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No Natal passado, o presente mais disputado nas prateleiras das lojas alemãs foi um papel de parede no mínimo peculiar. Em vez de flores, as estampas traziam fotografias de pessoas em tamanho natural e em poses cotidianas (sentadas no sofá, lendo uma revista). Muito mais do que uma peça decorativa, a proposta da designer Susanne Schmidt, a mãe do brinquedo, era aplacar a solidão de nada menos que um terço da população alemã, que reina soberana no aconchego de seus lares. Segundo o website da companhia, o tal do amiguinho na parede é o companheiro ideal, uma vez que está sempre de bom humor, não fuma nem larga meias encardidas pela casa. E também é silencioso que é uma beleza. Talvez silencioso demais, mas quem achá-lo muito quieto pode usá-lo em conjunto com outro estrondoso sucesso que, aliás, serviu como fonte de inspiração para o papel de parede. Trata-se de um CD com uma coletânea de ruídos domésticos, como o de alguém virando a página de um livro, fechando uma porta ou ligando o secador de cabelos.
Esquisito? Genial? Bom, isso cada um decide. Mas é certo que, nos próximos anos, veremos pipocar esse tipo de invenção, criada para as pessoas que se vivem ou se sentem sós. Sim, porque as estatísticas não deixam dúvida: o bloco do eu sozinho não pára de crescer, um fato que está causando uma revolução nos padrões de consumo. Parece que, finalmente, descobriu-se que nem todo mundo vive em família. Congelados individuais, pacotes com meia dúzia de fatias de pão, agências especializadas em viagens para quem viaja só, apartamentos tamanho ovo (mas com uma área de lazer digna de clube), tudo isso veio para ficar. O mundo está sendo reformulado para tornar mais agradável a vida de quem não divide a casa com ninguém. No Brasil, eles já são 9% da população. É pouco, comparado com os 26% da população americana ou com os singles britânicos, que mandam em uma de cada três casas do Reino Unido. Mas esse número está crescendo por aqui. Entre 1991 e 2000, mais 4,8 milhões de brasileiros aderiram ao time da lasanha individual.
É claro que essa multidão não vai permanecer sozinha a vida toda. Uma parte dela acabará ligando-se a alguém, namorando e até casando para depois, talvez, separar-se novamente. E outros que hoje vivem com os pais ou com um cônjuge engrossarão as estatísticas dos moradores solitários. Mas isso pouco importa. Para esta reportagem, não interessa se as pessoas estão sozinhas por opção ou por falta dela, se pretendem ficar sós por um tempo ou para a vida toda. O que interessa é dizer que, hoje em dia, ficar sozinho não deve nem pode parecer o fim do mundo. Pelo contrário. Nesses tempos em que estamos todos cada vez mais conectados uns aos outros, ficar só pode ser uma bênção, uma experiência necessária para amadurecer e conhecer-se.
Nas sociedades primitivas, as histórias individuais eram muito parecidas porque todos compartilhavam as mesmas necessidades (comida, proteção) e ameaças (frio, predadores, doenças). Aos poucos, porém, fomos domando a natureza e abandonando nossos instintos selvagens. Surgiu então um espaço antes impensável para que cada um preenchesse com suas preferências, vontades e vocações. E fomos ficando diferentes.
Pense em um médico dermatologista que gosta de teatro e arte moderna, pratica squash, circula de moto, adora acordar cedo, ouve ópera a todo volume, cria três cães de grande porte e visita a mãe todo fim de semana. Qual é a chance de existir alguém com as mesmas preferências? Em outras palavras, passamos a ser únicos. Tribos de um índio só. E a sociedade passou a ser vista como um grande empecilho, uma massa que nos reprime e que não nos compreende. "Internamente, o indivíduo tem a sensação de ser uma coisa separada, de existir sem relação com outras pessoas", escreveu Elias. O lado bom disso é que isso lhes deu mais independência, liberdade e capacidade de decidir por si. O lado ruim é o isolamento não só físico, mas na essência, das pessoas. Cada um acha que se tornou tão único que ninguém o entenderá.
