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Dizem que sexo bom é quando o casal chega junto ao clímax. Dizem também que retardando o orgasmo por horas a fio é possível experimentar o mais profundo prazer. Que seguindo o roteiro "carícias-sexo oral-penetração-orgasmo" não tem erro. Que ele só conhece bem o corpo dela se conseguir encontrar seu ponto G. Ah, dizem tantas coisas... Vivemos uma época em que literalmente só se pensa naquilo, virou moda dissertar sobre o assunto. Parece até que sempre foi assim, mas essa orgia informativa começou mesmo há uns 20 anos, quando liberaram geral o que antes era reprimido. Agora não. Vale tudo - e ainda bem. Informação é indispensável, seja para educar as pessoas a usar preservativos, seja para difundir boas idéias para tornar o sexo mais gostoso.
O problema é que, em nome dessa revolução, toda hora aparece uma nova fórmula mágica que ensina o que fazer na cama para conseguir o prazer total, criando uma enxurrada angustiante de informações. Resultado: hoje em dia não há mulher que não tenha se perguntado ao menos uma vez, com uma pontinha de angústia, por que não tem orgasmo múltiplo. E os homens se questionam cada vez mais sobre seu desempenho sexual. É a famosa ditadura do orgasmo, uma espécie de repressão às avessas que se transformou em um dos assuntos mais freqüentes dos divãs de analistas.
É para as vítimas dessa tirania, a multidão imensa que não consegue ter transas acrobáticas, arrebatadoras, freqüentes e lotadas de orgasmos, que se destina esta reportagem. É preciso desarmar essa armadilha, dizem os especialistas. No entanto, se você lida bem com instruções do tipo "como fazer", selecionamos algumas orientações para apimentar sua vida sexual (veja quadros). Desde que você não as leve muito a sério, elas podem ser bem úteis. Importante é não cair no erro de racionalizar demais sobre algo que no fundo é instintivo. Essa atitude nociva está fazendo do ato sexual um transtorno para muita gente, e isso é um problema e tanto.
Sexo prazeroso, é bom lembrar, faz um bem danado à saúde: protege o coração, emagrece, eleva a auto-estima, melhora o humor, diminui a incidência de doenças e aumenta a longevidade. E mais: já foi provado que quem leva uma vida sexual com prazer tem mais amigos, relaciona-se melhor com os filhos, familiares, colegas de trabalho, enfim, com o mundo. É isto mesmo: o sexo repercute em tudo o que fazemos. Tanto que ter sexo bom serve como um dos parâmetros da Organização Mundial da Saúde para determinar a qualidade de vida das pessoas.
Tudo bem, mas o que é sexo bom? Quando, afinal de contas, ele pode ser considerado satisfatório? Antes de poder responder a essa pergunta, é preciso limpar o terreno. É preciso esclarecer que muita coisa que você imagina, ouviu, leu ou aprendeu em algum lugar está errado.
Essa idéia foi construída em 1970 pelo médico ginecologista americano William Masters e pela psicóloga Virginia Johnson ao publicarem o livro Inadequação Sexual Humana, em que relatam suas experiências em consultas. Escrito em linguagem técnica - e mesmo assim um best-seller nos Estados Unidos -, o livro descreve como respondemos fisiologicamente em cada estágio do prazer.
Um dos principais parâmetros usados para identificar as fases, acredite, foi a pressão arterial e a dilatação dos vasos sangüíneos. Na primeira fase, a excitação, os vasos sangüíneos se dilatam. No chamado platô, eles se enchem ainda mais de sangue e ficam prontos para o orgasmo, que é a terceira etapa. Por fim vem a chamada resolução, fase em que os danados vasinhos começam a voltar para seu tamanho normal. E é isso. Ou seja, boa parte dos conceitos que você aprendeu sobre sexo foram criados com base em dados sobre veias e artérias.
Parece incrível, mas só uma década depois a sexóloga Helen Kaplan colocou nesse estágio a fase do desejo, até então ignorada pelos cientistas dos vasos que enchem e esvaziam. Pronto. Aí estava o modelo ideal para enquadrar todo o comportamento sexual humano.
A novidade é que esse modelo, assim como os vasinhos depois da transa, está sendo esvaziado, graças a novas pesquisas. Mas o ritmo e o grau de novidade das descobertas não são nada excitantes.
Um dos achados mais recentes, por exemplo, é que homens e mulheres têm sexos diferentes. Os cientistas descobriram - veja só - que eles e elas têm as tais etapas (excitação, platô...) em tempos e ordens diferentes. Ou seja, o modelo não serve para todos. Outra diferença é que a mulher tem uma fase que é determinante para todas as outras: a da receptividade. "Estando receptiva, tudo pode acontecer. Até nada", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto de Sexualidade do Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo (Prosex).
