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Nosso herói aparece pela primeira vez aos 5 anos de idade. Seu nome é Joe e ele está com o pai em um show da companhia de Buffalo Bill, o lendário explorador de fronteiras americano. Era um espetáculo tradicional. Uma vez por ano, cavaleiros, atiradores e guerreiros índios transformavam em uma pradaria o Madison Square Garden, em Nova York, e encenavam batalhas do Velho Oeste. Mas o que chamou a atenção de Joe não foram os heróis brancos, mas os peles-vermelhas. O menino ficou tão fascinado pelos indígenas que começou a ler tudo o que encontrava sobre eles. E assim foi por toda sua vida. De livro em livro, de história em história, de tribo em tribo, Joseph Campbell transformou-se em um dos maiores estudiosos de mitos. Casou-se, viveu feliz e morreu. Fim da história.
Fim da história? Muito pelo contrário. Um dos maiores méritos de Campbell foi ensinar como se conta uma história emocionante, tão emocionante quanto a nossa própria vida. É justo, portanto, que a história dele também seja contada como merece.
Se estivesse vivo, Campbell teria comemorado 100 anos em março último. Mas mesmo sem sua presença (ele morreu em 1987) a celebração foi grande, graças à fama que o estudioso alcançou, principalmente por causa do programa de TV O Poder do Mito, uma compilação de várias entrevistas que deu ao jornalista Bill Moyers ao longo dos últimos anos de vida. Nessas conversas (também editadas em livro), Campbell resume em linguagem simples e direta todo seu pensamento sobre mitos. Faz analogias entre diferentes narrativas religiosas e fala sobre o mito, os heróis, as deusas e o sagrado no mundo de hoje. A idéia central do pensamento de Campbell é que os mesmos mitos estão por trás de todas as histórias. Eles apenas assumem roupagem diferente conforme a cultura local. Ou seja, todos os deuses são um só, apenas com máscaras diferentes. Todos os heróis são o mesmo, com várias faces. O programa foi um sucesso.
A fama veio apenas no final da vida, mas Campbell já havia publicado vários livros. Um deles, O Herói de Mil Faces, serviu de inspiração para George Lucas, o criador de Guerra nas Estrelas. "Ele é realmente um homem maravilhoso e tornou-se meu Yoda (o personagem sábio de Guerra nas Estrelas)", disse o cineasta no discurso em homenagem a Campbell, em 1985.
Lucas conta que passou anos tentando escrever um conto de fadas moderno. Pesquisou heróis clássicos e modernos, leu muito, mas só nas palavras de Campbell achou o foco que procurava. Foi ali, disse o cineasta, que entendeu a estrutura mítica por trás das histórias de heróis e conseguiu escrever sua saga estelar.
Segundo Campbell, em toda narrativa, de literatura ou religião, o herói cumpre uma mesma jornada: partida, preenchimento e retorno. Primeiro ele recebe um chamado que não pode recusar. Em seguida, parte em uma busca, ao longo da qual enfrenta inimigos e desafios que fazem com que passe por transformações. Quando cumpre sua tarefa, volta para dividir a dádiva recebida com seu povo. É o que faz o personagem de George Lucas, Luke Skywalker.
Para Campbell, sempre que seguimos esse chamado da alma, que buscamos o preenchimento, que saímos em busca do lugar onde nos sentimos inteiros, estamos tomando o caminho dos heróis. Mesmo que a escolha não pareça certa ou a mais feliz, seguir o chamado é a atitude correta a tomar, diz ele (leia texto abaixo). Senão, corremos o risco de um dia, em uma daquelas crises de maturidade, descobrir que encostamos nossa escada na parede errada. Parece auto-ajuda? Talvez, mas para Campbell há mais que palavras aí. Ele mesmo ouviu esse chamado (no show de Buffalo Bill) e escolheu segui-lo. Mas o impulso inicial não basta para a vida toda. Ao longo da existência, outras decisões foram necessárias. E em muitas delas ele procurou a voz que chamava para a bem-aventurança. Ou seja, Joe também foi um herói genuíno. E o que você vai ler a seguir é a história do herói Campbell.
Retornou em 1929 para a Universidade de Colúmbia com novas idéias, mas seu orientador não quis saber daquele papo de "minha mente se abriu". Sua bem-aventurança tinha um obstáculo pela frente. Aliás, dois: a Bolsa de Nova York havia acabado de quebrar e não havia trabalho. Numa saga heróica, esse seria o momento em que o mocinho pára, pensa, entra em crise e, depois de quase esmorecer, retoma sua jornada (no cinema, isso em geral acontece ao som de uma música empolgante).