Isso não quer dizer, no entanto, que o homem está caminhando para um ponto em que cada um vai se bastar. Afinal, somos bichos sociais que precisam de contato com semelhantes. Como disse o poeta inglês John Donne: "Nenhum homem é uma ilha". Mas quanto mais únicos nos tornamos, maior a possibilidade de encontrarmos formas únicas de ser feliz.
Nos idos de 1963, quando ficou noiva, a professora aposentada Ruth, de 61 anos, não queria saber de novidade. Ela sonhava em casar-se. Mas o sonho foi sendo adiado. Primeiro, ela teve de acabar os estudos. Depois, os pais adoeceram e precisaram de atenção. E assim foi. Por motivos alheios à sua vontade, o casamento tão sonhado foi sendo protelado até que ela e o namorado pararam de falar no assunto.
E, hoje, 40 anos depois, o casal continua junto, mas como namorados. "A gente vive bem assim", diz Ruth. Eles só dividem o mesmo teto quando viajam para um apartamento no litoral. Na casa de Ruth, em São Paulo, há um quarto e um banheiro para o caso de ele resolver dormir lá. Essa vida não tem nada a ver com o modelo que aprendeu dos pais, mas Ruth não parece preocupada com isso. Ela vive bem assim.
A agenda continua lotada. Não enxergo minha casa como um lugar de reclusão, mas sim de aconchego".
O arquiteto Argus Caruso, de 29 anos, precisou ir além para descobrir isso. Há mais de dois anos ele pedala pelo mundo. Já visitou 19 países. "Na Indonésia e na Índia, bastava parar de pedalar por alguns segundos que dezenas de pessoas se amontoavam para ver o 'louco' e sua bicicleta. Acostumei, mas, no começo, só me sentia confortável dentro dos quartos de hotéis."
Apesar de tanta gente, Argus não se sentia acompanhado. "Ao contrário, por ser uma exceção tão grande para aquela cultura, acabava me sentindo só." Descobriu que é possível estar só em meio a uma multidão e acompanhado no deserto. "Independentemen-te da quantidade de pessoas ao meu redor, o que me faz sentir acompanhado são a lembrança da família e dos amigos e os companheiros que faço no percurso", diz, se referindo a outros ciclistas com os quais percorreu alguns trechos. "Foi muito bom ter alguém para dividir experiências, mas acho que só funcionou porque havia autonomia para nos separarmos a qualquer hora. Seguíamos juntos por opção e não por uma relação de dependência."
Essa receita serviria também para dividir um apartamento numa grande cidade brasileira. Ou mesmo para um casamento, nesses dias em que o segredo do sucesso de qualquer relacionamento está na preservação da individualidade dos parceiros.
Rogério, de 34 anos, tem namoros longos, de anos. Sai de um e logo entra em outro. Outro dia, durante uma crise com sua namorada, pegou-se de repente sem nenhum compromisso. Não tinha trabalho atrasado a fazer (era sábado), não tinha ninguém solicitando sua atenção, nem pai nem mãe pedindo sua ajuda. Nada. Estava livrinho. E ficou aflito, coitado. Passou o sábado perdido, dividido entre as infinitas possibilidades daquele momento. Escolheu vários programas, arrependeu-se de cada um logo em seguida e acabou não fazendo nada. Seu ouvido interno estava surdo.
Semanas depois, Rogério continuava sozinho, mas o espírito era outro. No domingo, foi andar sozinho de bicicleta. Mais tarde, foi para casa, fez uma bela salada de que gosta, abriu um vinho e esbaldou-se. Quando terminou, tinha disposição para ver a peça de teatro que tinha escolhido. Seu coração, durante tanto tempo amordaçado, falava tão alto que qualquer um podia ouvi-lo.
Claro que morar sozinho tem desvantagens. Para começar, custa mais. E exige uma baita logística para administrar uma casa. Além disso, é preciso estar sempre batalhando para arranjar companhia para um simples almoço ou, para quem não tem um relacionamento, encontrar pessoas para satisfazer as carências afetivas e sexuais. Mas a força que vem dessa experiência é enorme.
