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Direto ao ponto

A atenção das pessoas dura pouco: se não formos logo ao que interessa, perdemos nosso tempo e o dos outros

por Eugênio Mussak | fotos André Spinola e Castro e Flávia Sakai

"Olá, meu nome é Eugênio. Eu escrevo para a coluna Atitude desta revista.

O tema deste mês refere-se a um comportamento muito desejado hoje em dia: a capacidade de ir direto ao ponto. Você vai ficar sabendo quais as vantagens de usar uma comunicação objetiva e como fazer isso de maneira correta e elegante."

O parágrafo acima tem 54 palavras e foi escrito em um pouco mais de quatro linhas. Entretanto, ele contém uma mensagem composta por seis elementos: quem, o quê, onde, quando, por quê e como.

O "quem" é o Eugênio; o "o quê" é o tema abordado; o "onde" é a coluna Atitude; o "quando" é este mês; o "por quê" é o comportamento desejado atualmente; e o "como" é a técnica que permite que você faça isso de maneira correta e elegante. O texto dá todas as informações e cria o gancho para a continuação da leitura, pois o "como" ainda está por vir.

Preste atenção: isso vale para qualquer esforço de comunicação que tem por finalidade atender às questões colocadas acima.

Não é incomum que, diante de uma pessoa que se dirige a nós ou quando estamos lendo um texto, de repente percebamos grande desconforto. E demoramos a perceber que ele deriva da falta de respostas às perguntas intrínsecas ao diálogo ou narrativa. Há pessoas que simplesmente não conseguem mostrar aonde estão indo com seu discurso. Acredite, elas não são capazes de prender a atenção de seus interlocutores.

Comunicação é lógica e emoção
Foi o surgimento da linguagem, lá no alvorecer de nossa espécie, que permitiu duas fabulosas ocorrências: a organização da sociedade humana e o desenvolvimento da capacidade de pensar. Sim, a linguagem antecedeu o pensamento. A fragilidade física do homem só foi compensada por sua capacidade de agrupar-se, e esta foi aprimorada pela comunicação oral, que vem evoluindo desde então. O esforço para comunicar palavras desenvolveu o cérebro de tal forma que começamos a pensar.

Perceba como essa relação existe em nossas vidas diárias. Quando você explica alguma coisa para alguém, você mesmo acaba entendendo melhor.

Os professores, por exemplo, são unânimes em afirmar que mais aprenderam quando começaram a ensinar. Outro exemplo vem dos terapeutas de consultório, que estimulam o paciente a falar, mas cuja intenção final é o estímulo ao pensar.

Há, portanto, essa relação definitiva entre a comunicação e o pensamento. Pensamos para falar e, ao falar, desejamos interferir no pensamento de nosso interlocutor. Ou de nosso leitor, se a palavra for escrita, como neste caso. Daí a importância da lógica, que é representada pelas respostas às seis questões já citadas.

Quando o interlocutor começa a não receber as respostas, mesmo que ele não as tenha formulado, a comunicação ameaça perder-se. A lógica, na comunicação, é atingir o objetivo; é ir ao ponto principal, aquele que motivou o início da conversa.

Então comunicação é apenas lógica? Não, não é. É também emoção. E é do encontro de ambas, lógica e emoção, que nasce a mensagem, pois uma fertiliza a outra, gerando a curiosidade, gestando a idéia e trazendo à luz o entendimento.

Os amigos do Roberto
A comunicação tem um alvo, e ir direto a ele é o modo mais efetivo de se processar uma mensagem. Estamos diante de uma arte, pois ir direto ao alvo constitui a assertividade desejada, mas cuidado! O alvo precisa estar pronto para receber a mensagem. Simplificando, há três tipos de pessoa:

a) A que usa palavras inicialmente para criar o ambiente favorável e depois expõe o objetivo claramente.

b) A que vai ao ponto central tão rapidamente que acaba recebendo resistência, de tão agressiva.

c) A que não consegue transmitir a mensagem por absoluta incapacidade de objetivar.

Imagine-se atendendo ao telefone e, do outro lado, alguém diz:

- Boa tarde. Por favor, posso falar com o Roberto? Aqui é o André, colega dele no colégio.

Uma informação correta, suficiente, completa e educada. Foi direto ao ponto. Infelizmente nem sempre é assim que acontece.

- O Roberto está?

Mais objetivo impossível, mas nos sentimos incomodados com a falta de etiqueta. Ir direto ao ponto não pode arrepiar os bons modos, a elegância de nosso idioma, a educação que garante a vida em sociedade. Outro exemplo:

- Alô, preciso falar com o Roberto. Estava procurando o Carlos, mas ele me disse que o Roberto passou lá no clube e falou com a Paulinha sobre o trabalho do colégio.

