![]() |
![]() |
O professor de cinema Waldemar Lima, 74 anos, diz que já alcançou a maturidade, sim. E faz tempo, quando ia pela casa dos 30 anos e estava formando sua família. De lá para cá, muita coisa aconteceu com ele, é claro. Pessoas queridas vieram e foram, projetos brotaram e murcharam, escolhas foram feitas. Mas hoje, mais de 40 anos depois, Waldemar afirma que já não se considera maduro. "Eu tenho um acervo maior de conhecimento, mas ele não corresponde a um grau maior de maturidade." Curiosa com sua história, consulto o dicionário e fico ainda mais confusa. O livrão me conta que maturidade é sinônimo de perfeição, primor. Ou seja, o que Waldemar me diz é que ele já foi perfeito e deixou de sê-lo. Pode? Sim, pode.
Maturidade é um conceito curioso, mágico até. Porque sugere perfeição, algo acabado, pronto, mas também aperfeiçoamento. No final, sua melhor definição é quase um paradoxo: perfeição em evolução. Nada mais humano, concluo. Ao longo da vida, assumimos papéis diversos e ansiamos por saber responder aos desafios de cada etapa, mas a boa resposta de agora pode não servir mais adiante. Assim, a perfeição de uma criança talvez não caiba a um adolescente e vontades de um jovem de 20 anos talvez não prestem a um octogenário. No entanto, todos eles podem ser maduros à sua maneira. E nem sempre o mais velho amadureceu mais, como atesta Waldemar. Maturidade não se acumula com o tempo.
Mas o tempo importa, sim. Para o terapeuta americano Stanley Keleman, todo ser vivo tem fases de desenvolvimento e cada um desses períodos biológicos (infância, puberdade, adultidade e velhice) possui seu ponto maturacional. A filósofa e psicoterapeuta Regina Favre, seguidora de Keleman, diz que esses estágios corporais são acompanhados também de uma maturidade psíquica. Pense numa criança de 10 anos. Ela já tem amigos e responsabilidades, ela lê, brinca, aprende a lidar com a família, dá respostas. É o exercício dessas capacidades, essas experiências acumuladas, que constrói a confiança da criança e lhe dá segurança em suas decisões.
"Aos 25 anos, biologicamente você parou de crescer", diz Regina. A partir de então, o ser humano vive sua plenitude genética, de conquista, de lutas. Ao atingir os 35, a pessoa solidifica a vida e seu mundo. Estrutura seu ambiente, suas relações profissionais, relações emocionais, sua subsistência. Nessa fase de maturidade, você pode inventar seu jeito de ser mãe, mãe casada, solteira, inventar seu jeito de ser profissional, mulher, marido, amigo. Você tem mil possibilidades e está sendo favorecido pela quantidade de hormônios que recebe. Daí até os 100 anos, o corpo muda, oportunidades surgirão e desaparecerão. O lugar e o papel de cada um no mundo evolui. "Maduro é aquele que, dentro de cada fase, teve o máximo de experiência e de competência para lidar consigo e com o mundo em cada etapa. Ele é capaz de agir, pensar e sentir a partir de si próprio. Identifica-se consigo mesmo", diz Regina.
Mas ninguém é maduro e pronto. As atitudes é que são maduras. Alguém que agiu de maneira adequada aqui pode tropeçar logo adiante, e há gente que vive de forma madura no trabalho, mas se atrapalha no casamento. As tradições filosóficas pregam a conquista da madureza pelo cultivo. "O processo de maturidade costuma ser gradual - e contínuo. Ninguém amadurece de repente. Você amadurece fazendo escolhas, mas é decidindo que se aprende a decidir", diz a filósofa Lucia Benfatti, da Associação Palas Athena.
Mas não é preciso ser um estudioso humano para conhecer a maturidade. Ela existe em todos e qualquer um pode falar sobre ela. Assim, perguntamos a pessoas comuns onde eles a vêem em suas vidas e como alcançá-la. Foi curioso ver como as histórias e os conselhos se parecem.
