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A invasão é pacífica

Cooperativas, empresas sem patrão, clubes de troca e outras variações da economia solidária avançam sobre as velhas estruturas do capital

por Raquel Ribeiro | Montagem sobre fotos de Marcelo Zocchio

"O senhor sabe onde fica a Incubadora?", perguntei para um vigia do campus da USP. "Fica logo ali", disse, apontando uma casa velha. E completou com um sorriso: "Eu achava que era coisa de criação de galinha, mas não é não". Ótimo, não sou a única a estranhar esse nome. Entrei e uma turma, a maioria com seus vinte e poucos anos, ocupava três das várias salas improvisadas. Fernando Kleiman, assessor do gabinete da Secretaria Nacional de Economia Solidária, me recebeu e apresentou os "incubadores", falando como a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade de São Paulo (ITCP-USP) funciona.

Começou contando a história de um grupo de ex-funcionárias do Monte Sinai, refeitório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A empresa faliu e elas estavam dispostas a recuperá-la com um sistema de autogestão. Como o grêmio da FAU tem contato com a ITCP, os estudantes fizeram a ponte entre elas e os "incubadores". Montaram uma cooperativa e passaram a cuidar do negócio - mas sem patrão! Como é que, com as economias de parcos salários, essas mulheres poderiam dar conta do recado? A incubadora ajudou na negociação e as mulheres ganharam um crédito (na rede de economia solidária já existente, existem as cooperativas de crédito, que financiam iniciativas populares).

Parece sedutor trabalhar num lugar onde ninguém manda em ninguém, o clima de competição é substituído pelo de cooperação, a diferença salarial não passa da proporção 1/12, há rodízio de funções e os lucros (ou prejuízos) são irmanamente divididos. Claro, a idéia é simples no papel, mas sofisticada na prática: somar organização popular ao bom funcionamento de uma empresa, segundo Fernando Kleiman, dá rabalho. "O desemprego, muitas vezes, facilita que pessoas se reúnam em busca de soluções", diz ele. "Mas, dos quase 80 grupos que a incubadora da USP acompanhou ao longo de cinco anos, pouco mais de 20 apresentaram perspectivas de se consolidar. Desses, nem todos chegaram ao ponto de levantar a bandeira de que uma nova economia é possível."

O termo "nova economia" nada tem a ver com o boom da internet: a turma das incubadoras que estamos falando (presentes em várias universidades brasileiras), e também a das cooperativas, das empresas de auto-gestão, dos clubes de troca e todos aqueles insatisfeitos com a forma de economia que conhecemos, querem mostrar que é possível mudar a relação com o trabalho e com o dinheiro. De fato, estamos acostumados com as coisas funcionando assim: quem tem dinheiro consome, quem precisa de dinheiro tem de pedir crédito no banco (e pagar juros altos) e quem não tem dinheiro nem consegue crédito fica de fora. Mas há uma alternativa, e tudo indica que seja a tal economia solidária.

"Originalmente, economia significa cuidar da casa", afirma Ademar Bertucci, coordenador nacional de Economia Popular Solidária da Cáritas Brasileira (rede de atuação social da Igreja Católica). "Podemos chamá-la ainda de economia amorosa, porque recupera valores humanos esquecidos pelo capitalismo, baseado no 'vence o que consegue pisar mais nos outros'. Ela recupera a originalidade do 'cuidar da casa, cuidar do meio ambiente, do planeta'. Enquanto o capitalismo transforma tudo em mercadoria e fala da produção para acumulação, a gente fala da economia para reprodução da vida."

ONG generosa
Tem muita gente envolvida em estudos, pesquisas, projetos experimentais e novas formas de ver a produção, o consumo e suas consequências ambientais e sociais. E história boa tem de montão. Há a dos catadores de ostras, em Cananéia (SP), de catadores de lixo em Porto Alegre, de seringueiros no Acre - gente que, como as mulheres do restaurante Monte Sinai, teve coragem de unir as forças e trabalhar sem patrão.

Há uma ONG que dá um enorme apoio às iniciativas que respeitam a cultura local e melhoram a vida das comunidades. Trata-se da Ashoka (www.ashoka.org). Todo ano, a instituição seleciona, no Brasil, cerca de 15 empreendedores sociais - gente que se dedica de corpo e alma aos projetos e que quase sempre acaba inovando em algum aspecto. Esses empreendedores recebem treinamento e apoio financeiro da Ashoka.

Um modelo espanhol
Em menos de dez anos, o movimento da economia solidária já se espalhou por todo o país. Houve um fórum sobre o assunto e, recentemente, foi criada uma secretaria no governo federal, liderada pelo economista Paul Singer, um dos maiores propagadores desse ideal.

Fernando Kleiman, discípulo de Singer, acredita que as coisas estejam indo bem. E, quando contou da Corporación Cooperativa Mondragon, seus olhos brilharam. Não é para menos: esse grupo empresarial espanhol é o benchmark da economia solidária. Agrega mais de 150 empresas das áreas financeira, industrial, de distribuição, pesquisa e formação e reúne mais de 60 mil trabalhadores. É a mais importante corporação do País Basco, funciona de forma democrática, tem responsabilidade social e ecológica, participa entusiasticamente do dia-a-dia das comunidades onde está inserida. E ainda compete com força nos mercados internacionais!