Ruth, a professora que namora há 30 anos, diz que encontrou em si mesma uma força que desconhecia. "Eu me acostumei morar só e passei a crer mais em mim mesma", diz ela. "Hoje, acredito que não preciso depender de um homem para nada, nem financeira, nem moralmente", conta. Na vida de Ruth, o namorado é "algo a mais", embora seja importante. "Ele me apóia em tudo e eu não gostaria de perdê-lo, mas dentro da minha casa quero minha individualidade."
"O dia-a-dia de quem mora só tem muito menos atrito", diz o terapeuta Álvaro Dezoto. Imagine se Fabiana tivesse de negociar com alguém antes de pichar uma frase da pintora mexicana Frida Kahlo na porta de seu banheiro. "Quando voltei de férias do México, não poderia ir trabalhar fantasiada de Frida, mas podia decorar minha casa como eu quiser." Já o apartamento do engenheiro naval Marcelo Grimberg, de 38 anos, é todo decorado com madeira, para simular o interior de um barco. "Minha casa é a minha obra."
O artista plástico Luiz Hermano, de 49 anos, não apenas mora sozinho como também montou seu ateliê em casa. O espaço ficou tão personalizado, tão parecido consigo, que ele adora voltar para casa. "Saio e já quero voltar correndo. Aqui, fico equilibrado, me sinto bem e desenvolvo minhas idéias."
Mas, de novo, a idéia não é se isolar. "Tem horas em que quero trocar idéias, compartilhar, dividir meu tempo com os amigos, com gente com quem tenho prazer de ficar junto."
Deixar alguém entrar nesse universo tão pessoal que é a casa de um avulso não é tarefa fácil. O engenheiro Marcelo, aquele que fez da casa um barco, diz ter vontade de morar com alguém, mas desde que seja alguém que respeitasse seu espaço. Seu último namoro acabou porque sentiu que a garota estava invadindo seu convés. Mas ele diz que, no dia em que achar a pessoa certa, vai trocar de apartamento. Mas não pretende abrir mão de seu terreno sagrado. "O ideal para um casal é aquele que tem três dormitórios: o seu, o dela e o dos dois", diz ele. Pelo jeito, Marcelo conhece a lição. Ele sabe que, no mundo de hoje, cada um inventa sua própria fórmula de viver e ser feliz. Ponto para ele.
Faz todo sentido. Afinal, quem fica só passa mais tempo na própria companhia. Se não gostar dela, a vida fica difícil. Parece absurdo, mas acredite: tem muita gente que não sente prazer na companhia de si mesmo. Mesmo esses, porém, podem aprender bastante com a experiência de viver só. Basta que não procurem fugir de si. E é muito fácil escapulir. É só ligar a televisão ou o aparelho de som, telefonar para alguém ou conectar-se à internet (tem gente que faz tudo isso ao mesmo tempo). Pronto, lá se foi o momento de reflexão, de encontro consigo mesmo.
Há um ano, em busca de qualidade de vida, a paulistana Rafaela Rossi, de 27 anos, resolveu morar sozinha num pequeno sítio em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, sem telefone fixo e televisão. No começo, sentiu-se só. "Morria de vontade de conversar com as pessoas." Então, diz ela, aproveitou para curtir a casa. Ou, em outras palavras, curtir a própria companhia. "Tinha dias em que eu abria uma garrafa de vinho e ficava ali a tarde toda curtindo minha casinha", diz ela, com um tom nostálgico. Vê-se que o namoro consigo mesma fez bem.
Em pouco tempo, Rafaela começou a namorar um rapaz e fez amigos. Hoje, quando olha para trás, percebe que as dificuldades do começo foram importantes para ela perceber que conseguia ficar só. "Acabei gostando mais de mim." O que ocorreu foi que Rafaela encontrou um colo para a vida toda. Ela fez amizade com a única que, certamente, vai acompanhá-la sempre: ela mesma. Uma companhia para a vida toda.
9. Lembre sempre que você está sozinho por opção e que pode sair, badalar ou receber gente em casa quando quiser
10. Nunca enxergue a casa como um lugar de reclusão, mas sim de aconchego
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