu ajudar os outros - já que, segundo ela, teve a sorte grande de sobreviver. Hoje dedica-se a sua ONG, a PPP (Projeto Próximo Passo), que auxilia e pesquisa curas para deficientes físicos. Está sempre de sorriso aberto. "Antes, eu vivia em crise. Costumava pensar que, para ser feliz, era preciso sofrer. Hoje sei que isso é ridículo. Para ser feliz, é preciso apenas ter vontade e se esforçar um pouco." Há muitas pessoas como Mara, que passaram por um trauma e souberam dar a volta por cima. Mais: descobriram o valor que têm suas vidas. Entrevistamos vários desses sobreviventes. E ouvimos deles uma lição tão surpreendente quanto valiosa: para descobrir o valor da vida, não é preciso passar por nenhuma tragédia. Basta estar vivo.
Nem todos, diga-se, reagem positivamente a episódios assim. A perda repentina do emprego, por exemplo, tem conseqüências diferentes dependendo da pessoa. Para um executivo workaholic, que sempre viveu para o trabalho, isso pode desencadear uma depressão profunda, deixá-lo paralisado, sem saber que rumo tomar. Já para um profissional mais destemido, que adora desafios, a demissão pode servir de alavanca para uma nova carreira. Na verdade, a ciência ainda não consegue prever como alguém vai se comportar diante de um fato terrível. Não há regras, cada ser humano enfrenta as dificuldades a seu modo.
Mas pelo menos uma coisa se sabe: quem lida melhor com frustrações do cotidiano enfrenta melhor as situações extremas. Quer um exemplo? O trânsito está péssimo, infernal, quilômetros de congestionamento. Tem gente que por causa disso excomunga os políticos, a indústria automobilística, o presidente dos Estados Unidos. O que, como todo mundo sabe, pode aumentar a pressão arterial, o risco de desenvolver doenças psicossomáticas e por aí vai. Mas há aqueles que simplesmente põem um CD no carro ou colocam a leitura em dia. Responda rápido: qual deles tem mais chance de superar o fim de um casamento ou uma fase complicada de crise financeira?
Após anos de experiência como diretora do Departamento de Psiquiatria do Hospital do Câncer, a psiquiatra Maria Teresa Lourenço constatou que os pacientes que saem em menor tempo do trauma da doença são exatamente os mais maleáveis, que aceitam melhor os obstáculos, que levam a vida mais na flauta, não reclamam de qualquer coisa ou implicam com tudo. Muitos deles, inclusive, ao saber do câncer, vão em busca de antigos sonhos e decidem fazer tudo o que lhes dá na telha, como se tivessem tomado uma injeção de ânimo. "Os mais inflexíveis, no entanto, levam o dobro para aceitar as adversidades e encontrar soluções. E padecem o triplo", afirma Maria Teresa. Ou seja, dependendo de como você encara a vida, pode aprender muito com as rasteiras que ela às vezes lhe dá. Em menor escala, claro, é como perder a carteira cheia de dinheiro. Um caminho é culpar o mundo porque lá se foram toda a grana e documentos. Outro é perceber que se está muito desatento e que, por esse motivo, perdeu-se algo tão valioso.
Veja o caso do médico acupunturista Jou Eel Jia, um dos nomes mais conhecidos da medicina chinesa em São Paulo. Em 1993, ele capotou numa estrada o carro que estava dirigindo. Menos de um mês depois, passeando em sua lancha, quase morreu durante uma tempestade. "Percebi que aquilo não era má sorte, mas sim a vida me puxando a orelha", relembra. Na época, Eel Jia começava a ter destaque e saboreava o sucesso delegando a seus assistentes a prática da acupuntura. "Eu só me divertia, curtia meu barco, minha casa na praia", diz. Após os dois acidentes, Eel Jia recuperou o envolvimento com a profissão e passou a retribuir um pouco do que havia recebido. Voltou ele mesmo a aplicar as agulhas nos pacientes e resolveu difundir a acupuntura no país. Criou um projeto de ensino em hospitais e escolas e abriu um spa da mente, onde pode ensinar sobre medicina e meditação. "Esses acontecimentos horríveis foram um divisor de águas. Sem eles, talvez eu não tivesse mudado e continuaria levando aquela mesma vidinha vazia e materialista."
Emoção assim não se esquece com facilidade, diz quem já passou por isso. Ao sofrer um acidente de carro, a dona-de-casa Maria Aparecida Matias bateu a cabeça e ficou em coma durante dois dias. Por causa dos machucados, os médicos achavam que ela não escaparia. Enganaram-se. Depois de várias cirurgias plásticas sofridas, ela garante que o episódio transformou sua vida - e para melhor. "Nunca imaginei que pudesse morrer assim, de uma hora para outra, entende? Isso dá uma dimensão de como somos vulneráveis, mas ao mesmo tempo desperta um instinto de sobrevivência", conta. "Eu quero viver muito ainda, por isso aprendi a aproveitar os momentos bons ao máximo."
Experiências de quase-morte servem como uma chacoalhada, um susto. "É como se a vida estivesse te dando uma segunda chance", afirma a psicóloga Rita Pugliese, do Programa Menor Risco, do Hospital do Rim e Hipertensão de São Paulo, que ajuda enfartados a se recuperar e modificar os hábitos. Infelizmente, nem todos se ligam. Para uma boa parte, porém, a ficha cai, e os mais espertos criam novas posturas diante do mundo. "Vejo diariamente gente que, mesmo depois de enfartar e quase perder a vida, continua levando uma rotina destrutiva. Um deles chegou a pedir pizza no hospital, quando ainda estava se recuperando. Nesses casos, não há chacoalhão que adiante."
Em um exame de rotina, o ator Herson Capri descobriu que tinha câncer no pulmão. O tumor estava muito próximo da pleura, a membrana que envolve o órgão, e ele teve de ser operado às pressas. "A idéia de que poderia não estar mais aqui, ao lado da minha mulher e dos meus filhos, foi avassaladora", desabafa. "Compreendi que não sou tão poderoso como imaginava. Foi um amadurecimento muito duro, mas essencial." Após o susto, ele promoveu significativas mudanças. Parou de dar importância a problemas menores, começou a questionar a pequenez das coisas, aprendeu a não se levar tanto a sério e, principalmente, a aproveitar cada instante que passa ao lado de quem ama. "Não guardo mais dinheiro à toa para o futuro. Se eu morrer, não vai ficar muita coisa no banco." Sua filha caçula, Luiza, nasceu após a doença. "Virei um pai bobão, no bom sentido. Sou mais carinhoso, passo horas com ela no colo. Mimo mesmo meus filhotes agora. Não sei se estarei aqui amanhã, então curto todos os momentos que tenho com eles." A maior lição que o ator aprendeu é a de que todos nós já estamos no lucro, pelo simples fato de estarmos vivos. "É claro que muitas vezes eu esqueço disso, bate mau humor, estresse, volta tudo a ser como antes. Mas basta eu lembrar do que eu senti naquela ocasião e digo a mim mesmo: 'Opa, se liga, cara, você vingou, sobreviveu, acorda'."
O empresário Salvatore Caterina foi surpreendido por um infarto há alguns anos. Fumava dois maços de cigarro por dia e comandava 900 funcionários, numa rotina que não raro incluía 12 horas de trabalho seguidas. "Naquele momento, percebi que tinha a obrigação de mudar. Foi um alerta." A batalha para largar o cigarro e acrescentar exercícios físicos diários à atribulada agenda não foi das mais fáceis. Mas, aos poucos, ele conseguiu. "Vendi meu negócio e hoje não esquento a cabeça por qualquer problema", conta. "O duro é que só percebi tudo isso depois do infarto. Antes tarde do que nunca."
Há quem, depois de uma experiência de quase-morte, saia em busca de desejos que deixou para trás, mude de carreira, decida ajudar os outros, enfim, comece realmente a olhar a vida de outro ângulo. Depois que seu filho morreu de aids, a corretora de imóveis Vitoria Lamas, de 65 anos, não perde um minuto sequer. Ousada, resolveu recentemente pular de pára-quedas e está construindo uma casa toda colorida no litoral, para onde se mudará em breve. Vai sozinha, com a cara e a coragem. "Se eu não me acostumar, volto, ué. Não tenho medo de desafios. Quero sugar a vida enquanto tenho tempo!"
Com apenas 22 anos, a então estudante de direito Celia Redo, portadora de síndrome de Crohn (inflamação crônica do intestino), teve de ficar meses internada no hospital. Debilitada, chegou a pesar apenas 36 quilos. Ao se recuperar, largou a faculdade, mudou-se do Rio para São Paulo, abandonou o marido e virou assistente social. Hoje funcionária do Hospital das Clínicas, batalha para encontrar moradia para pacientes de outras cidades. "Quero dar para eles o carinho e conforto que eu não tive no passado, naquela época", diz Celia. "Ajudando os outros, sinto-me viva, feliz. Tem dias que brinco dizendo que deveria agradecer a Deus por ter passado tudo aquilo. Assim pude seguir uma profissão maravilhosa."
Em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche escreve: "Nunca sabemos se vamos acordar no dia seguinte, ou onde. Se você expira e não pode voltar a inspirar, está morto. É mesmo simples assim. Como diz um ditado tibetano: amanhã ou a próxima vida - o que vem primeiro, nunca se sabe". Não há nada de deprimente ou macabro nessa idéia. Muito pelo contrário, é algo repleto de esperança.
A advogada Luciana Jubram ouviu o primeiro alerta. E não precisou de outro para se pôr em movimento. Há alguns anos, trabalhava para o Mappin, correndo de lá para cá. De repente, a empresa faliu e ela viu ruir o fruto de anos de trabalho. Bastou para acordar. Matriculou-se em um curso para aprender a cuidar de flores. O contato com a natureza despertou um lado seu que até então desconhecia. Largou a antiga profissão e tornou-se florista. Trabalha muito ainda, mas feliz da vida, ao lado de rosas, orquídeas e azaléias. "Sou mais leve e tranqüila agora. Era uma insatisfeita e minha insatisfação prejudicava todos ao meu redor. Por isso, jamais seria uma advogada tão boa quanto sou como florista."
O mesmo despertar teve o americano Ross Saario. Ele veio ao Brasil contratado por uma grande multinacional, mas sentiu que aquela vida engravatada não estava certa. "Não tinha a qualidade de vida de que gostaria." Largou o alto cargo e abriu um bar, o Favela, em São Paulo. Radiante, hoje trabalha de bermudão e camiseta. "Abandonei um bom salário, mas não voltaria atrás nem por um segundo."
Um bom passo para começar a viver mais "vivamente" é acordar para o fato de que enfrentamos pequenos traumas, pequenas mortes todos os dias, a toda hora: a sobremesa divina acaba, a noite deliciosa termina, o expediente (por mais árduo que seja) chega ao fim, a ressaca da bebedeira de ontem se cura, a dor de cabeça passa. Como dizem os budistas: nada dura. Nem sua vida. As pequenas mudanças que atravessam seu caminho são lembretes constantes disso.
Quem viu o fim logo ali, tão perto, sabe que o futuro não existe. Sonhos, vontades, desejos só podem ser realizados e satisfeitos no presente. Deixar para depois aquilo que se quer é correr o risco de não fazer. É agora que você comemora o prazer de viver.
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