Ainda no campo das diferenças, ela lembra que existe uma defasagem entre a descoberta da sexualidade feminina para a masculina. Meninas só começam a ter contato direto com seu sexo quando ficam menstruadas pela primeira vez, lá pelos 12 anos de idade. Já os meninos têm esse contato desde bebês, uma vez que precisam colocar a mão no pênis nem que seja só para fazer xixi. Mesmo quando a educação, a cultura e a vida em sociedade tentam igualar a maioria das habilidades entre os sexos, certas diferenças são marcantes.
Pelo naipe das descobertas, percebe-se que, em matéria de sexo, os cientistas ainda estão tentando abrir o fecho ecler. O que leva a outra conclusão: se há alguma base para as novidades que prometem o prazer total, ela não vem da ciência.
Na verdade, o mapa erógeno de cada pessoa é único. A um beijo no mesmo lugar do pescoço, algumas pessoas respondem com excitação. Outras, com cócegas. Na verdade, cada parte do corpo pode ou não ser fonte de prazer e, para descobrir, só partindo para a exploração.
Nessas horas, quanto menos pensar, melhor. Encare seu prazer e o do parceiro não como uma meta a ser cumprida, mas como uma decorrência da entrega. "Muitas pessoas pensam que o sexo é uma questão técnica: encontrar os pontos certos e excitá-los. Mas, assim como na música, não há técnica que compense a falta de inspiração. O melhor sexo, como a melhor música, é extasiante porque nele colocamos todo nosso coração", diz o escritor Philip Toshio Sudo, autor do livro Sexo Zen.
O diabo é que vivemos numa sociedade que dificulta essa entrega porque se convencionou pensar que, se você abre a guarda, corre o risco de deixar de ser admirado. Melhor então mostrar ao outro a imagem que ele quer ver ou a que você acha que deveria ter. Não há tesão que sobreviva a tanta preocupação.
Então, em vez de se envergonhar ou se culpar por ter desejos e fantasias, por que não apresentá-los ao parceiro? Pode ser a milésima vez que você lê que o diálogo é importante na cama, mas lembre que ele não se constrói só com palavras - se está difícil conversar a respeito, deixe que o corpo se expresse. Um sorriso de aprovação pode valer mais do que mil palavras.
O corpo, aliás, não precisa ser escultural. Nem o seu nem o do parceiro. Somos todos imperfeitos, inclusive a modelo sarada que aparece na capa da revista. Para ser belo, basta ser espontâneo, exibir a graça natural que cada um possui. E para enxergar a beleza é preciso estar atento ao seu redor e ao que se está fazendo, inclusive na cama. Concentrados, enxergamos beleza mesmo nas imperfeições da vida. E então qualquer barriga será bonita, qualquer bunda será uma paixão nacional, qualquer careca terá seu brilho.
Essas pessoas não ficam pensando onde é o ponto G, se estão fazendo tudo pelo caminho certo ou se o orgasmo ainda demora muito para chegar. Simplesmente vão se deixando levar, atentas a tudo, aproveitando cada instante. Dizem os mestres zen que o corpo possui uma sabedoria própria que se desenvolve por meio da prática. É como os dançarinos, que, de tanto ensaiar, desenvolvem memória muscular até o dia em que simplesmente dançam sem pensar. Para o zen, o pensamento só atrapalha a sabedoria natural do corpo.
Explorar os sentidos pode ser um ótimo exercício para desenvolver essa atenção. E ainda tem o benefício de promover a intimidade. Consigo mesmo e com o outro. O tato, por exemplo, é um dos sentidos mais atrofiados pela vida de hoje em dia. Pouca gente se lembra, porém, que o toque transmite sentimentos num nível muito profundo. Raiva, amor, tensão, apoio, desejo, tudo pode ser passado num simples contato. Ele é importante desde o dia em que nascemos - nas incubadoras, é comum ver bebês sendo massageados para que não se sintam física e psicologicamente prejudicados. No momento do sexo, o toque - sem técnica nenhuma, diga-se - adquire uma dimensão de descoberta, de confiança. Junto com o tato, o olfato, a audição, o paladar e a visão do parceiro levam o sexo de volta ao instinto, que, no fim, é o início de tudo.
O negócio, então, é não pensar muito no que está fazendo. É só fazer e sentir. Sem preconceitos, afinal, na cama tudo pode - até mesmo usar o que você leu ou ouviu em algum lugar a seu favor. Mas não faça disso uma obrigação. Até porque, se você não quiser nada disso e preferir o arroz com feijão, sua vida sexual pode ser igualmente feliz. "Nossas relações sexuais duram sete horas. É que elas incluem um jantar e um cinema", costuma dizer o cantor Sting.
"Satisfação é a integração de muitas coisas: instinto, desejo, entrega, confiança, espontaneidade e um pouco de informação, sim. É como um bolo: uma mistura elaborada que produz uma substância diferente de todos os ingredientes", diz o psiquiatra Alexandre Saadeh. Um monge zen perguntou, certa vez, ao seu mestre: "Qual o caminho?". E o mestre respondeu: "O caminho é o dia-a-dia. Concentre-se na experiência da vida e talvez perceba que já possui aquilo que deseja". Em outras palavras: goze o tempo todo.
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