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Mesmo durante um dia normal, daqueles mais cotidianos, em que parece que nada acontece, somos bombardeados por informações de todo lado. O trabalho que não foi entregue, o outro que já foi (mas não fez sucesso), os amigos a ver, as roupas a comprar, o conserto da pia da cozinha, os minutos atrasados gritando no relógio, o jornal cheio de novidades. Todo dia. Você não percebe, mas sua mente lê tudo, embora os sentimentos fiquem embolados - fome disso, saudade daquilo, pressa, pressa, pressa.
Cada um tem sua fórmula preferida para organizar essa pilha de sensações e pensamentos. Há quem preencha a agenda com terapia, uma, duas, três vezes por semana. Outros preferem meditação, abrir-se com os amigos. Falar sobre a vida, chorar as pitangas. Dá resultado. Saímos contentes do consultório (ou do boteco). Mas na saída tem o trânsito, o celular que toca, a conta que não pagamos pendurada na agenda. Alguém se lembra do que acabamos de conversar? Não é fácil termos tempo para nossas dores e encucações. Num processo de análise, as revelações importantes demoram meses para vir à tona. E dá pena perceber que a gente leva outro tempão para digeri-las e transformá-las em utensílios do cotidiano.
Eu não tinha tempo para pensar em mim, para procurar me entender. Aliás, achava que nem tinha o que entender. Aos 27 anos, acreditava que eu era eu e pronto. Hoje, prestes a fazer 29, admito que vivia me enganando. Havia muitos sentimentos dentro de mim que brotavam de repente, vindos eu não sabia de onde, e causavam grandes transtornos. Mas eu achava que isso era a minha essência: eu era assim.
Não sou mais. Minha convicção mudou quando experimentei um tipo inusitado de psicoterapia: a casuloterapia. Não substituiria a análise que fazia - e faço - toda semana, mas seria um bom adianto. Descobri a existência da prática depois de entrevistar a atriz de TV Bianca Rinaldi. Na conversa, ela me contou que havia resolvido procurar o pai, de quem tinha se afastado havia 20 anos. E sua decisão aconteceu depois de fazer casuloterapia. "Não é fácil de encarar, mas conheci melhor o ser humano que sou e aprendi a lidar com os outros", disse. Meses depois, estava eu "encasulada".
A terapia começa com uma consulta com a psicoterapeuta Helena Martins, de São Paulo. Psicanalista de formação, Helena é a criadora da casuloterapia, que desenvolveu empiricamente: na adolescência, ela se isolou por três dias para prestar atenção só nela e nos próprios sentimentos. Com o tempo, foi aprimorando a técnica, estudou psicanálise e aperfeiçoou a terapia com auxílio de psicólogos. Experimentou em vários voluntários e, após alguns testes, passou a usá-la em pacientes. Dez anos depois, a técnica tem uma vasta lista de pacientes, entre os quais grandes executivos, famosos da televisão, jornalistas e curiosos.
Na entrevista, ela queria saber se eu era dependente de drogas, se fazia tratamento com algum remédio, se tinha claustrofobia, depressão, algum problema grave de saúde e, principalmente, se eu tinha coragem de obedecer a um regime de total isolamento. Topei as condições e, na sexta-feira, apareceu para me buscar um rapaz simpático e silencioso. Puxei papo para saber mais sobre a tal casuloterapia, mas ele pouco disse. Isso já fazia parte do processo: ser um pouco passiva, não querer ter controle de tudo o que te acontece na vida, relaxar diante do desconhecido. Eu estava relaxada, mas muito curiosa. Viajamos uma hora e meia e chegamos à porta de uma chácara. Cinco pessoas, todas de branco, aguardavam-me como anjos. O objetivo: fazer com que eu, desde a entrada, me sentisse importante, o centro das atenções. Deu certo.
Depois de saber como funcionaria meu cotidiano naquele encantador cubículo, o trabalho começou já na sexta-feira. Perguntas básicas sobre minha profissão e um bate-papo para nos conhecermos um pouco. Dois terapeutas foram os responsáveis pelo meu tratamento direto: uma mulher e um homem, vestidos de branco e muito tranqüilos. Helena coordenava o trabalho de uma casa ao lado. Uma copeira me serviu um jantar divino, com velas. Comi numa bandeja em cima da cama. Dormi pesado e, no dia seguinte, muito cedo (presu- mi pela temperatura, porque você nunca sabe o horário), fui acordada pelos terapeutas com um café da manhã muito bom.
Mal tinha me espreguiçado depois do café e já comecei a ser entrevistada. Os dois terapeutas me bombardeavam de perguntas e anotavam tudo. Não há um foco, um tema específico a ser entendido. A idéia da terapia é varrer alguns aspectos importantes da vida, detectar os pontos mais sensíveis e investigá-los a fundo. Os assuntos partiam de três pilares: família, trabalho e relacionamento amoroso. Cheguei a suar nas costas, de tanto falar. Depois de umas três horas, eles me deram uma folga, enquanto discutiam com a coordenadora o que eu dissera. Voltaram com novas dúvidas, disposição redobrada e tempo de sobra: ainda tínhamos dois dias para investigar minha vida. O trabalho não pára. Somos o centro das atenções, somos bem tratados, mas o lugar não é um spa. A casuloterapia é um processo de análise intenso que dura três dias, no mínimo. São horas e horas de terapia, sem sair do local.
Confesso que me deu vontade de desistir, fugir. É bom dizer que o paciente não fica preso. A qualquer momento pode-se ir embora.
Apesar de a casuloterapia usar um tratamento de choque, ela não nega a terapia tradicional, com consultas regulares. Também não se propõe a resolver todos os problemas de uma só vez. "Terapias como essa podem formar um caminho independente do processo terapêutico formal, é mais intenso, pois o paciente fica integralmente disponível - não há celular, computador, trabalho, família", diz Silvia Marina Arouca, psicoterapeuta clínica junguiana, que não faz parte do grupo de "casuloterapeutas", mas já indicou alguns pacientes. "Por outro lado, a psicologia ainda tem alguns pudores em relação a trabalhos novos e alternativos, pois ainda luta para ser vista como ciência", diz ela.
No casulo, uma das maneiras mais eficazes de nos fazer reagir é pela provocação. Era como se os terapeutas apalpassem minha alma com suas perguntas. Quando notavam um ponto dolorido, uma ferida mal cicatrizada, apertavam e cutucavam para testar a consistência da minha recuperação. Nessa varredura dolorosa, descobri feridas abertas debaixo de curativos muito antigos, que eu achava que tinham dado conta do recado há muito tempo. Mas foi preciso escarafunchar a fundo. Revi cenas de infância, reencontrei gente que já morreu e, finalmente, encontrei minhas emoções perdidas, sentimentos antigos que eu havia apagado da memória. Fiquei exausta, a ponto de precisar ser amparada. Mas senti um alívio. E em nenhum momento deixei de me sentir protegida por aquelas pessoas que estavam à minha volta.
Restabelecida, fui informada de que minha terapia tinha acabado. A porta se abriu, a luz do sol entrou. Antes de sair, porém, me foi dado um diagnóstico. É como se dissessem: tateamos seu coração e descobrimos que estas áreas estão sensíveis. Nesta e naquela, abrimos a ferida e encontramos isto e aquilo. Tudo fez sentido para mim, e ainda faz, quase dois anos depois. O resultado foi que eu aprendi de onde vêm meus sentimentos. Não esquecer o que sinto se tornou uma tarefa diária. E, antes de tomar qualquer atitude, presto atenção ao meu coração.
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