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Caminhos

Pedalando na cidade

As delícias e as dores de andar de magrela em uma das maiores cidades do mundo

Paulinho Lencina

Desço até a garagem do prédio, mas passo direto pelo meu carro. O destino é outro. Vou ao bicicletário do condomínio e pego minha magrela (vejo as outras penduradas, cheias de poeira e pneus murchos sem o viço da minha que vai agora perambular por aí). O desafio é ir ao trabalho nela durante uma semana zanzando pelas ruas movimentadas de São Paulo. Abro o portão automático do prédio e saio garboso com a Dolores, minha bike. De dentro do carro importado, meu vizinho engravatado espicha o pescoço para assistir à cena. O porteiro também estranha um pouco (deve ter pensado que a crise afetou meu bolso o que não está de todo errado).

A primeira pedra no caminho não é a distância até o trabalho (cerca de 5 quilômetros), porém o lugar onde moro: entre duas ladeiras assustadoras. Sigo por uma ruazinha alternativa. Depois aprenderia que esse é o segredo de pedalar numa grande cidade: as vias secundárias. O trânsito (e o perigo) é bem menor.

O primeiro dia como ciclista foi bastante complicado, especialmente no quesito preparo físico. Na verdade, mais empurrei que pedalei a magrelinha. As pernas sentiram os efeitos do sedentarismo e as cãibras foram inevitáveis à noite (descobri de forma um tanto quanto àrdua o valor de cada uma das ladeiras dessa cidade). Nos dois primeiros dias tive vontade de desistir, confesso. Afinal, o carro estava ali, convidativo, era só ligar e vrrruuummm: cheguei. Mas resisti, sobrevivi dentro de mim.

Passada a fase das dores agudas nas pernas, costas e principalmente no derrière, comecei a curtir cada pedalada. Descobri um montão de coisas generosas que não entram pela janela do carro: prédio antigo, árvore carregada de frutas, casal de velhinhos, tudo em São Paulo! Outro dia cruzei com o Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, trazendo de bike o filho da escolinha. Parecia cena de cidade do interior.

Outra surpresa foi a festa que as crianças no transporte escolar fizeram quando passei. Uma menininha acenou usando a mãozinha da boneca que carregava. Retribuí, cauteloso, para não perder o equilíbrio e cair em algum automóvel. O cotidiano parece mais cordial na companhia da Dolores.

Os dias diante do guidom me mostraram que os ciclistas, mesmo quando não se conhecem, se cumprimentam parecem uma confraria para enfrentar os perigos do mundo. Logo entendi o porquê. Na minha experiência, os motoristas de ônibus não são os inimigos públicos número 1 dos ciclistas, como sempre achei. As caminhonetas de entregas aparecem em primeiríssimo lugar, sempre com pressa de chegar rapidamente ao destino, seguidas pelos motoboys; só depois vêm os ônibus.

Mas minha revanche não tardaria. Saí do trabalho bem na hora do rush. Passei incólume pelo engarrafamento. Avistei todas aquelas pessoas emburradas, enfurnadas no carro com os vidros fechados, e com minha secreta alegria segui pedalando e cantando: baby é magrelinha/no coração do Brasil.

Paulinho Lencina, jornalista e aventureiro, está aprendendo a pedalar e a perdoar os motoristas que insistem em jogá-lo sobre a calçada. eufiz@abril.com.br
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