Foi o que aconteceu. Desiludido com a carreira acadêmica, Campbell passou anos em crise, procurando emprego, tentando escrever um romance, depois viajando pelos Estados Unidos. Até que, sem rumo, enfiou-se em uma cabana no meio da floresta em Woodstock, onde passou anos lendo e escrevendo. Desenvolveu seu próprio método de estudo, que chamava de leitura orgânica. Funciona assim: se um autor diz algo a você, leia tudo o que ele escreveu e depois tudo o que essa leitura o inspirar. "Um livro leva a outro", dizia.
Aprofundou o estudo dos autores que tinha conhecido na Europa e saiu do período de hibernação já com os conceitos que anos depois aparecem em seus livros.
Mas toda saga que se preza também tem romance. Na faculdade, Campbell apaixonou-se por uma aluna, Jean Erdman. Quando ela deixou a faculdade para viajar pelo mundo com a família, ele lhe deu um livro, esperando que ela o lesse na viagem e, na volta, tivesse ao menos um motivo para reencontrá-lo. Deu certo. Os dois se casaram em 1938, assim que Jean retornou. Durante 50 anos de casamento, cada um construiu sua própria carreira (ela era bailarina), mas inspirado pelo trabalho do outro. Ele trouxe os mitos para as criações dela em dança. E ela o aproximou ainda mais do mundo das artes.
Campbell diz que, na linguagem mitológica, a mulher representa a totalidade do que pode ser conhecido - e o herói é aquele que vem para conhecer. "À medida que ele progride na lenta iniciação que é a vida, a forma da deusa vai sofrendo transformações: ela nunca será maior que ele próprio, embora possa sempre lhe prometer mais do que ele é capaz de compreender."
Fim do primeiro episódio.
Ele continuou publicando livros sobre mitologia, mesmo criticado por outros mitólogos que julgavam suas teorias muito simplistas. Os críticos diziam que, ao comparar mitos, ele atropelava as diferenças. Mas, enquanto a academia torcia o nariz, o público se interessava cada vez mais pelo que dizia. Desde os músicos do The Grateful Dead até a coreógrafa Martha Graham.
Sua influência foi mais notável, no entanto, no cinema. Steven Spielberg e George Miller, assim como George Lucas, usaram a estrutura dos mitos de Campbell em seus filmes. Depois do sucesso de Guerra nas Estrelas, porém, o que deveria servir como inspiração virou distorção na indústria do cinema. Hollywood transformou sua teoria sobre a jornada do herói em uma fórmula simplista para ensinar roteiristas a fazer uma boa história.
As idéias de Campbell pareciam destinadas ao sucesso. E foi por meio da tela, mas da telinha, que veio a fama, com o lançamento de dois livros/vídeos sobre sua vida e obra: O Poder do Mito e A Jornada do Herói, produzidos e lançados quase no mesmo ano. Em A Jornada do Herói, Phil Cousineau organiza trechos de entrevistas e seminários em que o mitólogo aparece respondendo a perguntas sobre mitologia e a relação com sua vida pessoal. Segundo Ana Figueiredo, representante da Fundação Joseph Campbell no Brasil, a importância do mitólogo é mostrar que religião é metáfora, não fato literal, histórico. Assim ele abre uma porta para a aceitação do outro, ao invés da intolerância. Todo povo é o escolhido e os diferentes deuses são máscaras de um mesmo deus.
Fim dos letreiros. O segundo episódio afinal começa.
Ele dá o exemplo da imagem da águia e da serpente, presente em várias civilizações. Ela representa o conflito entre a serpente, ligada à terra, e a águia, cujo vôo representa o lado espiritual. Quando elas se fundem, temos o dragão, ou a serpente com asas, que encontramos nos mitos de quase toda religião, como o dragão celestial dos chineses e a serpente emplumada dos astecas. A yoga tem uma alegoria parecida: a kundalini, energia vital, é representada por serpentes entrelaçadas em espiral que ligam os chacras mais baixos, mais próximos da terra e dos instintos, aos mais altos, em direção ao céu e a espiritualidade.
E para que serve saber isso tudo? Para entender a própria existência. Ao entender a estrutura mítica, diz nosso herói, o indivíduo tem uma chave para entender sua sociedade, outros povos e a própria vida - não como um acontecimento isolado, mas sim como uma vivência que segue os mesmos rituais de gerações passadas e futuras. A jornada do herói é a jornada de cada um. Sobem os créditos.
Na internet
Fundação Joseph Campbell, www.jcf.org
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