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Siga sua intuição

Saiba escutar e desenvolver esse sexto sentido para tomar decisões certeiras no cotidiano

por Eugênio Mussak | fotos André Spinola e Castro

A enfermeira Sofia cuidava com muito zelo do paciente, quando pressentiu que havia algo errado com ele. Correu para alertar o médico. "Doutor, o paciente do leito 6 precisa de uma revisão. Ele está mal e não deve passar desta noite."

O médico, preocupado com o relato, resolve então examinar minuciosamente o enfermo - verifica os dados vitais e a medicação e conclui: "Sofia, não se preocupe, não há nada de errado com ele. Seu estado é estável e amanhã deverá estar melhor". Porém, no dia seguinte, bem cedo, o médico é informado de que seu paciente morrera durante a noite.

Podemos tirar algumas conclusões dessa história. Muitas vezes temos percepções, como as de Sofia, ou tomamos decisões que aparentemente não têm uma explicação lógica e que até contrariam o senso comum, mas que no final das contas fazem todo o sentido. Você mesmo já deve ter passado por uma situação em que sentia que deveria tomar uma determinada resolução, sem saber exatamente o porquê. E acabou acertando na escolha.

E assim descobrimos que existe algo a mais, uma capacidade desconhecida que está dentro de nós mesmos: nossa própria intuição. Mas o que é verdade e o que é mito a respeito desse tema tão interessante quanto polêmico? Será que podemos desenvolver nossa capacidade de ter intuições confiáveis? E, em caso afirmativo, como podemos fazer isso? Então vejamos.

Despertando o sexto sentido
Desde sempre o ser humano questiona sua capacidade de decidir baseado em fatos não explícitos. Mas a grande pergunta é: "Será que existe algo de místico ou sobrenatural na capacidade humana de intuir ou trata-se de um fenômeno que a ciência aceita e explica?"

A palavra intuição deriva do latim intueri, que significa"ver por dentro", "perceber o que está oculto para os outros". Estamos falando de uma capacidade humana de sentir, ou, em outras palavras, de um "sentido". Sentidos são atributos da natureza que permitem conectar o ser humano ao mundo que o rodeia.

Os cinco sentidos clássicos são: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. São eles que permitem nossa percepção dos detalhes do mundo e nossa conseqüente interação com ele. Vivemos tão melhor quanto melhor percebemos o que nos rodeia. A intuição seria, então, mais um sentido colocado à nossa disposição, pois sua finalidade é exatamente a mesma dos demais: melhorar nossa relação com o mundo e facilitar nossa vida.

A dificuldade que temos de entender a intuição como um sexto sentido é o fato de que ela não apresenta um órgão específico. Para os demais temos os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e a própria pele. Já a intuição não tem um órgão "periférico", ela usa diretamente a central de processamento, ou seja, o cérebro.

A maior parte das informações que temos hoje sobre o cérebro foram descobertas nos últimos 20 anos. A neurociência é um dos capítulos da biologia humana que mais avançam na atualidade e, a respeito da intuição, nos diz algumas coisas. Por exemplo, para que a intuição ocorra, pelo menos duas condições são necessárias: a existência de um registro inconsciente derivado de uma experiência anterior e uma freqüência cerebral baixa, ou seja, um cérebro relaxado.

Olhar para dentro
Um registro inconsciente é nada mais que uma memória que a pessoa desconhece, porque foi criada ao longo do tempo, de maneira muito sutil, capaz de permanecer na mente sem ser notada pela consciência.

A enfermeira da história do início, por exemplo, não sabe dizer ao médico por que ela acha que o paciente está mal e vai morrer, mas a verdade é que ela já viu centenas de vezes, ao longo de sua carreira, aquilo que se costuma chamar de "os pródromos da morte": pequenos sinais que, muitas vezes, antecedem o fim, como o olhar sem brilho, a apatia, a resignação, a entrega. As enfermeiras, no hospital, têm mais contato com os pacientes que os médicos, por isso elas muitas vezes fazem "leituras" que escapam aos doutores.

Isso não quer dizer que nossa enfermeira tenha poderes sobrenaturais, seja dotada de qualidades mediúnicas ou capaz de premonições mágicas. Apenas significa que Sofia construiu ao longo de sua vida um imenso conhecimento tácito. A palavra "tácito" deriva do latim tacitus, que significa "oculto", algo que não pode ser visto com facilidade ou percebido pelos sentidos comuns. E que também não pode ser explicado com muita facilidade.

Todos nós temos um estoque de cultura tácita, que é tão maior quanto maior for nossa experiência de vida. Não é incomum um professor perceber, logo na primeira aula, quais serão os alunos interessados e quais os que darão mais trabalho. Uma dona-de-casa também é capaz de intuir qual a medida certa dos ingredientes do bolo sem ter a receita em mãos. E isso vale para empresários, artistas, vendedores, estudantes, pais, mães e filhos - na verdade para qualquer pessoa. Intuir, portanto, é enxergar melhor as coisas que acontecem lá fora, olhando para dentro.

Sem misticismo
O respeito de pessoas célebres pelo que chamamos de intuição sempre esteve no cardápio da curiosidade humana. Grandes pensadores deixaram suas impressões sobre o tema. O filósofo Platão, por exemplo, distinguia quatro formas de conhecimento: a crença, a opinião, o raciocínio e a intuição. Ele considerava menores a crença e a opinião, pois dizia que ambas faziam parte da ilusão e da aparência. Já o raciocínio, segundo o filósofo, é importante para treinar o pensamento, deixá-lo preparado para atingir a intuição e, dessa maneira, acessar o mundo das idéias, ou a essência que constrói a realidade.

