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Deixa que eu faço!

Quando tomamos as rédeas da nossa própria vida, ganhamos mais coragem para assumir responsabilidades

por Eugênio Mussak | fotos André Spinola e Castro e Flávia Sakai

Desde que começou a viver em grupos com a finalidade de se proteger e ter mais facilidade para obter caça, a humanidade tem evoluído graças a três qualidades: a linguagem, o pensamento e a ação. Essa evolução aconteceu na forma de pequenos saltos, sempre propostos por um indivíduo especial. Um ser humano do tipo que assume a responsabilidade por fazer algo diferente que, mais tarde, possa vir a ser incorporado pelos outros. Portanto, evoluímos quando alguém na multidão toma a dianteira e diz algo como "deixa que eu faço!".

Até hoje é assim. Em todos os ambientes em que vivemos, há sempre alguém, diante de uma necessidade, que solta o famoso "deixa que eu faço" - o que pode provocar tanto alívio quanto calafrios. Isso porque a frase, quando pronunciada por um amigo ou conhecido, desencadeia dois sentimentos diferentes: respeito pela pessoa, quando confiamos nela, ou preocupação, quando temos lá nossas dúvidas de que ela dará conta do recado.

Em princípio, o "deixa que eu faço" é uma atitude louvável, mas não podemos esquecer que ela envolve um risco, pois está ligada a fatores como responsabilidade, coragem, capacidade, maturidade. Quem diz que vai fazer alguma coisa que afeta outras pessoas deve saber que está assumindo o risco de falhar e, por isso, deve estar dotado dessas qualidades - únicas garantias do bom resultado.

Eu sou responsável
Responsável é quem responde pelos próprios atos, ou pelos atos de outras pessoas, pelas quais é "responsável". Assumir responsabilidade significa incorporar o demérito de um possível fracasso e, ao mesmo tempo, ter a grandeza de compartilhar o mérito de um possível sucesso. "Deixa que eu faço. Se der certo, é mérito de todos. Se der errado, eu assumo a responsabilidade." Essa é a pessoa que queremos perto de nós.

Se, por um lado, ser responsável é "responder pelos próprios atos", por outro também significa "corresponder" às expectativas dos outros, sejam eles colegas, chefes, subordinados ou clientes. Quando uma pessoa diz que vai fazer, está assumindo uma responsabilidade que, se não for bem-sucedida, afeta não só quem não fez como também quem esperava que fosse feito.

A sociedade moderna valoriza cada vez mais a cadeia de produção. Hoje, fazemos tudo coletivamente. Há muito acabou a época do artesão independente, que, como um sapateiro, comprava o couro, cortava, costurava, preparava a sola, montava o sapato e ainda o vendia. Hoje quem faz isso é uma equipe, e foi justamente dessa mudança que nasceu o progresso.

Por isso a responsabilidade está tão em alta. A falha de um compromete o trabalho de todos e, portanto, o produto final. O ditado "nenhuma corrente é mais forte do que seu elo mais fraco" nunca foi tão moderno. Uma equipe pode (e até deve) ter diferenças. Conhecimentos, habilidades, velocidades, percepções, tarefas podem ser diferentes. A responsabilidade não. Essa deve ser igual para todos. A reação em cadeia provocada por um ato irresponsável aparentemente pequeno pode pôr tudo a perder.

Assim, quando você disser "deixa que eu faço", faça. Se você precisa pronunciar essas palavras é porque aquilo que você está pretendendo fazer interessa não só a você, mas também a outras pessoas, se não você agiria sem dizer nada a ninguém.

Eu não tenho medo
Assumir que se vai fazer alguma coisa também inclui coragem - porque o homem, por princípio biológico, é um ser que, apesar de evoluir via mudanças, resiste a elas. Nosso instinto é o de resistir a toda atividade que consuma energia - até caminhar. Fazer algo novo exige, sim, uma dose considerável de coragem, pois quem muda está indo contra uma condição estável. Mudanças incomodam, pois exigem esforço pessoal de desacomodação. Disse Confúcio: "O homem tem três maneiras de agir com sabedoria. A primeira é a meditação, a mais nobre. A segunda é a imitação, a mais fácil. A terceira é a experiência, a mais amarga".

Informar outras pessoas que você vai assumir a responsabilidade de fazer algo envolve uma experiência que gera medo. Mas todos sentimos medo. É normal e é bom, pois o medo nos protege da exposição a perigos e nos preserva a vida. Trata-se de uma condição psicológica previsível, desejada e saudável. No entanto, todos nós ouvimos, em várias fases da vida, conselhos para "não ter medo".

Coisas do tipo: "vou apagar a luz, mas não tenha medo, a mamãe está no quarto ao lado"; "não tenha medo da prova, você vai se sair bem"; "vá para a entrevista e não tenha medo, o entrevistador não morde". Lembra? E quando alguém deseja falar no afirmativo diz: "tenha coragem", o que não é o mesmo que não ter medo, mas ter capacidade para enfrentá-lo e vencê-lo.

O medo é definido como um fenômeno psicológico com forte caráter afetivo, marcado pela consciência de um perigo ou mal. Preste atenção: o medo nasce do perigo, mas também das incertezas. Nas incertezas pode morar um perigo real, mas o mais provável é que ali more um perigo imaginário.

