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O percurso dura menos de três horas, partindo de São Paulo. Ao chegar à Estância Demétria, porém, a sensação que se tem é a de uma viagem no tempo. É difícil dizer se chegamos ao passado, por causa do jeitão simples e rústico, ou se já estamos num futuro utópico, em que as pessoas dividem o que têm, decidem tudo democraticamente e vivem em equilíbrio com a natureza. Ali, na periferia de Botucatu, dezenas de famílias - mais funcionários, estagiários e amantes da ecologia vindos de vários cantos do mundo - mantêm uma tradição de 30 anos: fazer funcionar, de forma autônoma e auto-sustentável, uma grande fazenda com escola, oficinas de artes, igreja da linha antroposófica e uma loja que só vende os produtos cultivados nas hortas, pomares e currais. Com uma diferença: tudo é orgânico, ou seja, 100% natural, sem fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, aditivos ou conservantes químicos, com respeito ao meio ambiente, responsabilidade social e muitos cuidados ecológicos. Neste momento em que a discussão sobre alimentos transgênicos ocupa os jornais e as discussões governamentais, saiba por que a experiência da estância, marco do movimento orgânico no Brasil, tem muito a ver com a sua vida.
Diferentemente do que muitos imaginam, não existem apenas vegetais e frutas produzidos de forma orgânica. Qualquer alimento pode ser produzido sem nenhum tipo de aditivo químico: pães, doces, massas - além, é claro, de ovos, laticínios e carnes. Nos países europeus onde o movimento é mais desenvolvido, há bebidas alcoólicas, roupas e cosméticos totalmente naturais. O administrador da Estância Demétria, Paulo Roberto Cabrera, diz que o ideal seria viver assim, "pois os venenos são estranhos ao organismo da terra".
No mundo todo, a proporção de orgânicos à disposição das pessoas ainda é pequena - 5% nos lugares em que a onda verde é mais forte -, mas a indústria cresce rapidamente e hoje movimenta 20 bilhões de dólares por ano. No Brasil, menos de 1% das terras cultivadas geram alimentos livres de agrotóxicos. Mas o crescimento do mercado é espantoso: mais de 30% ao ano. E você? Já entrou nessa onda? Confira agora cinco motivos para optar pelos orgânicos em sua próxima compra.
Bom, nem tudo são flores nos jardins orgânicos. Há também alguns espinhos. Para o consumidor, três aparecem com mais clareza:
Porque não são borrifados com agrotóxicos, os legumes, verduras e frutas 100% naturais são menores e um pouco mais feiosos que os convencionais.
Porque a produção ainda é relativamente pequena, há um problema de disponibilidade, ou seja, nem sempre é possível encontrar tudo o que se gostaria nas feiras e mercados (leia mais no texto de Paulinho Lencina, na página 29).
Porque a disponibilidade e a escala de produção são menores, o preço é (quase sempre) mais alto.
Em novembro, pegamos alguns exemplos na feira da Água Branca e numa grande rede de supermercados. De oito produtos (tomate, pepino, alface, mamão papaia, laranja, leite integral, batata e ovos), só um orgânico estava mais barato (a laranja - 2 reais contra 2,04 reais) e um custava o mesmo nos dois endereços (a alface, 1 real). Nos outros seis, vantagem para os convencionais. A maior diferença ficou com o pepino: 1,48 contra 5 reais. A boa notícia é que o aumento do consumo e o crescente interesse pelos alimentos naturais estão atraindo mais produtores para esse mercado. Assim, o custo do transporte por quilo deve cair e a oferta tende a se aproximar da demanda (quem freqüenta as feiras sabe como é decepcionante não poder dormir um pouco mais naquele sábado, pois quem chega tarde não encontra nada para comprar).
Mas, você já sabe, quem experimenta gosta - e não quer saber de voltar atrás. Pesquisa feita em São Paulo pelo Instituto Gallup mostrou que sete em cada dez entrevistados não se incomodam em pagar até 30% a mais para ter orgânicos no prato.
É gente que prefere gastar um pouco mais agora para economizar depois com tratamentos médicos. Gente que está de olho na saúde e quer comidas mais gostosas e duráveis - sem perder de vista questões ecológicas e de justiça social. Os benefícios, não há dúvida, se estendem também ao planeta. Está na cara que é melhor investir agora em modelos auto-sustentáveis do que ser forçados a gastar bilhões no futuro para tentar salvar a terra, a água e a vida do nosso mundo.
