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Naná

A simplicidade de menino do percussionista que encontrou seu próprio ritmo para a vida

por Mariana Lacerda e Alessandro Meiguins | fotos Gilvan Barreto

Com os pés descalços, vestido com uma bata branca, Naná dançava diante de centenas de bumbos de 11 nações de maracatu que o seguiam. Atravessava a multidão com olhar tranqüilo. À sua frente, babalorixás abriam caminho para o cortejo que seguia rumo à Praça do Marco Zero, início de tudo no Recife. Nas mãos, um cajado, símbolo de união espiritual. "O cajado ali é do meu santo, Odé, uma criança. Então eu estava puxando os maracatus e dizendo: vamos brincar". A brincadeira era a abertura do Carnaval, na noite de 20 de fevereiro deste ano. Ao fazer isso, Naná Vasconcelos, um dos mais respeitados percussionistas do mundo, reencenava sua própria história. Ele seguiu um maracatu pela primeira vez aos 5 anos, no bairro onde cresceu. Naquela noite, Naná pulou da cama certo de ter ouvido o barulho de um trovão. Correu para a rua, agarrou-se ao cangote da mãe, dona Petronila, e encontrou mais que isso. Encontrou sua própria vida, a percussão. Ou, como ele diz, "o bater do coração".

Apaziguador
Naná levou os batuqueiros à Praça do Marco Zero para celebrar uma união: o casamento do popular com o erudito. Lá, em meio a uma multidão, os maracatus juntaram-se à Orquestra Sinfônica do Recife. E foi assim, ao som de bumbos com violinos, que começou o Carnaval na capital pernambucana. Não foi o primeiro encontro improvável promovido pelo músico. Há três anos, ele consegue colocar lado a lado músicos de 11 nações de maracatu historicamente rivais e que, sob sua regência, promoveram uma festa só, ou, como se diz no Carnaval nordestino, uma brincadeira.

Diz-se nações porque se originaram de nações de verdade, africanas, com reis e rainhas, que aportaram como escravos para os engenhos de açúcar. "Em nenhum lugar deu uma África como aqui no Recife", diz Naná. Misturados à força no novo lar, angolas, cabindas, benguelas tiveram no Carnaval a chance de encenar, disfarçado de brincadeira, aquilo que era sagrado em suas terras: a coroação dos soberanos, que no Brasil passou a se chamar maracatu. Ocorre que a rivalidade entre as nações originais contaminou os maracatus. Isso até chegar Naná. Ao juntar rivais, ele ainda procura chamar a atenção sobre o fato de que alguns maracatus, com mais de 200 anos, podem desaparecer. "Procuro abrir espaços para essas nações continuarem vivas com dignidade."

Autodidata
Foi pela nação Elefante, fundada em 1800, que Naná pulou da cama quando menino. Ali ele encontrou seu primeiro mestre, seu Veludinho, que ensinou o menino a segurar uma alfaia, o pesado bumbo feito com tronco de macaíba. Foi em homenagem a ele, mestre de dois importantes maracatus, Elefante e Estrela Brilhante, que Naná cantou no álbum Bush Dance (1987): "Eu vou cantar só para ver estrela brilhante acender".

Juvenal de Holanda Vasconcelos, o Naná, é o quarto irmão de uma família com seis filhos e muita música. Cresceu nas noitadas do pai, seu Pierre, músico de bailes, cabarés e clubes. E nas da mãe e do tio, cheias de batucadas de terreiro, de santos do candomblé. Com essa escola e a companhia do irmão Erasto - também percussionista -, Naná passou a criar música em casa, nas ruas, nas festas, nos carnavais. Aprendeu também sozinho. Conheceu novos instrumentos. E ouvia, sem parar, jazz na base militar americana do Recife.