Faltou a assertividade que sobrou no anterior, mas nem por isso atendeu ao quesito educação. Faltou lucidez, sobrou retórica sem sentido. Os últimos dois tipos correm o risco de não atingir o objetivo, que é falar com o Roberto sem aborrecer ninguém.

Trinta segundos - e só
O americano Milo Frank é um grande especialista em técnicas de comunicação. Ele escreveu um livro curtinho chamado Como Apresentar as suas Idéias em 30 Segundos - ou Menos, que faz um enorme sucesso, no qual defende a idéia de que uma mensagem que não possa ser transmitida em 30 segundos provavelmente não poderá ser transmitida em tempo nenhum.

Segundo Milo Frank, esse é o tempo de atenção garantida do ser humano. Porque depois começamos a desviar o pensamento para assuntos que proporcionam prazer, como sexo ou dinheiro. Assim, os vários tempos de 30 segundos de uma conversa devem ser alimentados com lógica e emoção, para garantir a atenção dos 30 segundos seguintes. Funcionamos como um telefone público que precisa receber créditos a cada 30 segundos, ou a comunicação se perde. Caiu a ficha?

Esse é o motivo pelo qual as propagandas de televisão têm exatamente 30 segundos, e com eles consegue passar a mensagem. Muitas vezes, quando a propaganda volta, nós prestamos atenção de novo, como se fosse uma continuação, e não apenas sua repetição.

- Vamos deixar os entretantos e partir logo para os finalmentes!

Essa frase é de um certo Odorico Paraguaçu, prefeito populista e corrupto de Sucupira, cidade fictícia criada pelo imortal Dias Gomes. Odorico levava todo mundo na lábia, enrolava com sua habilidade para usar e criar palavras. Só pedia os "finalmentes" quando lhe interessava chegar a uma conclusão e terminar a conversa.

Apesar de Odorico não ser bom de respeito e ética, ele nos ensina a usar bem o tempo e chegar a resultados satisfatórios. Mesmo que eu não deseje terminar a conversa, quero chegar a conclusões, até para que a conversa tome um rumo mais interessante. E muitas vezes precisamos de conclusões intermediárias para a construção de uma grande conclusão final.

Shakespeare na mosca
Queremos entender o rumo da mensagem, caso contrário abrimos mão dela e nos conectamos a outra - afinal, mensagem é o que não falta hoje em dia. Participamos de uma competição pela atenção de nosso interlocutor. Você consegue manter uma conversa coerente em um bar, com tantas tentações ao redor? Pessoas circulando, música, barulho. Só se aprender a ir direto ao ponto, utilizar mensagens curtas, respeitar os 30 segundos. Dessa forma irá dando "mordidas" na atenção de seus amigos.

Essa história do bar vale para o trabalho, para a rua, a casa e qualquer outro lugar. Comunicação eficiente esbanja assertividade. E não pense que ser assertivo, lidar com o objetivo da mensagem, significa colocar em risco a elegância do falar.

O grande William Shakespeare, ao contrário do que pensam alguns, era objetivo. Seus livros, escritos em forma de peças teatrais, são curtos. A maioria foi publicada no formato de bolso e pertence ao que existe de melhor e de mais belo na transmissão de idéias.

Shakespeare contou histórias fantásticas. Nelas revela todas as faces do ser humano, o mais complexo dos seres, e o faz de maneira objetiva, sem desconsiderar a poesia e a beleza.

O prólogo de sua peça mais famosa, Romeu e Julieta, é um exemplo da arte de ir direto ao ponto, respeitando a beleza da linguagem. Logo no início, ficamos sabendo o que acontece, onde, como, quando, com quem, por que e, por fim, fica a promessa dos detalhes, que tanto nos encantam há séculos. Lembre-se de que são os mesmos elementos com os quais este artigo começou e que integram o poder da comunicação, indo direto ao ponto, que é o que interessa a todos. Diz Shakespeare:

"Duas casas, duas famílias com a mesma dignidade na aprazível Verona, onde se desenrola esta história, que parte de antigas rixas e chega a um novo motim, quando sangue civil mancha mãos civis.

Pois, da prole dessas duas casas, inimigas fatais, um casal de amantes traídos pelo destino toma sua própria vida. Seus desventurados gestos, dignos de nossa pena, resultam em que, com sua morte, enterra-se também a luta de seus pais.

A terrível história de seu amor, marcado pela morte, e a permanência do ódio de seus pais, que tão somente teve um basta com o trágico fim de seus filhos, constituem o que se passa a narrar agora neste palco, por duas horas. Esta peça, se ouvida com paciência, tentará, como nosso esforço, prover-lhe todos os detalhes."

E, como disse Julieta para sua ama, que saíra em busca de Romeu:

- Diz-me logo, minha ama, não me faças esperar. Diz-me logo onde está o meu amor!

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