Basta optar pelos que recebem menos químicos no processo de produção. Confira as dicas do agrônomo Moacir Roberto Darolt, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná.
Risco menor
Feijão, peixes marinhos e folhas, caqui, pitanga, abacate, acerola, jabuticaba, coco, mexerica, nêspera. Esses alimentos têm ciclo curto de cultivo e recebem menos pulverizações com agrotóxicos. Os peixes marinhos são capturados no mar e não recebem nenhuma espécie de hormônio de crescimento, pois vivem livres em seu hábitat natural.
Risco médio
Arroz, carne bovina, peixes de água doce, beterraba, cenoura, alho, banana, manga, abacaxi, melancia, laranja, mamão formosa, maracujá.
Todos têm ciclo de vida intermediário e recebem um número de pulverizações um pouco maior do que os alimentos do grupo anterior.
No caso de bovinos e peixes criados em lagos, há presença de drogas veterinárias e hormônios de crescimento.
Alto risco
Frango, tomate, pimentão, berinjela, pepino, abobrinha, morango, goiaba, uva, maçã, pêssego, mamão papaia, figo, pêra, melão, nectarina.
São muito delicados para produzir e estão mais sujeitos ao ataque de pragas - portanto, recebem mais químicos. O tomate é campeão em resíduos: recebe em média 36 pulverizações com agrotóxicos.
E o frango é outro vilão. Criado de maneira intensiva, fica confinado e recebe doses enormes de hormônios de crescimento.
• Lave frutas e verduras em água corrente durante pelo menos um minuto esfregando com uma esponja ou coloque-as durante 20 minutos numa solução de 1 litro de água com quatro colheres de sopa de vinagre.
• Tire as folhas externas das verduras, pois elas concentram mais agrotóxicos.
• Descasque as frutas, especialmente pêssegos e maçãs.
• Retire a gordura das carnes e a pele do frango. Substâncias tóxicas se acumulam mais nos tecidos gordurosos.
• Diversifique sempre os vegetais consumidos, pois assim você reduz a ingestão de um mesmo agrotóxico.
• Dê preferência a produtos regionais. Alimentos que percorrem longas distâncias, como os importados, normalmente são pulverizados pós-colheita e possuem um nível ainda maior de agrotóxicos.
EM VASOS
Como preparar
1 Escolha um vaso com furos.
2 Encha um terço do vaso com brita ou pó de brita, para a drenagem.
3 Coloque uma mistura de duas partes de terra, uma parte de composto orgânico (leia abaixo) e uma parte de húmus até a borda do vaso.
4 Por fim, espalhe um pouco de areia.
Como plantar
• Para temperos (salsa, cebolinha, manjerona), usar mudas e posicioná-las de maneira intercalada, em forma de triângulo.
• Para pepino, usar sementes (duas ou três delas por cova, de acordo com instruções na embalagem) e fincar estacas para o crescimento vertical.
• Para tomate, usar mudas e fincar estacas para amarrar os pés.
• O composto orgânico deve ser feito com esterco curtido de animais (para evitar cheiro e insetos) e restos de vegetais (cascas de legumes e frutas, pequenos galhos, folhas ou grama cortada).
EM CANTEIROS
Como preparar
1 Revolver o solo com enxada ou pá, deixando a terra bem solta e fofa.
2 Misturar o composto orgânico.
3 Passar o ancinho e dar forma arredondada.
4 Deixar o canteiro 20 centímetros acima do nível do terreno.
5 A largura do canteiro deve ser de no máximo 1,20 metro.
Como plantar
1 Marcar os espaçamentos (exemplo: os pés de alface devem ficar a dois palmos um do outro).
2 Posicionar as mudas de maneira intercalada, em forma de triângulo, para evitar a erosão.
3 Misturar as sementes com areia e espalhar com a mão sobre o canteiro da maneira mais uniforme possível.
4 Regar pelo menos uma vez ao dia. Em regiões quentes, duas vezes ao dia até as mudas emergirem.
Regar nas horas mais frescas, de preferência pela manhã.
Você pode plantar as mesmas culturas indicadas para os vasos e também alface.
"Por favor, onde fica a seção de alimentos orgânicos?"
"Só um pouquinho, senhor..."
Com uma cara meio de assustado, ele chama um colega.
"João, esse senhor quer saber onde ficam os alimentos orgânicos".
