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É incrível como a gente faz força à toa. Sem nenhuma necessidade, tensionamos além da conta os ombros, os braços, as pernas, a mandíbula, o pescoço e até os pés. Muitas vezes, só nos damos conta disso quando o corpo reclama e começa a doer. E tem gente que nem assim percebe que está fazendo algo errado e fica se perguntando de onde veio esse torcicolo ou aquela dor nas costas. O antídoto para essas dores tem um nome bonito, de que você provavelmente já ouviu falar: consciência corporal. Não se impressione. Isso significa apenas prestar atenção ao que você faz com seu corpo, algo fácil de descrever, mas difícil de fazer. Nesse momento, por exemplo, enquanto lê a revista, você deve estar com os ombros curvados, a coluna torta, sentado de qualquer jeito (e deve estar se endireitando agora...).
Pois é. A tal consciência corporal é difícil de conquistar. Mas não é um objetivo impossível, desde que você aprenda pela cartilha certa. E há várias. Algumas vêm lá do Oriente, como o yoga, mas há algumas bem ocidentais e bastante eficientes, como a eutonia, método de trabalho corporal que visa o equilíbrio das tensões para harmonizar o tônus muscular.
O coração da eutonia é uma idéia muito simples, mas que todo mundo esquece: somos nós quem moldamos nosso corpo a cada vez que sentamos, digitamos, dormimos etc. Só que fazemos tudo isso de forma automática, e a chave está justamente na consciência, na percepção do movimento. "Em geral, só lembramos que nosso corpo existe quando aparece alguma enfermidade. Então, delegamos a alguém - médico, terapeuta - a responsabilidade de nos curar quando, na verdade, nós mesmos podemos regular nosso organismo", diz a eutonista Maria Thereza Bortolo.
Resultado da união das palavras gregas eu - bom, harmonioso - e thonos - tensão -, a eutonia propõe uma tomada de conhecimento do corpo. Pode parecer óbvio, no entanto não é. "Fazemos literalmente um trabalho de alfabetização do corpo, passando por pele, ossos, volume interno. As pessoas são alfabetizadas na leitura e na escrita, mas o corpo permanece uma língua estrangeira", diz a bailarina Miriam Dascal, eutonista há 20 anos.
Vamos então ao bê-á-bá da eutonia, que foi inventada pela alemã Gerda Alexander há 70 anos. Aos 16 anos, a então bailarina Gerda foi vítima de uma febre reumática que deixou problemas cardíacos graves. Obrigada a manter repouso absoluto, ela começou a pesquisar, ainda na cama, como poderia manter seu tônus muscular com movimentos mínimos. Dessa forma nasceu a eutonia. Graças à descoberta, Gerda pôde sair da cama, mas continuou aperfeiçoando a técnica. Para ela, se as pessoas tivessem consciência de sua mobilidade, não só iriam melhorar seus movimentos como conseguiriam benefícios físicos e mentais como um todo.
Segundo Gerda, um bom começo para chegar a essa consciência é o que ela chama de "presença". Na eutonia, o que importa é como fazemos determinada ação e não quanto tempo temos para executá-la. "Se você tem apenas cinco minutos para comer, dedique-se a eles sem pensar no que está por vir. Sinta a textura, o sabor, o cheiro da comida, como você mastiga e percebe cada gosto", afirma Maria Thereza. Embora os conselhos pareçam com as dicas orientais de meditação, Gerda dizia que sua inspiração foi outra. "O movimento dos animais foi uma de minhas principais referências. Eu era capaz de ficar horas observando como os macacos acariciavam com vagarosidade suas crias e, repentinamente, saltavam. Nunca se excediam ou moviam-se mais do que o necessário", disse ela, no livro Conversas com Gerda Alexander.
As sessões de eutonia podem ser individuais ou grupais. O eutonista começa ensinando a normalizar a respiração - para dar uma relaxada inicial. Só então é que começa a aula de consciência corporal propriamente dita. Os exercícios estimulam o tato, a percepção do espaço interno do volume do corpo e consciência dos ossos. Para isso, o eutonista utiliza-se de massagens e toques, do contato do corpo do aluno com o chão, com outros alunos e com objetos como bolinhas, varas de bambu e peças de espuma. A idéia é ensinar o aluno a agir sobre o corpo o tempo todo, e não apenas durante a aula.
Mas os exercícios vão além: trabalham a auto-estima, a segurança, a aceitação, a ansiedade e outras sensações que parecem não ter nada a ver com o corpo. "Muitos alunos se sentem mentalmente bloqueados por alguma razão. Não conseguem criar, trabalhar ou mesmo se relacionar", conta a bailarina Miriam . "Na eutonia, a pessoa é vista e tratada de maneira integral. Não separamos a anatomia do emocional, do psicológico e do espiritual."
É por isso que a técnica vem sendo usada como coadjuvante em diversas áreas da saúde física e mental. Pacientes com dores musculares diversas, estresse, insônia, lesões por esforços repetitivos, reumatismo, artrite e outras doenças têm bons resultados com a prática. No ano passado, o Hospital das Clínicas, em São Paulo, adotou a técnica no tratamento de adolescentes que sofriam de transtornos como a bulimia e a anorexia. "A eutonia ajudou a reconstruir a imagem corporal que essas meninas tinham de si mesmas", diz Cecilia Maeda, psicóloga, eutonista e doutouranda do Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que participou do projeto.
"Depois de alguns meses de eutonia, senti uma melhora incrível", diz a professora aposentada Irene Utaco Ogawa, que tem fibromialgia. "Antes, não conseguia nem pisar no chão de tanta dor. Agora, quando sinto dor, sei direitinho de onde ela vem e como devo lidar com isso. Ao me conhecer, aprendi a distribuir as tensões e a tratar de mim mesma. A dor agora não me impede de fazer mais nada." Ao terminar de escrever sua história, notei que os músculos dos meus braços doíam pelo esforço de digitação. Talvez esteja na hora de rever meus movimentos.
2. Conheça seu corpo Todos os dias, antes de dormir, deite-se no chão, feche os olhos, solte os braços e as pernas e relaxe. Perceba como seu corpo toca o chão, parte por parte. Sinta onde o chão toca a bacia, a coluna, os ombros, a nuca. Repare como sua cabeça está apoiada. Preste atenção em sua respiração, no movimento do ar entrando e saindo e na sua pele tocando a roupa. No dia seguinte, de manhã, faça a mesma coisa, antes de levantar.
3. Tire o peso das costas Quando estiver sentado, posicione uma vara de bambu de cerca de 60 centímetros atravessada no meio das costas, logo abaixo dos ombros (a posição é a mesma da foto abaixo, só que na vertical) e tente mantê-la ali por alguns minutos entre você e o encosto da cadeira. Não a deixe escorregar para a lombar. Para isso, você precisará contrair os ombros para trás, corrigindo a postura das costas. Concentre-se nessa ação. Sinta como a varinha toca suas costas e procure respirar calmamente.
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