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Receita de saúde

Mais do que combater os sintomas das doenças, o importante é fortalecer o organismo e levá-lo a reagir contra os invasores. Esse é o princípio da homeopatia

por Mariana Templo | fotos Marcelo Zocchio | Produção Paola Petti Cerveira

Viver nas grandes cidades é, em muitos aspectos, como participar de uma corrida de obstáculos. Trabalhamos muito, perdemos horas e horas no trânsito, comemos fora de casa, enfrentamos mudanças bruscas de temperatura (sol, vento, chuva, ar-condicionado)... Nesse cenário, é difícil manter a saúde no ponto. Resultado: um comprimidinho para dor de cabeça aqui, uma cápsula para o estômago ali, remédios para atenuar a dor nas costas ou aquele resfriado que não vai embora. Mas, como não dá para ficar só lutando contra os efeitos (e se entupindo de química todo dia), cada vez mais gente busca métodos alternativos para cuidar do próprio corpo - práticas como a homeopatia, criada há mais de dois séculos na Alemanha com um objetivo ambicioso: curar o organismo por inteiro. Como? Levando-o a reagir contra invasores de todo tipo, num processo que valoriza muito mais a prevenção do que o combate aos sintomas das doenças. Ao tomar o medicamento correto, garantem os especialistas, você se livra não só da rinite alérgica e melhora a dor nas costas, mas também começa a conversar mais com a mulher em casa, a levar os filhos para passear no parque no final de semana, a jogar tênis ou futebol com os amigos. Na forma de líquidos, tabletes ou bolinhas de açúcar, eles despertam nosso organismo. E o mais incrível é que quem diz isso são os próprios cientistas, que sempre olharam com ceticismo para essa prática médica.

A técnica, descoberta por Samuel Hahnemann no século 18, intriga os cientistas. Ele iniciou suas experiências com um remédio para malária chamado de quinina. Apesar de estar saudável, tomou a droga e... surpresa: teve as mesmas reações (febre e calafrios). Se um produto causa determinadas sensações de debilidade numa pessoa saudável, pensou, uma pequena dose pode ser usada para tratar os mesmos sintomas num paciente doente. O médico alemão testou centenas de plantas e minerais em seus sete filhos e elaborou a lista de substâncias que hoje fazem parte da farmacopéia homeopática.

Ainda hoje, entender (e explicar) como os remédios homeopáticos agem é um grande mistério. Sabe-se que, em vez de atacar os efeitos, como fazem os tradicionais, eles estimulam o corpo a reagir, muitas vezes injetando substâncias que têm exatamente o mesmo efeito que a própria doença - um princípio semelhante ao das vacinas. Com uma diferença: são tão diluídos que a matéria original desaparece no processo. A Lei do Infinitesimal de Hahnemann, ou seja, sua crença de que quanto mais diluído, mais potente é seu efeito, é um dos principais conceitos da homeopatia.

Compare os métodos
Para tentar compreender melhor essa história, vamos começar com uma comparação. A medicina convencional, batizada por Hahnemann de alopatia em 1850, se preocupa com os sintomas. Nesse aspecto, é prática e objetiva. Quando o paciente sofre de depressão, por exemplo, ocorre um desequilíbrio na química cerebral, uma queda nos níveis de serotonina e noradrenalina, os neurotransmissores responsáveis pelas sensações de prazer e bem-estar. A função dos antidepressivos é justamente reequilibrar a quantidade dessas substâncias no cérebro. Os analgésicos, por sua vez, agem na área do córtex que controla a dor e, assim, inibem a síntese de prostaglandinas, que transmitem os estímulos dolorosos.

A homeopatia é quase o oposto. A começar pelo nome. Em grego, homoios quer dizer "semelhante" e pathos, "sofrimento". Ou seja, a cura não vem pelo combate aos sintomas, mas pelo estímulo a esses mesmos sintomas. Se o paciente tem febre, o médico receita um remédio que também cause febre. A explicação para esse fenômeno aparece originalmente na Grécia Antiga, nos escritos de Hipócrates, considerado o pai da medicina. Para ele, não eram apenas os contrários que curavam, mas também os similares.

O alemão Hahnemann fundou seus estudos no fato de que é necessário fazer com que o corpo não apenas se defenda de um vírus específico, mas se reequilibre como um todo, impedindo que qualquer mal (físico ou emocional) se manifeste. Ou seja, o tratamento pressupõe acompanhamento constante e a ingestão dos chamados "remédios de fundo" permanentemente, mesmo quando está tudo em ordem. Daí por que a homeopatia funciona melhor com problemas crônicos, como alergias, do que em quadros clínicos agudos, como uma inflamação ou uma dor de cabeça (leia o quadro na página ao lado).