"Eu diria que maturidade é quando a gente pode tornar-se a criança que foi ou que não conseguiu ser. Para atingir esse estágio é necessário abandonar o que se chama de sentimento de culpa. E substituí-lo por responsabilidade e amor incondicional por si mesmo, sem críticas maiores", diz o psicanalista gaúcho Paulo Sergio Guedes, 59 anos.
Luis Pedro Ferreira, 36, gerente de marketing, diz que aprendeu a não se arrepender. "Eu me conheço o suficiente para saber que tenho de me jogar no que faço e acho que faz parte da maturidade saber que nada é definitivo. Se der errado, a gente faz de novo", diz. Luis Pedro exercita essa audácia. Às vezes, numa reunião, expõe um ponto de vista sobre o qual não está absolutamente seguro.
"A maturidade sugere que você se liberte da vergonha. A vergonha é um sentimento de insegurança. É quando tememos que o outro nos conheça como nós somos", diz o médico sanitarista José Giordano, que estuda yoga, leciona no Museu de Arte Moderna de São Paulo e também pratica acupuntura. "Outro dia, vi uma senhora pobre na rua. Minha vontade era ajudá-la, mas eu tinha vergonha. Fui até um bar, comprei café para ela e andamos juntos. Não me importei que me vissem. Eu fiz algo significativo para mim."
O tabelião Paulo Roberto G. Ferreira, 41, trabalha há 20 anos em um cartório de registro de imóveis em São Paulo, uma atividade burocrática por excelência. Mas ele se sente realizado por redigir testamentos e registrar as negociações imobiliárias, porque encontrou uma forma própria e autêntica de enxergar seu papel e seu dia-a-dia. "Sinto-me um servidor que ajuda as pessoas em momentos muito importantes de suas vidas, como a compra de uma casa ou o enfrentamento da morte de um parente".
Rubem aprendeu a lição. "Eu me preocupo muito mais em viver bem o dia que estou vivendo. Se viver em função das incertezas, destruo a minha vida." Rubem não atende mais no consultório. Decidiu que dispunha de maturidade suficiente para vagabundear e um dos seus grandes prazeres é reler os livros que o marcaram e plantar árvores em seu sítio - mesmo sabendo que muitas delas demoram em média 100 anos para crescer e ele não as verá adultas.
Imprevistos acontecem, e maturidade também é saber relevar o que não traz grandes conseqüências. "Bobagens, como o esquecimento de uma chave, podem deixar as pessoas chateadas por algum tempo. No retrospecto da sua vida, no entanto, você não vai lembrar que ficou para fora de casa em 1979", diz Sonia Audi.
Sandra Chemin, 33, administradora e publicitária, aprendeu com o mar a aceitar os imprevistos. Há quatro meses, ela largou um futuro promissor em uma multinacional para viver por um tempo em um veleiro com o marido e a filha de 1 ano e 7 meses. O casal comprou um barco adequado, estudou meteorologia e navegação e organizou um cronograma detalhado. Mas, nas primeiras semanas a bordo, os três descobriram que o planejamento pouco valia diante da natureza. Em Portugal, uma escala curta durou semanas. Depois de dias maldizendo a cidade que os prendia, Sandra diz que aprendeu a aceitar a incerteza. Em retribuição, a cidade os acolheu. "O local de repente ganhou uma beleza que não tinha, e passamos a aproveitá-lo. Deixei a cidade com tristeza."
O confronto com aquilo que está além do seu domínio não acontece somente numa travessia atlântica. Capacidade de adaptação semelhante é exigida quando você está embaixo de uma marquise, em meio a uma repentina tormenta - e sem guarda-chuva. Você pode esperar, martirizar-se pelo esquecimento do acessório ou simplesmente se molhar. Ou seja, em meio a uma partida que já está perdida, é mais positivo tentar se divertir e aprender algo novo com a situação que se irritar com a provável derrota.
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição