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Sócrates preconizava o humor e era bem-humorado, ao contrário de Platão, que considerava o riso um sinal de fraqueza de caráter. Platão abriu uma escola. Sócrates ensinava na praça. Foi acusado de subversão dos costumes, preso e levado ao suicídio compulsório. Disse o juiz:
- Você está condenado à morte.
Com a calma dos sábios, Sócrates respondeu:
- Grande coisa. O senhor também.
Esses dois gênios mostram que não existem pessoas bem ou mal-humoradas: há as que se permitem ser e as que não. E isso depende mais da educação que recebemos, da atitude pessoal, que da genética ou da situação em que nos encontramos.
E, se temos o direito de escolher entre a graça e o tédio, há boas razões para preferir a primeira: a ciência e a sabedoria dos antigos, mas principalmente nossa própria experiência, ensinam que precisamos do humor para o equilíbrio físico, mental e espiritual. Mesmo se estivermos condenados à morte.
Como a saúde do corpo interfere na condição psicológica da pessoa, bem como recebe influência desta, foi natural que se estabelecesse rapidamente uma relação entre os humores e o comportamento. Uma pessoa alegre, de bem com a vida, estava de bem com seus humores. Era, portanto, uma pessoa bem-humorada. Pronto, de Hipócrates a Patch Adams em dois parágrafos.
Este último é o médico que criou a ONG Doutores da Alegria, composta por pessoas que usam o humor para acelerar a recuperação de pacientes em hospitais, especialmente crianças, com resultados comprovados. Patch Adams conta que adotou um temperamento alegre depois de ter sido internado como depressivo. Chegou à conclusão que tristeza ou alegria podem ser resultados de decisão pessoal, e que o poder de influencia dessas duas condições sobre o destino de cada um é enorme.
Até notórios mal-humorados, como Freud, estiveram preocupados com o tema. Em 1905, ele publicou um livro chamado Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, com estudos sobre o humor, a comédia e o gracejo, utilizando os princípios gerais da psicanálise.
Freud acreditava que nossos sonhos seriam a manifestação de idéias latentes, que se apresentam com imagens um tanto diferentes da realidade - e às vezes criam até uma caricatura dela. No Livro dos Chistes, o grande psicanalista afirma que o humor usa as mesmas ferramentas que utilizamos para construir o sonho. E que tanto o sonho quanto o humor são necessários para aliviar tensões internas e descarregar energias destrutivas.
De acordo com Freud, por meio do sonho elaboramos nossas frustrações e nos equilibramos, e através do humor também. A diferença consiste no fato de que, enquanto o humor é uma forma de comunicação interpessoal, o sonho é a mais natural das formas de comunicação intrapessoal. O sonho é solitário. E o humor "é a mais social das funções psicológicas destinadas à obtenção do prazer".
Em seu livro Em Busca do Sentido - um Psicólogo no Campo de Concentração, Frankl deixa claro que conseguiu suportar os maus-tratos e sair melhor porque se valeu de duas ferramentas psicológicas altamente poderosas: a criação de objetivos na vida e a prática do humor, não importando a carga de sofrimento. Só assim, diz ele, sua vida e a de seus companheiros de infortúnio ficou suportável.
Foi uma experiência que virou missão: ajudar pessoas - não através da análise de seu passado, como quer Freud, mas a partir da percepção do que é engraçado no presente, essencial para construção do futuro. Diz Frankl: "Eu nunca teria conseguido suportar se não conseguisse rir. O riso me levava momentaneamente para fora daquela situação horrível, o suficiente para torná-la suportável".
Quem se deixa influenciar pelo clima psicológico do ambiente assume uma postura "determinista", e quem, ao contrário, procura exercer influência sobre o clima ambiental se comporta da maneira "possibilista" - pois acredita na possibilidade da melhoria e não se deixa ser levado pelos outros.
Portanto, antes de simplesmente "entrar no clima", analise se esse clima lhe interessa, e só então se sujeite a ele. Caso contrário, crie seu próprio estado de espírito, pois você pode ser uma pessoa "transbordante", especialmente quando está bem-humorado.
Nenhum grande escritor desprezou o humor. Shakespeare o demonstrava não só nas comédias, mas também nas tragédias. Hamlet vive a ambigüidade entre a profunda dúvida e o bom humor. O bobo da corte, quando estudado com mais cuidado, mostra não um tolo, mas um sátiro inteligente, sagaz, influente e até temido. O humor constrói ou destrói, mas dificilmente passa incólume.
