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Com os pés descalços, vestido com uma bata branca, Naná dançava diante de centenas de bumbos de 11 nações de maracatu que o seguiam. Atravessava a multidão com olhar tranqüilo. À sua frente, babalorixás abriam caminho para o cortejo que seguia rumo à Praça do Marco Zero, início de tudo no Recife. Nas mãos, um cajado, símbolo de união espiritual. "O cajado ali é do meu santo, Odé, uma criança. Então eu estava puxando os maracatus e dizendo: vamos brincar". A brincadeira era a abertura do Carnaval, na noite de 20 de fevereiro deste ano. Ao fazer isso, Naná Vasconcelos, um dos mais respeitados percussionistas do mundo, reencenava sua própria história. Ele seguiu um maracatu pela primeira vez aos 5 anos, no bairro onde cresceu. Naquela noite, Naná pulou da cama certo de ter ouvido o barulho de um trovão. Correu para a rua, agarrou-se ao cangote da mãe, dona Petronila, e encontrou mais que isso. Encontrou sua própria vida, a percussão. Ou, como ele diz, "o bater do coração".
Diz-se nações porque se originaram de nações de verdade, africanas, com reis e rainhas, que aportaram como escravos para os engenhos de açúcar. "Em nenhum lugar deu uma África como aqui no Recife", diz Naná. Misturados à força no novo lar, angolas, cabindas, benguelas tiveram no Carnaval a chance de encenar, disfarçado de brincadeira, aquilo que era sagrado em suas terras: a coroação dos soberanos, que no Brasil passou a se chamar maracatu. Ocorre que a rivalidade entre as nações originais contaminou os maracatus. Isso até chegar Naná. Ao juntar rivais, ele ainda procura chamar a atenção sobre o fato de que alguns maracatus, com mais de 200 anos, podem desaparecer. "Procuro abrir espaços para essas nações continuarem vivas com dignidade."
Juvenal de Holanda Vasconcelos, o Naná, é o quarto irmão de uma família com seis filhos e muita música. Cresceu nas noitadas do pai, seu Pierre, músico de bailes, cabarés e clubes. E nas da mãe e do tio, cheias de batucadas de terreiro, de santos do candomblé. Com essa escola e a companhia do irmão Erasto - também percussionista -, Naná passou a criar música em casa, nas ruas, nas festas, nos carnavais. Aprendeu também sozinho. Conheceu novos instrumentos. E ouvia, sem parar, jazz na base militar americana do Recife.
Capiba conseguiu afinal uma passagem de ônibus. Naná diz que, na porta do hotel das estrelas do festival, viu entrando um grupo de músicos cegos. Não hesitou. Pegou na mão de um deles, que andavam em fila, e, sem falar nada, foi seguindo até o quarto. Pronto, já tinha onde ficar. Depois do evento, foi a uma festa na casa de Milton Nascimento e, ao ser apresentado a ele, disse: "O meu nome é Naná e eu vim de Recife para tocar com você". Na hora, "Milton tirou aqueles olhos da caixa e ficou me olhando". Conversa vai, cachaça vem, alguém pediu para Milton tocar "Sentinela". "Pedi licença, fui até a cozinha, peguei umas caçarolas, umas coisas lá e comecei a acompanhar os sons que ele tirava."
No outro dia, dessa vez sem pedir licença, Naná levou a mala e o berimbau. Dois dias depois, a dupla estava gravando no estúdio. O próprio Milton diz que "a porta estava aberta e está até hoje. Naná se tornou parte da minha música e da minha vida. O disco que gravamos foi Milton, e nosso entrosamento maior foi na música 'Pai Grande', até hoje nosso hino". Bem que dona Petronila disse, chorando na despedida, que Naná não iria voltar. A viagem de dez dias começava a se transformar em uma estadia de mais de 25 anos longe de casa.
A inspiração veio de Jimi Hendrix, que, para o pernambucano, "mostrou que um instrumento não tem limites". É o que você mais gosta de tocar, Naná? "O primeiro instrumento é a voz, o melhor é o corpo. Fora isso, é o berimbau."
Diz ele que identificou uma linguagem, a do corpo como um instrumento. Isso foi a base para seu disco Zumbi. "Eu imaginei a primeira vez que um corpo africano entrava no Brasil. Daí fiz um álbum marcado por vozes e essa percussão corporal." Com o passar dos anos, gestos e danças religiosas foram incorporados aos movimentos que o músico faz quando toca. Atualmente, esses movimentos servem como sinais, códigos utilizados em ensaios com grandes grupos. Naná afirma que, dessa forma, todos podem entendê-lo, esteja ele tocando em Recife ou em Tóquio. "Afinal, todos somos um."
Além de Hendrix, sua outra grande fonte de inspiração foi Villa Lobos. "Ele me mostrou que a música tem um aspecto visual. Ouça o "Trenzinho Caipira" como exemplo. Na partitura, Villa Lobos constrói o trem e, com o canto, põe você na janela, vendo as paisagens", diz. Há um espetáculo de Naná em que ele busca fazer uma platéia inteira ver-se numa chuva, no meio da Floresta Amazônica. Detalhe: é o público que cria a própria ilusão, pois são suas palmas, regidas por Naná, que compõem o cenário. "Quando eu toco, eu quero fazer o bem, quero que você, que estava lá, saia numa boa." Como fazer isso? "Eu, brasileiro, nordestino, dei nessa pessoa que sou hoje e que melhoro para dar para você o meu amor. Troca de energia, sem pretensão."
Outro encontro na vida de Naná aconteceu com a ida de Egberto Gismonti a Paris. Egberto ficou na casa de Naná, enquanto esperava os músicos que iriam gravar com ele, que nunca chegaram. Egberto então convidou Naná para a gravação. Tiveram uma noite para ensaiar, dois dias para gravar e um para mixar. E voilà, estava pronto Dança das Cabeças, que ganhou um Grammy. "Daí, viajamos o mundo. E todos os nossos discos foram assim: dois dias de gravação, um dia de mixagem. Sem papo, sem blablablá."
"As pessoas esperam que eu faça um solo de percussão que seja o mais rápido ou o mais alto. Não. Eu me dou com sutilezas. A percussão é uma orquestra sutil de sons e timbres." Apesar do tempo distante do Brasil - mais de 20 anos em Nova York e cinco anos em Paris, sem contar as inúmeras viagens pelo mundo -, Naná afirma, com gosto: "Eu nunca saí daqui". Ele se refere à sua cultura, à sua rua, à sua família, à sua mulher - Patrícia - e ao seu xodó, a filhinha Luz Morena. Hoje, no Recife, Naná segue passeando pela vizinhança, pela praia e experimentando música a todo momento - sua experiência mais recente é batucar na água. E segue cantando: "O amor existe, é só ter calma, tudo vem. Vou prosseguir, sou sempre assim, eu sou do bem".
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