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Hermeto

Na atitude de um sertanejo extraordinário, algumas lições para perceber a vida como uma linda música

por Otávio Rodrigues | fotos Eduardo Serafim

O povoado de Lagoa da Canoa não tinha luz elétrica no dia 22 de junho de 1936, quando Hermeto Pascoal nasceu. "Estava chovendo", diz ele. Mais tarde, quando já andava a cavalo - apesar de enxergar pouco - chegou pra dona Divina e falou: "Mãe, quero que a senhora me diga se é: eu sinto que, quando nasci, estava chovendo muito, e me vejo assim num quarto, mãe Maria, parteira, me pegando e me botando numa dessas bacias de estanho grandes, com água morninha, vinagre na água, um pouquinho de sal..." E dona Divina, desconcertada, ia confirmando, porque foi assim mesmo.

Encontrei mais de uma biografia de Hermeto dizendo que nada na região de Arapiraca, interior das Alagoas, faria supor que um filho de agricultores, albino e de olho virado, pudesse tornar-se um gênio da música mundial mesmo antes de ter aprendido a ler partitura. Convivendo um pouco com ele descobri que esse raciocínio está errado. Porque, ao contrário, é em Lagoa da Canoa, sem luz, sem nada, que Hermeto tem a oportunidade de conhecer alguns dos parceiros mais freqüentes de sua obra: passarinhos, formigas, sapos, porcos, bois, cavalos. "Os animais são meus maiores professores." E é na terra natal que Hermeto recebe as primeiras bênçãos do sol, da chuva, do mato, do vento; é onde ele descobre o som da areia e percebe as vozes da alma. "Acabei aprendendo teoria musical com mais ou menos 35 anos. Mas aí eu já estava de cabeça feita."

Grudei nele por três dias, em Belo Horizonte, durante o 2º Festival Lixo e Cidadania, que teve Hermeto e seu grupo no grand finale. Fui um carrapato gentil, que tentava não incomodar o hospedeiro. Hermeto é uma máquina de contar histórias e faz isso com graça, como você vai ler agora.

Gostar de si mesmo
Hermeto sempre soube que era diferente, mas nunca se sentiu inferior nem desenvolveu complexos - aliás, eis um caso em que se pode afirmar: muito pelo contrário. Ainda era menino, em Lagoa da Canoa, a molecada da escola colocava um apelido atrás do outro, era aquela zuada - e ele nem aí. Era tão talentoso e divertido que no fim as meninas mais interessantes gostavam dele. E bastava um chamego para a turma cair em cima: "Como é que você namora um cara desses, ele não enxerga direito e o olho dele vira!" Na saída, Hermeto ia em um por um - era mais fortinho. "Você falou que eu sou feinho?" E pá neles. Mais tarde, sempre aparecia um pai ultrajado. "Seu filho bateu no meu." Seu Pascoal, tranqüilo, olhava pra Hermeto. "Filho, por que você bateu?" Primeiro ouvia, depois acrescentava: "Então fez certo".

A mãe, dona Divina, dava também aquela proteção. Acontecia, por exemplo, de as mocinhas lavando roupa no rio começarem a fazer troça com o menino. "Que esquisito, olha como ele é branco! Você enxerga bem?" Hermeto tinha pronta a resposta: "Levanta a saia que eu digo". E lá iam as mocinhas fazer queixa do galego com dona Divina. Que primeiro ouvia, depois... "Respondeu certo. E tem mais: fui eu que ensinei." É por isso, graças a seu Pascoal e a dona Divina, que Hermeto se gosta, se acha bonito. "Sou uma árvore muito original."

Som com a bicharada
Hermeto ia muito com o pai para a roça. Branquinho e de olhos sensíveis à luz, ficava sob um umbuzeiro, conversando com os passarinhos. "Eu arranca-va um pedaço de carrapateira, aquele canudinho da mamona, e com uma faquinha fazia uma flautinha e começava a tocar." Primeiro, aquele som novo assustou os bichos. Mas aos poucos... "Eu começava a tocar uma melodiazinha e ficava naquela só, para eles se acostumarem. No segundo dia já tinha dois. No terceiro, foi aumentando, aumentando, a ponto de eu tocar tudo que quisesse. Agora não precisava mais escolher a musiquinha pra eles, não... Quando eu tocava o primeiro som na flauta, eles vinham e cobriam a árvore."

Um dia, na estrada até Lagoa da Canoa, ele descobriu as formigas em travessia, trabalhando duro. Tiveram de chamar seu Pascoal em casa: "Seu filho ficou maluco, está deitado lá na estrada e não quer deixar os vaqueiros passarem com a boiada." Uma das coisas que encanta Hermeto é o que ele chama de "sonzinho" das formigas. "Aquela areia branca, elas se arrastando na areia... Na gravação de um disco, comecei a me lembrar desse sonzinho, fiz assim na calça, saiu algo interessante. O técnico se assustou. Aí pronto, já comecei a tocar um forró. Você escuta um som que parece zabumba, mas não é: é calça jeans! [A experiência sonora aparece na música "Mercosom", do álbum Eu e Eles, Rádio Mec, 1999.] Você vê que tudo é música. E isso que eu tô falando vale pra vaca, cavalo, boi, vale pra todos eles."