Quando Cervantes descreve dom Quixote, está manifestando humor, pois no personagem o que se destaca é o ridículo, mas ao mesmo tempo ele está revestido de imensa simpatia. Dom Quixote podia ser ridículo, mas muitos nos identificamos com ele, já que gostaríamos de ter a coragem de guerrear dragões, mesmo que todos pensem que eles são moinhos de vento.
Por que não o fazemos? Porque somos. adultos, dominados por nosso superego, que compele a controlar pulsões, especialmente a pulsão da vida - o Eros -, pois esta é "inconveniente ao convívio social".
Portanto, no melhor dos mundos, poderíamos apenas ser mais engraçados, como éramos quando crianças, desse modo absolutamente natural, desprovidos de controles sociais, auto-censura e adágios vencidos.
O humor é sempre uma caricatura de nós mesmos, como humanos que somos. O humor é universal, e não pessoal, como o são a ironia, a sátira ou seu parente mais objetivo, o sarcasmo. Esses têm alvos fixos e muitas vezes são bem destrutivos.
Costumo dizer que o pensamento diferencia os seres humanos dos animais, enquanto a qualidade do pensamento diferencia as pessoas entre si. Temos também que somos o único animal que ri (a hiena só engana) e, da mesma forma, a qualidade do humor nos diferencia uns dos outros. Uns têm mais, outros menos, alguns têm demais (e ganham fortunas com isso), outros não têm nenhum (e quem os agüenta?). E há os que têm mas não sabem usar, ou o expressam de maneira torta, ou na hora errada.
Ser bem-humorado não significa adquirir talento para contar piadas - embora você possa fazer isso (há muita gente "séria" se descobrindo em cursos para palhaços, por exemplo).
Também não quer dizer que você tenha de fazer troça de tudo e de todos, ou jamais conter um trocadilho, por pior que seja - ainda que você tenha o direito de experimentar como e quando um comentário engraçado ou nonsense pode cair bem.
O estado do qual estamos falando é muito mais o do olhar bem-humorado, o da sensação plena de "bem-humorança". Tem mais a ver com sentir-se de bem consigo mesmo, com os outros, com a vida. É a medida ideal.
Bem, de tudo que já li, de tudo que observo, e também agora, enquanto buscava insumos para este texto, não encontrei nada de valor que pudesse arranhar a nobreza desta idéia: sorria.
Você pode até "reprogramar" seu cérebro, ou abraçar uma seita - há mil maneiras de encontrar a felicidade. Mas esta, sem dúvida, é a receita de maior bom senso no mercado: sorria, e veja o mundo sorrindo ao seu redor.
Porque está provado que bom humor atrai bom humor. "O sorriso e o motivo para sorrir estão sempre juntos, não importa qual dos dois chegou primeiro" (esta eu copiei não sei de onde).
Conta-se que, certo dia, o mulá voltava para casa encantado com a doçura da manhã. Havia sol, a temperatura era boa, tudo conspirava a favor. Então ele resolveu tomar um atalho. "Para que continuar nesta estrada poeirenta se posso ir pelo mato, admirando as flores e os pássaros? Afinal, hoje é um dia muito especial e venturoso!"
O mulá já atravessava a floresta, deslumbrando-se com o cenário e a música da natureza, quando então caiu num buraco, de onde não tinha como sair. Pôs-se a refletir.
"Talvez este não fosse um dia assim tão afortunado." Então, ponderou: "Mas, ora, se aqui, neste lugar tão maravilhoso, acontecem coisas assim, imagine o que me estava reservado naquela estrada poeirenta!"
Eis uma lição que serve, não importa como a interpretemos: mudar o ponto de vista, enxergar sob outra perspectiva, trocar de chapéu.
Praticar essa atitude, nas situações mais desafiadoras, parece ser a chave para compreender que nada é bom ou ruim em si mesmo, que não temos como saber ou julgar.
A propósito, perguntaram certa vez ao Nasrudin:
- Mulá, o que é o destino?
- Suposições.
- Como assim?
- Você supõe que as coisas irão bem e elas não vão - a isso chama azar. Supõe que as coisas irão mal e elas não vão - a isso chama sorte. Supõe que certas coisas irão ou não acontecer - e, na mais absoluta falta de intuição, não sabe o que irá acontecer. Você então supõe que o futuro é desconhecido. Finalmente, você é surpreendido - a isso chama destino.
Ou seja, se não há muito a fazer em relação ao destino, e se estamos mesmo condenados à morte - esta, sim, nossa única certeza, como bem disse o velho Sócrates -, ao menos vamos nos divertir um pouco.
• Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, Sigmund Freud, Editora Imago
• Histórias de Nasrudin, Editora Dervish
Sócrates preconizava o humor e era bem-humorado, ao contrário de Platão, que considerava o riso um sinal de fraqueza de caráter. Platão abriu uma escola. Sócrates ensinava na praça. Foi acusado de subversão dos costumes, preso e levado ao suicídio compulsório. Disse o juiz:
- Você está condenado à morte.
Com a calma dos sábios, Sócrates respondeu:
- Grande coisa. O senhor também.
Esses dois gênios mostram que não existem pessoas bem ou mal-humoradas: há as que se permitem ser e as que não. E isso depende mais da educação que recebemos, da atitude pessoal, que da genética ou da situação em que nos encontramos.
E, se temos o direito de escolher entre a graça e o tédio, há boas razões para preferir a primeira: a ciência e a sabedoria dos antigos, mas principalmente nossa própria experiência, ensinam que precisamos do humor para o equilíbrio físico, mental e espiritual. Mesmo se estivermos condenados à morte.
Como a saúde do corpo interfere na condição psicológica da pessoa, bem como recebe influência desta, foi natural que se estabelecesse rapidamente uma relação entre os humores e o comportamento. Uma pessoa alegre, de bem com a vida, estava de bem com seus humores. Era, portanto, uma pessoa bem-humorada. Pronto, de Hipócrates a Patch Adams em dois parágrafos.
Este último é o médico que criou a ONG Doutores da Alegria, composta por pessoas que usam o humor para acelerar a recuperação de pacientes em hospitais, especialmente crianças, com resultados comprovados. Patch Adams conta que adotou um temperamento alegre depois de ter sido internado como depressivo. Chegou à conclusão que tristeza ou alegria podem ser resultados de decisão pessoal, e que o poder de influencia dessas duas condições sobre o destino de cada um é enorme.
Até notórios mal-humorados, como Freud, estiveram preocupados com o tema. Em 1905, ele publicou um livro chamado Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, com estudos sobre o humor, a comédia e o gracejo, utilizando os princípios gerais da psicanálise.
Freud acreditava que nossos sonhos seriam a manifestação de idéias latentes, que se apresentam com imagens um tanto diferentes da realidade - e às vezes criam até uma caricatura dela. No Livro dos Chistes, o grande psicanalista afirma que o humor usa as mesmas ferramentas que utilizamos para construir o sonho. E que tanto o sonho quanto o humor são necessários para aliviar tensões internas e descarregar energias destrutivas.
De acordo com Freud, por meio do sonho elaboramos nossas frustrações e nos equilibramos, e através do humor também. A diferença consiste no fato de que, enquanto o humor é uma forma de comunicação interpessoal, o sonho é a mais natural das formas de comunicação intrapessoal. O sonho é solitário. E o humor "é a mais social das funções psicológicas destinadas à obtenção do prazer".
Em seu livro Em Busca do Sentido - um Psicólogo no Campo de Concentração, Frankl deixa claro que conseguiu suportar os maus-tratos e sair melhor porque se valeu de duas ferramentas psicológicas altamente poderosas: a criação de objetivos na vida e a prática do humor, não importando a carga de sofrimento. Só assim, diz ele, sua vida e a de seus companheiros de infortúnio ficou suportável.
Foi uma experiência que virou missão: ajudar pessoas - não através da análise de seu passado, como quer Freud, mas a partir da percepção do que é engraçado no presente, essencial para construção do futuro. Diz Frankl: "Eu nunca teria conseguido suportar se não conseguisse rir. O riso me levava momentaneamente para fora daquela situação horrível, o suficiente para torná-la suportável".
Quem se deixa influenciar pelo clima psicológico do ambiente assume uma postura "determinista", e quem, ao contrário, procura exercer influência sobre o clima ambiental se comporta da maneira "possibilista" - pois acredita na possibilidade da melhoria e não se deixa ser levado pelos outros.
Portanto, antes de simplesmente "entrar no clima", analise se esse clima lhe interessa, e só então se sujeite a ele. Caso contrário, crie seu próprio estado de espírito, pois você pode ser uma pessoa "transbordante", especialmente quando está bem-humorado.
Nenhum grande escritor desprezou o humor. Shakespeare o demonstrava não só nas comédias, mas também nas tragédias. Hamlet vive a ambigüidade entre a profunda dúvida e o bom humor. O bobo da corte, quando estudado com mais cuidado, mostra não um tolo, mas um sátiro inteligente, sagaz, influente e até temido. O humor constrói ou destrói, mas dificilmente passa incólume.