Em tempos mais modernos, já no século 20, coube ao psiquiatra suíço Carl Gustav Jung investir inteligência sobre o tema. O mapa junguiano da mente - ou da alma, como ele preferia - é um modelo platônico, pois também trabalha com as "idéias". A diferença reside no fato de que Jung trata as idéias como fatores psicológicos, e Platão como formas eternas ou abstrações.

Em seu livro Tipos Psicológicos, publicado primeiramente em 1921, Jung também se refere a quatro atividades mentais que constroem o que costumamos chamar de ser humano: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Dizia que esta última precisa necessariamente estar ancorada em experiências anteriores. O psiquiatra explica que, se ficarmos atentos a tudo, aumentamos nossa capacidade de usar a intuição e de decidir acertadamente.

Acalmando a mente
A atividade cerebral pode ser medida com o uso de um aparelho apropriado, o eletroencefalógrafo, que registra as ondas que o cérebro produz. Há quatro tipos de ondas cerebrais, de acordo com sua freqüência, designadas por letras gregas: beta, alfa, gama e teta.

Acordados, em atividade cerebral de trabalho ou aprendizagem, estamos em beta, porém essa freqüência pode oscilar dentro de sua faixa, sendo mais alta ou mais baixa. Em estado de nervosismo, ansiedade ou estresse, a freqüência tende a subir e, quanto mais alta, menor a acuidade dos sentidos. Você já reparou que quando você está nervoso não presta muita atenção nas opiniões ou informações que recebe?

Uma pessoa muito tensa pode olhar para sua mesa e não ver o documento que está procurando, ou não perceber que os óculos de que ela precisa para ler estão em sua própria testa. Ora, se a freqüência elevada diminui a acuidade dos sentidos clássicos, que dispõem de órgãos específicos, o que dizer da intuição, que é um sentido mais fino e sensível? Obviamente, a intuição depende de um estado mental de relaxamento e serenidade. Não se pode confiar na intuição de uma pessoa nervosa ou angustiada.

Todos os exercícios indicados para quem deseja aumentar seu poder de intuir são, na realidade, exercícios de diminuição da freqüência cerebral, que visam aproximá-la do estado alfa, como o que se obtém por meio da meditação, da contemplação, do yoga, do tai chi. Esse "acalmar" da mente é o que permite a "visão para dentro".

A consultora Patrícia Einstein, que mora em Nova York e atende empresas em seu curso chamado "Inner Voyage" (em português, "a viagem para dentro"), ensina em seu livro Intuição - O Caminho da Sabedoria Interior (Editora Cultrix) 57 exercícios para aumentar a intuição. Praticamente todos objetivam recuperar a serenidade e aumentar a percepção, para entrar no que ela chama de grande reservatório de informações, ou "fonte intuitiva".

A intuição na prática
Existem estatísticas que nos deixam, no mínimo, pensativos, como a dos 90% de ganhadores de prêmios Nobel que enfatizam a importância da intuição e da criatividade nas principais descobertas humanas.

Em qualquer setor em que decisões são necessárias constantemente, a intuição se faz presente. O Instituto Internacional de Desenvolvimento em Gestão - IMD, com sede em Lausanne, na Suíça, um dos mais respeitados centros de ensino e pesquisa em gestão de empresas do mundo, entrevistou 1 312 altos executivos em nove países e verificou que 80% deles consideram que a intuição foi importante na formulação de estratégias empresariais bem-sucedidas. Desses, 53% afirmam que usam a intuição na mesma proporção que o raciocínio lógico em sua rotina de decisões no mundo dos negócios.

O tema é de tal importância que não se admite relegar a intuição ao mundo místico, desconhecido, que depende apenas de se acreditar nele. Há até uma corrente filosófica, chamada exatamente filosofia intuísta, proposta pelo filósofo escocês William Hamilton há mais de dois séculos. Afirma essa filosofia que a intuição é a mais poderosa manifestação do conhecimento, pois se trata de uma iluminação súbita, que tem o poder de alargar a compreensão humana e transformar as pessoas em seres verdadeiramente únicos e especiais.

Há, como vimos, muitos registros a respeito da intuição para que dediquemos tão pouca atenção a esse assunto. Portanto, se for preciso, siga sim sua "voz interior", mas faça um favor a si mesmo: não caia no conto da "vida fácil" derivada de iluminações repentinas, porém irresponsáveis.

Coloque em prática cinco recomendações que estão presentes na literatura e que podem ajudar a aumentar sua intuição: antes de mais nada, permita-se escutar o que sua mente tem a lhe dizer e abra esse canal de comunicação; esteja atento a tudo e não menospreze os detalhes; procure manter a serenidade nos momentos de decisão; exercite sua intuição apenas por causas boas e dignas; e mantenha saudáveis seu corpo e sua mente.

Como todas as qualidades, a intuição se expande com o desenvolvimento integral do ser humano. E, para tanto, a experiência, a leitura, a serenidade, a bondade e a integridade são ingredientes importantes.

Eugênio Mussak é biólogo e educador, consultor na área de desenvolvimento humano, autor e conferencista. Suas idéias objetivas podem ser encontradas em www.eugeniomussak.com.br

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