"Ah, por favor, me siga", diz o recém-chegado - e me leva até a seção de dietéticos. Sim, dietéticos! Saí dali certo de que a minha busca seria complicada.
Fiz a mesma pergunta noutra rede. Surpresa! Apareceu uma senhora que me auxiliou na busca dos orgânicos, com informações precisas de origem, produção etc. Paradoxalmente, a oferta desse tipo de produtos ainda é pequena nos grandes estabelecimentos.
Então, descobri que existem feiras de orgânicos em quase todas as grandes cidades. No sábado pela manhã, resolvo dar uma espiada na feira de produtos orgânicos que acontece no belíssimo Parque da Água Branca, zona oeste de São Paulo. Lá tem de tudo: frutas, verduras, sucos, laticínios. Até chucrute orgânico.
É uma coisa meio familiar: todo mundo se conhece. O vendedor cumprimenta o comprador pelo nome e sabe o que ele gosta de levar para casa. Uma curiosidade: muitas das bancas expõem, além dos produtos, a foto da própria família produtora.
Os vendedores não se cansam de explicar a procedência e o processo de produção, sempre acompanhados de folhetinhos (voltei de lá carregado deles). Na saída da feira, dá para tomar um café da manhã - orgânico, é claro.
Outra boa pedida para comprar produtos orgânicos são as tele-entregas de cestas de frutas e verduras. Normalmente são pequenos produtores que recebem as encomendas. Liguei e uma pessoa muito simpática me explicou que toda semana tem uma lista pronta com os produtos orgânicos da estação. Portanto, não adianta querer comer manga se não é época da fruta. "Vendemos o que a terra dá", me explicou o fornecedor. Isso faz com que você experimente novas receitas. Eu, por exemplo, comi almeirão pela primeira vez na vida. Avisos aos marinheiros de primeira viagem: não se decepcione com o tamanho das frutas e verduras (demorei a reconhecer uma couve manteiga, de tão pequena). A falsa perfeição visual dos agrotóxicos passa longe dos orgânicos. E prepare o bolso. Alguns são até três vezes mais caros que os produtos convencionais.
O bom é que são mais saborosos e saudáveis. E isso não tem preço.
Paulinho Lencina, jornalista, ouvindo Fela Kuti e lendo os folhetos sobre alimentos orgânicos. eufiz@abril.com.br
Para encontrar pontos de venda (lojas, serviços de entrega em domicílio, supermercados e feiras) em vários estados, visite o portal Planeta Orgânico (www.planetaorganico.com.br)
Feiras:
São paulo
• Água Branca - terça e sábado das 7h às 12h - Av. Francisco Matarazzo, 455 do Ibirapuera - domingo das 7h às 12h - Rua Tutóia, perto da Igreja do Santíssimo Sacramento
• Varejão do Ceagesp - sábado pela manhã - Av. Dr. Gastão Vidigal, 1946 rio de janeiro da Glória - sábado pela manhã - Praça do Russel
• Coonatura - terça-feira - Rua Professor Millward, 65 porto alegre
• Bom Fim - sábado das 7h30 às 13h - Av. José Bonifácio, 675
• Menino Deus - sábado das 7h30 às 13h, quarta das 15h às 20h - Av. Getúlio Vargas, 1384 brasília
• Orgânica - sábado pela manhã - SQS 703/4
• Associação de Agricultura Ecológica - quarta e sábado pela manhã - SQS 112 (quarta), SQN 315/16 e SQS 709 (sábado)
Na livraria:
• Alimentos Orgânicos - Ampliando os Conceitos de Saúde Humana, Ambiental e Social, Elaine de Azevedo, Editora Insular, Florianópolis, 2003
• Alimentos Orgânicos - Um Guia para o Consumidor Inteligente, Moacir Roberto Darolt, Iapar, Curitiba, 2002
• The Organic Foods Sourcebook, Elaine Marie Lipson, McGraw-Hill, 2001
Na internet:
www.planetaorganico.com.br - notícias e informações sobre alimentos orgânicos e produtores de todo o Brasil
www.agrorganica.com.br - portal de um grupo de voluntários que trabalham com agricultura ecológica e orgânica
www.ibd.com.br - site do Instituto Biodinâmico, que certifica produtores de alimentos orgânicos
www.aao.org.br - home page da Associação de Agricultura Orgânica, que funciona em São Paulo desde 1989
www.abio.org.br - site da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro
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