Quando Cervantes descreve dom Quixote, está manifestando humor, pois no personagem o que se destaca é o ridículo, mas ao mesmo tempo ele está revestido de imensa simpatia. Dom Quixote podia ser ridículo, mas muitos nos identificamos com ele, já que gostaríamos de ter a coragem de guerrear dragões, mesmo que todos pensem que eles são moinhos de vento.
Por que não o fazemos? Porque somos. adultos, dominados por nosso superego, que compele a controlar pulsões, especialmente a pulsão da vida - o Eros -, pois esta é "inconveniente ao convívio social".
Portanto, no melhor dos mundos, poderíamos apenas ser mais engraçados, como éramos quando crianças, desse modo absolutamente natural, desprovidos de controles sociais, auto-censura e adágios vencidos.
O humor é sempre uma caricatura de nós mesmos, como humanos que somos. O humor é universal, e não pessoal, como o são a ironia, a sátira ou seu parente mais objetivo, o sarcasmo. Esses têm alvos fixos e muitas vezes são bem destrutivos.
Costumo dizer que o pensamento diferencia os seres humanos dos animais, enquanto a qualidade do pensamento diferencia as pessoas entre si. Temos também que somos o único animal que ri (a hiena só engana) e, da mesma forma, a qualidade do humor nos diferencia uns dos outros. Uns têm mais, outros menos, alguns têm demais (e ganham fortunas com isso), outros não têm nenhum (e quem os agüenta?). E há os que têm mas não sabem usar, ou o expressam de maneira torta, ou na hora errada.
Ser bem-humorado não significa adquirir talento para contar piadas - embora você possa fazer isso (há muita gente "séria" se descobrindo em cursos para palhaços, por exemplo).
Também não quer dizer que você tenha de fazer troça de tudo e de todos, ou jamais conter um trocadilho, por pior que seja - ainda que você tenha o direito de experimentar como e quando um comentário engraçado ou nonsense pode cair bem.
O estado do qual estamos falando é muito mais o do olhar bem-humorado, o da sensação plena de "bem-humorança". Tem mais a ver com sentir-se de bem consigo mesmo, com os outros, com a vida. É a medida ideal.
Bem, de tudo que já li, de tudo que observo, e também agora, enquanto buscava insumos para este texto, não encontrei nada de valor que pudesse arranhar a nobreza desta idéia: sorria.
Você pode até "reprogramar" seu cérebro, ou abraçar uma seita - há mil maneiras de encontrar a felicidade. Mas esta, sem dúvida, é a receita de maior bom senso no mercado: sorria, e veja o mundo sorrindo ao seu redor.
Porque está provado que bom humor atrai bom humor. "O sorriso e o motivo para sorrir estão sempre juntos, não importa qual dos dois chegou primeiro" (esta eu copiei não sei de onde).
Conta-se que, certo dia, o mulá voltava para casa encantado com a doçura da manhã. Havia sol, a temperatura era boa, tudo conspirava a favor. Então ele resolveu tomar um atalho. "Para que continuar nesta estrada poeirenta se posso ir pelo mato, admirando as flores e os pássaros? Afinal, hoje é um dia muito especial e venturoso!"
O mulá já atravessava a floresta, deslumbrando-se com o cenário e a música da natureza, quando então caiu num buraco, de onde não tinha como sair. Pôs-se a refletir.
"Talvez este não fosse um dia assim tão afortunado." Então, ponderou: "Mas, ora, se aqui, neste lugar tão maravilhoso, acontecem coisas assim, imagine o que me estava reservado naquela estrada poeirenta!"
Eis uma lição que serve, não importa como a interpretemos: mudar o ponto de vista, enxergar sob outra perspectiva, trocar de chapéu.
Praticar essa atitude, nas situações mais desafiadoras, parece ser a chave para compreender que nada é bom ou ruim em si mesmo, que não temos como saber ou julgar.
A propósito, perguntaram certa vez ao Nasrudin:
- Mulá, o que é o destino?
- Suposições.
- Como assim?
- Você supõe que as coisas irão bem e elas não vão - a isso chama azar. Supõe que as coisas irão mal e elas não vão - a isso chama sorte. Supõe que certas coisas irão ou não acontecer - e, na mais absoluta falta de intuição, não sabe o que irá acontecer. Você então supõe que o futuro é desconhecido. Finalmente, você é surpreendido - a isso chama destino.
Ou seja, se não há muito a fazer em relação ao destino, e se estamos mesmo condenados à morte - esta, sim, nossa única certeza, como bem disse o velho Sócrates -, ao menos vamos nos divertir um pouco.
• Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, Sigmund Freud, Editora Imago
• Histórias de Nasrudin<.b>, Editora Dervish
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