Cara-de-pau
Naná saiu de sua cidade natal no meio dos anos 60, quando Capiba, um importante compositor de frevo, teve um maracatu selecionado para um festival de música, no Rio. A organização do evento só deu passagem e hospedagem para o músico que ia interpretar a música. Naná diz que insistiu para ir, viu nisso uma oportunidade: "Capiba, ninguém vai saber tocar maracatu por lá. Conheço muita gente no Rio, tenho onde ficar". Hoje, sorrindo, confessa: "Mentira, não conhecia ninguém".

Capiba conseguiu afinal uma passagem de ônibus. Naná diz que, na porta do hotel das estrelas do festival, viu entrando um grupo de músicos cegos. Não hesitou. Pegou na mão de um deles, que andavam em fila, e, sem falar nada, foi seguindo até o quarto. Pronto, já tinha onde ficar. Depois do evento, foi a uma festa na casa de Milton Nascimento e, ao ser apresentado a ele, disse: "O meu nome é Naná e eu vim de Recife para tocar com você". Na hora, "Milton tirou aqueles olhos da caixa e ficou me olhando". Conversa vai, cachaça vem, alguém pediu para Milton tocar "Sentinela". "Pedi licença, fui até a cozinha, peguei umas caçarolas, umas coisas lá e comecei a acompanhar os sons que ele tirava."

No outro dia, dessa vez sem pedir licença, Naná levou a mala e o berimbau. Dois dias depois, a dupla estava gravando no estúdio. O próprio Milton diz que "a porta estava aberta e está até hoje. Naná se tornou parte da minha música e da minha vida. O disco que gravamos foi Milton, e nosso entrosamento maior foi na música 'Pai Grande', até hoje nosso hino". Bem que dona Petronila disse, chorando na despedida, que Naná não iria voltar. A viagem de dez dias começava a se transformar em uma estadia de mais de 25 anos longe de casa.

Entusiasta
Pouco depois, o músico argentino Gato Barbieri, de passagem pelo Rio, disse a Naná que tinha uma série de concertos na Argentina e o convidou: "Vamos?" No que Naná respondeu: "Vamos". No meio da viagem, Barbieri disse: "Olha, pintou uma oportunidade para fazer um disco nos Estados Unidos, vamos?" "Vamos". Acontece que, durante os shows, Naná tinha de um a dois minutos de solo de berimbau. "Eu tocava de um jeito que não ousava fazer no Brasil, por medo que dissessem que eu que estava deturpando a tradição." Foi esse tempinho de um ou dois minutos que chamou a atenção da crítica americana. "Disseram que eu era o homem do berimbau."

A inspiração veio de Jimi Hendrix, que, para o pernambucano, "mostrou que um instrumento não tem limites". É o que você mais gosta de tocar, Naná? "O primeiro instrumento é a voz, o melhor é o corpo. Fora isso, é o berimbau."

Poliglota
A irmã de Naná, Senilda, diz que uma vez um amigo, ao lado de uma criança com problemas de fala, comentou que a criança era muda. "Meu irmão respondeu na hora: 'Ela fala, sim, você é que não sabe escutar'." Foi na França que Naná começou a trabalhar com crianças com problemas de coordenação motora e dificuldade de comunicação. "Comecei a imaginar como eu poderia ajudar aqueles 400 meninos e meninas, mesmo sem falar francês. A primeira coisa que pensei é que tinha que estar disponível, entregue." Naná conta que começou a imitar os gestos das crianças e, aos poucos, entrou no universo delas.

Diz ele que identificou uma linguagem, a do corpo como um instrumento. Isso foi a base para seu disco Zumbi. "Eu imaginei a primeira vez que um corpo africano entrava no Brasil. Daí fiz um álbum marcado por vozes e essa percussão corporal." Com o passar dos anos, gestos e danças religiosas foram incorporados aos movimentos que o músico faz quando toca. Atualmente, esses movimentos servem como sinais, códigos utilizados em ensaios com grandes grupos. Naná afirma que, dessa forma, todos podem entendê-lo, esteja ele tocando em Recife ou em Tóquio. "Afinal, todos somos um."