Tudo sobre o paciente
Já deu para perceber que para promover a cura por inteiro é preciso conhecer a pessoa por inteiro. A primeira consulta pode durar três ou quatro horas, em dias diferentes (leia a experiência de Paulinho Lencina no consultório no quadro da página 31). O médico faz uma série de perguntas que, muitas vezes, não têm aparentemente nada a ver com algum problema específico de saúde (que doenças você teve na infância, se era uma criança tímida ou extrovertida, como se relacionava com os pais e os irmãos, se teve muitos namorados, que coisas gosta de comer, se sonha em preto-e-branco ou colorido...). "Só é possível receitar o remédio certo quando se conhece o paciente a fundo", diz a médica homeopata Aurea Eleutério Pascalicchio, doutora em Saúde Pública do Instituto de Saúde de São Paulo. Isso inclui observar atentamente expressões físicas, mentais e emocionais antes de definir qual é a medicação ideal.

O remédio de fundo é o que deve ser tomado constantemente. E cada pessoa tem um, conforme as características pessoais e o estilo de vida. "Aliás, acredita-se que nem sequer foi descoberto o remédio de fundo de muita gente", acrescenta Aurea. Hoje, existem perto de 2500 medicamentos homeopáticos no mercado e, a cada ano, dezenas de novas fórmulas são testadas. Eles são feitos à base de plantas, minerais, animais (tintura de moluscos e até veneno de cobra) e drogas químicas (caso da penicilina). As substâncias são diluídas cuidadosamente até chegar a doses mínimas da quantidade original. Alguns homeopatas usam apenas uma dessas substâncias já catalogadas e cujos efeitos são bem conhecidos - como arnica, Belladona ou Natrum muriaticum. Outros admitem misturar dois ou mais em busca da combinação ideal para o paciente (leia mais sobre as diferentes linhas de tratamento no quadro da página 24).

Um bom exemplo para entender melhor os remédios de fundo aparece nessa história contada pelo médico Kamau Kokayi. Um dos maiores especialistas em homeopatia e acupuntura dos Estados Unidos, ele costuma relatar em artigos para jornais americanos casos de pessoas que passam por sua clínica. "Uma mulher, certa vez, procurou-me para curar eczemas nas pernas", relata. Se trabalhasse com medicina tradicional, o doutor Kokayi seguramente receitaria uma dose alta de esteróides orais. Em vez disso, optou por um medicamento homeopático à base de mercúrio. "Escolhi o mercúrio não porque a paciente tinha eczema, mas por causa da quantidade de informações que me passou. Ela tinha sonhos repetidos com água, tanto de mar como de rio, e de alguma maneira isso se tornava uma ameaça, um medo de se afogar ou de sufocar." Ao pesquisar o sintoma, ele descobriu que o mercúrio é eficaz no combate aos medos relacionados à água. Assim, ao eliminar a causa, o problema do eczema (o efeito) também seria resolvido, o que de fato aconteceu.

Mas nem sempre o médico acerta o remédio de fundo de cara. O que geralmente acontece é que, após a primeira consulta, o paciente testa um por 30 dias. Em seguida, volta ao consultório e relata o que se passou durante o período. Dependendo dos resultados, as opções são seguir em frente ou buscar outra formulação, até acertar a ideal - ou seja, nada de pressa. Há três anos, o arquiteto carioca Marcos Santos procurou um homeopata para tratar uma enxaqueca. Tomou os tabletes por um mês e não sentiu diferença alguma. Voltou e pegou outra receita, que também não resolveu. "Acabei desistindo por achar que os resultados estavam demorando muito", lembra.

Interesse crescente
Reações como essa parecem cada vez mais raras. Segundo o Centro Nacional de Homeopatia dos Estados Unidos, os americanos gastam hoje mais de 165 milhões de dólares por ano com homeopatia e as vendas crescem de 20% a 25% anualmente. Na França, 75% da população usou homeopatia no ano passado. O remédio mais popular é o Oscillococcinum, para gripe, que vende mais que os similares alopáticos. Na Inglaterra, a família real é adepta desde 1830. A rainha Elizabeth costuma levar uma caixinha preta com 24 tabletes e bolinhas de açúcar em suas viagens e o príncipe Charles usa arnica para curar contusões provocadas por acidentes na prática de equitação.

No Brasil, há hoje 20 mil médicos homeopatas, o dobro de dez anos atrás. Juntos, eles atendem 400 mil pacientes por ano. Além dos consultórios particulares, o tratamento é oferecido em dezenas de postos de saúde em todo o país. E várias instituições de pesquisa, entre elas a Universidade Federal de São Paulo, criaram departamentos próprios para estudar o método.

A dona-de-casa Regina Lozano Peres Garcia, 46 anos, procurou um homeopata pela primeira vez em 1997, para combater uma hérnia de disco. Ele lhe receitou Lycopodium e, como complemento, Nux vomica. "Não só minhas dores na coluna melhoraram, mas também a ansiedade e o nervosismo com os problemas do dia-a-dia", diz. Para quem nunca experimentou, uma característica do tratamento é bastante curiosa. Muitos pacientes contam que se sentem mais abatidos assim que começam a tomar os remédios. Os médicos, porém, acham ótima essa reação. Ficam satisfeitos porque o problema está sendo atacado pelo próprio organismo.

A professora de inglês Doris Sundeland Cook, de 39 anos, é adepta da homeopatia desde os 7. "É tradição familiar, vem do tempo do meu avô", conta. Doris já se recuperou de uma nefrite, uma hepatite, duas pneumonias e uma cesariana, após o nascimento de seu filho Guilherme Bartholo, hoje com 14 anos. Guilherme também toma remédios homeopáticos desde que nasceu. A mãe confessa que, em casos extremos, como febre alta, apela para antitérmicos "comuns", mas sem interromper o tratamento com as bolinhas de açúcar.

A supervisora de atendimento Rosana da Silva Barbosa leva o filho Hugo ao consultório desde que ele tinha 4 dias de vida (hoje tem 7 anos). "Meu marido e eu tínhamos como objetivo prevenir doenças no bebê", diz Rosana. O esquema vem funcionando muito bem. Segundo ela, só uma vez não deu conta do recado. Há um ano e meio, o garoto teve uma dermatite causada por uma micose e a própria homeopata o encaminhou para uma amiga dermatologista, que receitou comprimidos alopáticos para acelerar a cura. Em seguida, Hugo retomou a rotina de tomar os tabletes todo dia - e voltou a cuidar do corpo por inteiro.

Quatro escolas - conheça as principais linhas de atuação da homeopatia hoje
Unicismo

É o método mais tradicional e mais difundido entre os homeopatas. Prevê que cada pessoa deve ser tratada com um único remédio, escolhido de acordo com suas características pessoais e seu estilo de vida.

Pluralismo

Os médicos que seguem essa linha receitam dois ou mais medicamentos, que devem ser tomados de forma alternada. O objetivo é fazer com que um remédio complemente o outro.

Complexismo

Nessa linha, os médicos também receitam dois ou mais remédios.

A diferença é que, em vez de alternar, todos são tomados simultaneamente, quase sempre várias vezes por dia.

Organicismo

É a linha mais próxima da medicina alopática.

O médico pergunta ao paciente quais são suas queixas imediatas e receita o medicamento com o objetivo de curar os órgãos doentes.

Efeito comprovado - confira alguns dos usos mais comuns da homeopatia
Alergia

Vários estudos constataram que a homeopatia diminui os sintomas de alergias, principalmente respiratórias e cutâneas. Pesquisa publicada no British Medical Journal, uma das mais conceituadas revistas de medicina do mundo, mostra que o tratamento melhora o fluxo do ar em pacientes com crises de rinite alérgica. Algumas pesquisas com asmáticos, porém, não mostraram a mesma eficácia - sobretudo com crianças.

Gripe

O remédio homeopático Oscillococcinum e reduz o tempo de duração de uma gripe comum de uma semana para dois dias, em média -mas não serve para prevenir a doença. Na França, o medicamento é mais usado que os alopáticos. Estudo feito por médicos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostrou que usar apenas homeopatia funciona para tosses e resfriados leves, mas não resolve casos mais graves.

Infecções

Vários estudos já comprovaram que a homeopatia funciona para combater infecções. O mais recente foi realizado pela Faculdade de Medicina de Marília, em São Paulo. Em testes com ratos com infecção urinária, a homeopatia tem o mesmo efeito que medicamentos convencionais.

Inflamações

A aposta homeopática é a arnica, mas há dúvidas sobre sua eficiência. Pesquisas antigas comprovaram que ela funciona, mas outras mais recentes, nos Estados Unidos e na Inglaterra, concluíram que o efeito é o mesmo do placebo.

Usada contra gripe, a Belladona é um dos remédios de fundo mais comuns entre os usuários de homeopatia

Efeitos colaterais - as reações indesejadas, quando aparecem, são leves
Alguns pacientes dizem que se sentem piores logo que começam a tomar os medicamentos. Segundo os homeopatas, essa é uma reação boa, porque é sinal de que o corpo está se esforçando para restabelecer a saúde.

É por isso que, muitas vezes, quando você conta que os sinais da doença aumentaram, o médico fica satisfeito. Os remédios homeopáticos na forma líquida podem conter mais álcool que os medicamentos alopáticos para adultos. Segundo o FDA, a agência dos Estados Unidos que controla remédios e alimentos, não há registro de reações adversas causadas pelo álcool. Da mesma forma, os remédios homeopáticos não têm efeitos colaterais se ingeridos junto com medicamentos alopáticos. Só faça isso, porém, se o médico ordenar. Mulheres grávidas ou amamentando devem tomar especial cuidado com qualquer tipo de remédio - para não correr o risco de afetar o desenvolvimento do bebê.

No divã do médico
Logo percebi que o homeopata tem bastante de psicólogo no trato com o paciente
por Paulinho Lencina
Mãos suando frio, noites insones, desconforto na boca do estômago, leve desespero - como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. Esses foram alguns dos sintomas que me levaram a bater na porta do consultório do médico homeopata João Luiz Matoso. Talvez para você isso soe como um exagero, mas quem sofre de ansiedade sabe bem do que estou falando. Sou um ansioso convicto, peno desse mal há um bom tempo.Eu nunca tinha feito uma consulta homeopática. Inicialmente, não notei nada de diferente das consultas alopáticas. Estavam ali, na sala de espera, alguns pacientes com aproximadamente 40 anos e a atendente. A roupa do médico era branca. Dentro do consultório percebi algumas mudanças no ambiente. Sobre o balcão, as tradicionais amostras de remédio foram trocadas por pequenas ampolas de misturas homeopáticas. O doutor pergunta o motivo da minha visita. Explico.

Ele pede que eu fale sobre minha vida. Fico um pouco surpreso.

Afinal, não me pediu para deitar na maca nem mediu minha pressão ou colocou aquele incômodo palitinho na boca para olhar a garganta.

Fiquei tagarelando durante uma hora e meia. Essa é outra diferença: o tempo da consulta. Abri meu coração, contei sobre minha infância, minhas viagens, meus relacionamentos, meus parentes. De vez em quando o médico pedia para eu esclarecer melhor um ou outro ponto. Tudo é anotado num papel. Percebo que os homeopatas têm muito de psicólogos, pois escutam bastante sobre hábitos, comportamentos e problemas do paciente. A diferença é que eles não tentam solucionar os casos por meio de conselhos, mas com uma medicação escolhida para cada caso, que serve para trazer equilíbrio físico e mental. Realmente, meu caso talvez não tenha muito sentido no mundo da alopatia, porque não há química que dê cabo da ansiedade.

O médico explica que a homeopatia lida com as emoções do paciente, porque o ser humano é visto como múltiplas partes, entre elas a física e a mental. Portanto, não adianta indicar um remédio para curar o corpo se o lado emocional continua adoentado. E tem mais: o remédio não age sozinho. Ele é apenas mais um componente de cura. A forma como você encara as situações conta muito para uma vida saudável. Em outras palavras, exercícios físicos e relaxamento mental são bem-vindos.O início do meu tratamento inclui um remédio para ser tomado duas vezes por dia, uma bateria de exames (sangue, urina etc.) e um mantra (isso mesmo, um mantra). Só de saber que a homeopatia enxerga o ser humano por inteiro, posso dizer que já fiquei um pouco mais tranqüilo.

Paulinho Lencina, jornalista, lendo Mario Quintana e aprendendo a esquecer a ansiedade. eufiz@abril.com.br

Para saber mais

Associação Médica Homeopática Brasileira, www.amhb.org.br, (61) 345-6077
Associação Paulista de Homeopatia, www.aph.org.br, (11) 5575-8817
Conselho Federal de Medicina, www.portalmedico.org.br, (61) 445-5900
Universidade Federal de São Paulo - Setor de Homeopatia, www.unifesp.br, (11) 5573-6908 e 5576-4432

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