Males da modernidade. Vivemos uma era de incertezas e, portanto, do medo escondido nelas. Se você sente os efeitos da desconfiança com relação à política, à economia, à paz mundial, sofre do mesmo mal que milhões de outras pessoas que lêem o jornal ou assistem ao noticiário e são assaltadas pelas notícias do desaquecimento da economia, da falta de empregos, da insegurança que não é apenas física, mas também social, moral e emocional. Os medos morais, de o dinheiro não chegar ou a crise aumentar, são até maiores, porque mais presentes, do que os medos físicos, de assaltos, terrorismo, epidemias.

Para viver melhor, temos de aprender a separar os dois: o medo do perigo do medo da incerteza. E depois disso temos de aprender a lidar com as incertezas, diminuindo seu sentido abstrato. Isso equivale a dizer: transformar as incertezas em situações conhecidas, sob controle. Para tanto, aumentar a percepção, a informação, o conhecimento e a cultura geral é o melhor atalho.

Se você tem medo de tomar uma atitude e fazer algo novo, esse medo habita o território das incertezas. Se, por outro lado, você tem certeza de que está fazendo tudo o que pode para ser bem-sucedido na empreitada, não precisa ter medo, ou pelo menos pode manter o medo sob controle. Nesse caso, se você disser "deixa que eu faço", é porque sabe com o que está lidando.

Eu sei o que faço
Sabe mesmo? Espero que sim, pois toda dificuldade enfrentada pressupõe uma habilidade desenvolvida para superá-la. Se você pede a bola durante o jogo, podemos imaginar que está mais bem posicionado em campo e saberá o que fazer após recebê-la. Perder o gol depois de pedir a bola não é lá muito bonito.

Mas às vezes acontece. O acadêmico canadense Laurence Peter, morto em 1990, disse uma vez que todos somos promovidos até o limite de nossa incompetência. Até hoje sua teoria é lembrada com o nome de "princípio de Peter" e pode ser aplicada a qualquer lugar onde haja atividade humana.

O que ele queria dizer é que numa organização as pessoas vão sendo promovidas em suas funções de acordo com a competência que mostram, mas sempre assumindo responsabilidades maiores. Até que um dia a promoção pode colocar a pessoa numa função superior à sua competência. Isso basta para acabar com uma carreira de sucesso - até então. Cruel, não é mesmo? O professor canadense chama nossa atenção para sempre medirmos bem nossa real condição de aceitar uma tarefa, ou de dizer "deixa que eu faço".

Todos sabemos que fracassos fazem parte da vida. Mas também sabemos que existe pouca tolerância a eles. Portanto, muito cuidado nessa hora. "Deixa que eu faço" significa exatamente a mesma coisa que "deixa que eu sei fazer". Se não for, não abra a boca.

Eu sou adulto
Ser adulto até pode estar ligado com ter idade, mas não necessariamente. O que importa é que é a condição necessária e suficiente para assumir riscos com segurança. E isso pode acontecer em qualquer idade, como também pode ocorrer o contrário - e provocar catástrofes. Quase todos os dias encontramos nos jornais notícias sobre pessoas que são vistas como adultas, mas estão fazendo o que não deveriam fazer. Provavelmente em algum momento disseram "deixa que eu faço" e não fizeram; ou fizeram mal; ou fizeram o mal.

A esse tipo de adultos, eu prefiro as crianças. Estas, pelo menos, não dizem que vão fazer - simplesmente fazem. E podem agir assim, pois estão aprendendo e terão suas falhas toleradas, especialmente quando não afetarem ninguém e não trouxerem prejuízos maiores.

Assumir responsabilidades, bancar os riscos e confiar nas habilidades são os pré-requisitos do "deixa que eu faço" e também as marcas registradas do homem adulto. Daquele que avalia a dificuldade e a compara com sua habilidade. Se forem equivalentes, ou se a habilidade puder ser desenvolvida durante a ação, então vá em frente.

O contista e poeta inglês Rudyard Kipling, que nasceu na Índia e foi o primeiro britânico a ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1907), escreveu um poema de grande beleza e força, chamado simplesmente "Se", no qual examina as condições para que uma pessoa possa ser considerada um adulto.

Diz ele que serás um "homem", no sentido de adulto, "se fores capaz de manter a calma quanto todos ao teu redor já a perderam e te culpam pela situação". Segue o poema dizendo que serás um adulto "se fores capaz de continuar a crer em ti mesmo quando já todos estão duvidando", pois a autoconfiança ancorada na realidade é fundamental. Em geral, quando alguém diz "deixa que eu faço" com segurança, está atendendo a essas duas demandas.

Na parte mais bela do poema, o autor lembra que serás um adulto "se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires tratar da mesma forma esses dois impostores", pois quando sabemos o que fazemos o resultado tende a ser previsível e, nesse caso, não há bons ou maus resultados, há apenas resultados.

Em outro poema atribuído a Rudyard Kipling, pode-se encontrar uma reflexão sobre o risco. Ele faz uma comparação entre o risco de tentar e o risco de não tentar. E termina dizendo: "Tentar é arriscar-se a falhar, mas lembre. Viver é arriscar-se a morrer. Aquele que não arrisca não faz nada, não tem nada, não é nada..."

Eugênio Mussak é biólogo e educador, consultor na área de desenvolvimento humano, autor e conferencista. Suas idéias objetivas podem ser encontradas em www.eugeniomussak.com.br

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