Além de Hendrix, sua outra grande fonte de inspiração foi Villa Lobos. "Ele me mostrou que a música tem um aspecto visual. Ouça o "Trenzinho Caipira" como exemplo. Na partitura, Villa Lobos constrói o trem e, com o canto, põe você na janela, vendo as paisagens", diz. Há um espetáculo de Naná em que ele busca fazer uma platéia inteira ver-se numa chuva, no meio da Floresta Amazônica. Detalhe: é o público que cria a própria ilusão, pois são suas palmas, regidas por Naná, que compõem o cenário. "Quando eu toco, eu quero fazer o bem, quero que você, que estava lá, saia numa boa." Como fazer isso? "Eu, brasileiro, nordestino, dei nessa pessoa que sou hoje e que melhoro para dar para você o meu amor. Troca de energia, sem pretensão."

Companheiro
E foi de forma despretensiosa, sem planejar nem perceber, que Naná se tornou um pioneiro da world music. Chamado para gravar um disco com Collin Walcott (1945/1984) - um músico inovador que fazia jazz com instrumentos como a cítara e a tabla - e participação de Don Cherry (1936/1995), jazzista que pesquisava sons ao redor do mundo, Naná iniciou uma parceria inusitada. Diz o pernambucano que a interação foi tão grande que, logo no ensaio da primeira música, Collin, o autor do disco, parou e disse: "Peraí, esse disco não é mais só meu". Naná não só assinou a bolacha com os dois como se juntou a eles num grupo, batizado com uma mistura de seus nomes, o Codona. O trio criou três álbuns, de 1979 a 1983. No intervalo entre as gravações, excursionaram - em Kombis - pela Europa. Os espetáculos dos três multiinstrumentistas ficaram famosos por ser imprevisíveis. "Don Cherry me ensinou que, quando um músico toca ao vivo, não toca errado, porque não dá para consertar."

Outro encontro na vida de Naná aconteceu com a ida de Egberto Gismonti a Paris. Egberto ficou na casa de Naná, enquanto esperava os músicos que iriam gravar com ele, que nunca chegaram. Egberto então convidou Naná para a gravação. Tiveram uma noite para ensaiar, dois dias para gravar e um para mixar. E voilà, estava pronto Dança das Cabeças, que ganhou um Grammy. "Daí, viajamos o mundo. E todos os nossos discos foram assim: dois dias de gravação, um dia de mixagem. Sem papo, sem blablablá."

E singelo
Naná foi eleito por nove anos consecutivos, de 1983 a 1991, o melhor percussionista do mundo, pela crítica da revista americana Down Beat. Além disso, foram quase 40 trilhas sonoras e mais de 300 participações em discos. A lista de pessoas com quem gravou é, no mínimo, admirável. Desde Gil e Clementina até B. B. King e Pat Metheny. Você pode pensar que Naná, por toda sua vivência nesse sofisticado universo musical, elevou a si mesmo acima dos mortais. Mas não. Ao seu lado, percebe-se logo que o que predomina nele é a simplicidade.

"As pessoas esperam que eu faça um solo de percussão que seja o mais rápido ou o mais alto. Não. Eu me dou com sutilezas. A percussão é uma orquestra sutil de sons e timbres." Apesar do tempo distante do Brasil - mais de 20 anos em Nova York e cinco anos em Paris, sem contar as inúmeras viagens pelo mundo -, Naná afirma, com gosto: "Eu nunca saí daqui". Ele se refere à sua cultura, à sua rua, à sua família, à sua mulher - Patrícia - e ao seu xodó, a filhinha Luz Morena. Hoje, no Recife, Naná segue passeando pela vizinhança, pela praia e experimentando música a todo momento - sua experiência mais recente é batucar na água. E segue cantando: "O amor existe, é só ter calma, tudo vem. Vou prosseguir, sou sempre assim, eu sou do bem".

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