Alguém come moeda?
Outra faceta da economia alternativa são os clubes de troca, que crescem em quantidade e qualidade em vários estados. Carlos Henrique de Castro, representante do Clube de Trocas em São Paulo, afirma que as pessoas ainda estão aprendendo a valorizar a troca. Ele diz que nesses clubes a via de acesso não é pelo dinheiro, mas pela produção. "Motivamos a criatividade das pessoas: todo mundo sabe fazer alguma coisa." Carlos quer convocar a sociedade a discutir o modelo econômico dependente do dinheiro: "Você não come a moeda! Se tirar o intermediário, que é a moeda, sobra a troca", diz ele.

Para Fernando Kleiman, o alto nível de desemprego, a desigualdade e a exclusão sociais, a violência, tudo isso prova que o capitalismo não resolve suas mazelas. "A economia solidária é uma proposta de alternativa ao capitalismo", diz. "Mas não é uma proposta acabada. É dinâmica, está em constante construção."

Com um quê nostálgico, já que resgata práticas antigas de comércio e dispensa muitas das mais queridas estratégias do marketing moderno, essa economia esperta parece até misturar ideais socialistas com práticas capitalistas. Ou seja, tem tudo para dar errado, mas está dando certo.

Todos juntos
Os caçadores de mamutes intuitivamente já trabalhavam em cooperativa: alguns cercavam o bicho, outros o derrubavam e, ao fim e ao cabo, a carne era dividida por todos. Mas foi apenas no século 18 que o tema foi de fato bem teorizado para fazer frente ao capitalismo. Idealizada por utopistas como o filósofo francês Charles Fourier (1772-1837), as cooperativas tiveram seu tempo de glória no século 19 e sucumbiram, a partir de 1950, diante de triste contradição: a maioria dos cooperados, atraídos pela novidade dos supermercados, deixou de comprar o que era produzido pelas cooperativas.

Quem já participou de uma organização desse tipo sabe que elas têm suas armadilhas. Por exemplo, cada cabeça é um voto, tudo é democraticamente discutido, e chega uma hora em que nosso comodismo pede que alguém resolva por nós.

Às vezes, acontece também de o espírito de competição suplantar o de cooperação, o que evidentemente pode fazer as coisas desandarem.

Outro ponto fraco é que, mesmo atuando em condições similares, algumas cooperativas prosperam e outras não, e isso, a médio e longo prazo, implica relação desigual.

Como entrar na turma
Neste resumo, algumas das formas de negócio da economia bossa nova

Cooperativa de compra
Quando um grupo de pais se junta para comprar o material escolar dos filhos, por exemplo, está fazendo economia solidária, porque os pais unem forças, decidem juntos e passam a responder como grupo. Num desses acasos da vida, encontrei Priscila Sérvulo, uma amiga envolvida com uma cooperativa de saúde. O grupo nasceu em 1993, com a união de 28 amigos insatisfeitos com seus planos tradicionais. Desde então, pagam preços menores que os praticados no mercado, com as vantagens que uma cooperativa oferece. "Se eu tiver problemas para liberação de senha ou internação, é a cooperativa que fará minha defesa junto à operadora - e com a força de 5600 cooperados!", diz Priscila.

Clube de Troca
A febre começou na Argentina, onde há em torno de 15 mil clubes de trocas. No Brasil, já existem 25 clubes em nove estados, nos quais circulam "moedas sociais" como pinhão, clarim, futuro e lua - um dinheiro que, assim como o que conhecemos, também é um pedaço de papel que tem por lastro a confiança. As pessoas trocam de tudo - e isso eu conferi na prática. Enchi uma caixa com discos, CDs e livros e segui para o Clube de Trocas de Moema. A moeda ali é a "lua" e, em pouco tempo, eu estava com um monte delas. A venda foi fácil, mas na hora de comprar me dei conta de que nem todos capricharam nos produtos levados para a feira. Escolhi um casaquinho de bebê feito por uma senhora, alguns brinquinhos e. fui pra casa com 60 luas! Voltarei para ver se dou mais sorte.

Troca de informação
A idéia da troca me pareceu muito boa e resolvi investir numa outra modalidade: a troca de informações. Uma amiga estava saindo de uma casa e teria de pagar uma pequena fortuna por romper o contrato, mas se ela indicasse alguém para alugar o imóvel, o proprietário aceitava negociar. Era a oportunidade que eu precisava. Escrevi um textinho e passei para a lista de amigos por e-mail. Um passou para o outro que passou para o outro.

Deu certo! Minha amiga teve a dívida perdoada. Contei essa história para alguns amigos e ouvi outras do gênero. Funciona.

Troca criativa
Profissionais liberais estão acostumados a um tipo de troca quase tão antigo quanto a caça ao mamute: a troca de serviços. Médico de cidade pequena volta e meia recebe ovos, galinhas ou verduras como pagamento pelas consultas. E, nas cidades grandes, tem psicanalista que troca sessão por obra de arte. Algo que cada um pode estimular em seu dia-a-dia.


Troca de serviços

Há dois anos, perguntei a um professor se ele topava trocar aulas de inglês por aulas de francês. Um ano depois, ele já falava francês que era uma beleza (descobri que era melhor aluno do que professor).

Consciente de que ainda não domino a língua do tio Sam, novamente coloco na roda meu know-how. Alguém se candidata?

Para saber mais
A Economia Solidária no Brasil, Paul Singer, Editora Contexto

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