"Esse nasceu pra isso"
O avô de Hermeto era ferreiro, dos bons. "Eu ficava nesse negócio de ajudar meu avô, pegava o resto de ferro que sobrava e escondia no quartinho." Um dia, dona Divina descobriu aquilo e quase teve um troço. "O menino tá ficando doido? Pra que tanto pedaço de ferro enferrujando aqui?" O avô acudiu e Hermeto o levou até lá pra ver. "Eu disse: 'Vê aí, avô, espera aí'. Peguei um pedacinho de pau, comecei a bater nos ferrinhos, comecei a tocar musiquinha que eu inventava na cabeça. Aí ele ficou maluco, chamou minha mãe pra ver." Dona Divina então chorou, mas de alegria e orgulho. "Pois é, esse nasceu pra isso mesmo, esse nasceu pra isso mesmo".

Aos 7 anos, Hermeto tocava sanfona de oito baixos. Aos 11, animava bailes ao lado do irmão mais velho, José Neto, também músico. Em 1950, com 14 anos, foi para o Recife com a família e começou a se apresentar em programas de rádio. Depois, com o irmão e o sanfoneiro Sivuca, ambos albinos, formou o trio O Mundo Pegando Fogo. Em 1958, Hermeto já estava no Rio, tocando no trio de Pernambuco do Pandeiro; e três anos depois, em São Paulo, trabalhando na noite e aprendendo outros e outros instrumentos - não existe um que ele não domine e execute com genialidade.

Pouca gente lembra, mas em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da Record, foi o Quarteto Novo - Hermeto, Heraldo, Théo de Barros e Airto Moreira - que ajudou "Ponteio", de Edu Lobo, a chegar ao primeiro lugar. De vez em quando, trechos do festival são reprisados e quase nunca se vê Hermeto no palco, só suas mãos tiritando na flauta. "Eles deviam me achar muito feio pra mostrar." Numa dessas grandes noites, ele se escondeu atrás de um cenário. Logo, o diretor apareceu para ver o que estava acontecendo. Hermeto: "Meus filhos estão duvidando que eu toco na televisão". Nunca mais sumiram com ele.

Boxe com Miles Davis
Foi no começo dos anos 1970 que Hermeto começou a ensaiar a consagração internacional. A convite do percussionista Airto Moreira, que ia bem nos Estados Unidos, ele viajou para lá. Não demorou e virou amigo de grandes jazzistas, entre eles o trompetista Miles Davis. "Lutei até boxe com ele", lembra. Fora do ringue, Miles sentou-se impassível diante de Hermeto e pediu que tocasse algo. Foram umas dez composições suas, mais os improvisos. Duas delas, "Igrejinha" e "Nenhum Talvez", estão no álbum Live Evil (1970), de Davis. Foi ele quem disse: "Esse homem me influenciou mais que qualquer outro nos últimos 20 anos. Ele é o músico mais impressionante do mundo".

O pessoal do grupo de Hermeto é, digamos, suspeito para falar dele - tem até um filho na percussão, Fábio Pascoal. Perguntei ao baterista Márcio Bahia se Hermeto toca bateria. Quando ele riu e olhou para o lado, percebi a gafe. "Hermeto, vê só o que ele está me perguntando!" Hermeto se aproximou e riu junto. "Tudo que eu sei", completou Márcio, "aprendi com ele." O baixista Itiberê Zwarg, também maestro da Itiberê e a Orquestra Família (que agrega 28 jovens músicos), não concorda que Hermeto seja "um dos melhores músicos do mundo", ou "o mais impressionante": "Ele é a própria música".

Viva a intuição
Na família de dona Ilza (esposa durante 46 anos, mãe de seus seis filhos, morta em 2001), quase todo mundo era espírita. "Eu vivi nesse meio e tenho muita experiência que o pai dela passou pra mim sobre Alan Kardec, mesa branca. Você não vê, por exemplo, ninguém de Alan Kardec na TV pegando dinheiro, vê?" Mas Hermeto é de outra pipa. "Descobri que minha religião, que Deus me deu, é a música. Eu rezo com a música, com o instrumento."

Enquanto zanzávamos em BH, pedi que ele explicasse a mecânica de seu pensamento. "Eu não premedito nada. Meu pensamento é livre, completamente solto, que é pra eu receber uma idéia, uma coisa, pra quando eu tenho uma intuição. O treinamento que eu faço é estudar meus instrumentos, principalmente os convencionais - por causa da técnica, né? Eu gosto de me surpreender pra surpreender os outros depois." Logo estávamos num programa de TV, em que a apresentadora, apavorada, teve de abrir espaço no território sagrado de sua mesa para que Hermeto fizesse uma batucada. "Ninguém premedita os pensamentos. Deus não deixou. Senão, a gente saberia quando ia morrer, né?"

Insisto no tema, falo em pensamentos positivos e negativos. "Se vem um pensamento que eu não gosto, é igual a estar caminhando agora pela rua: minha intuição vai me puxando, daí tem lugares pelos quais eu não quero passar, vem um camarada olhando pra mim meio engraçado, tem uma fogueira ali, muito bonita pra se ver, mas não pra entrar nela... Eu estou aqui conversando, de repente canto uma música... [e canta, junto com a chuva lá fora e o auxílio dos pneus sibilando no asfalto molhado]. Viu? Modéstia à parte, saiu uma linda melodia. Se eu premeditasse, estaria aqui falando um monte de besteiras."

Para saber mais
• Calendário do Som, 414 páginas, Editora Senac - O trabalho do criador ao longo de um ano: uma música por dia. Além das partituras - com a caligrafia bispo-do-rosário de Hermeto -, um excelente texto de apresentação do jornalista Sérgio Cabral. Ao final, os comentários de Hermeto sobre a atmosfera e o propósito de cada canção.

CDs de Hermeto Pascoal:
• Brasil Universo, Som da Gente, 1985;
• Festa dos Deuses, Som da Gente, 1992;
• Mundo Verde Esperança, Rádio MEC, 2003

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