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A arte de varrer o chão

É possível alcançar a simplicidade no trabalho vivendo num mundo complicado e competitivo? Ouvimos especialistas de várias áreas e descobrimos que até o estresse pode ser usado a nosso favor

por Adriano Quadrado | foto Kiko Ferrite

Em seu famoso livro Autobiografia de um Iogue, o mestre Yogananda descreve a primeira vez em que seu guru lhe concedeu a experiência do Samádhi, a consciência cósmica almejada pelos santos da Índia. Depois de surfar nos mares do deleite transcendental, Yogananda, emocionado, resolveu se ajoelhar aos pés de seu guru para agradecer a experiência, mas o mestre pediu que ele se levantasse imediatamente e varresse o chão. Escreve Yogananda: "Fui buscar a vassoura. O mestre, eu sabia, estava me ensinando o segredo da vida equilibrada. A alma deve alargar-se sobre os abismos cosmogônicos, enquanto o corpo executa seus deveres diários."

A mesma natureza de pensamentos pode ser encontrada aqui no Brasil, no Mosteiro Zen do Morro da Vargem, no Espírito Santo. Ali, o monge Daiju Bitti e seus discípulos usam o trabalho como parte da disciplina espiritual. "Trabalhar é colocar a meditação em ação. A iluminação que todo mundo busca só vai se revelar no cotidiano e o trabalho faz parte disso", afirma o mestre. "Manter o mosteiro limpo faz parte de nossa disciplina. O trabalho é um dos pilares da vida espiritual."

Essas são apenas duas de muitas histórias e mitos que descrevem a satisfação plena no trabalho, e todas elas parecem apontar para este mesmo caminho: enquanto nos dedicamos às nossas tarefas, podemos empreender, silenciosamente, uma transformação interior.

"O trabalho é nossa vida. Está equivocada a pessoa que só enxerga prazer depois que acaba o expediente", diz o consultor Ken O'Donnell, coordenador para a América do Sul da Brahma Kumaris, universidade espiritual de origem indiana que hoje tem mais de 4 mil centros no mundo.

Então, olhando bem, é tudo muito simples. Mas há uma diferença entre o tipo de dedicação de um iogue ou de um monge e o da maioria dos mortais. Sem dúvida, mais e mais buscamos nos espelhar nesses modelos, não vamos tão mal, mas quantos de nós conseguem realmente meditar enquanto trabalha? Como "alargar a alma sobre os abismos cosmogônicos" quando quem nos dá ordens não está exatamente interessado em nos ensinar o segredo da vida equilibrada? Ou se entendemos que nossos deveres são um tanto mais complexos que varrer o chão?

Porque o mundo hoje vive um momento inédito em relação ao trabalho. Não contávamos com tantas brechas de mobilidade social, não éramos tão senhores do nosso destino. Para o bem ou para o mal, tínhamos quem nos dissesse o que fazer e, em geral, podíamos fazê-lo mecanicamente - quem sabe até tirando proveito disso, criando alguma liberdade para a alma. Agora, mais que em qualquer outra época, temos liberdade de escolha, podendo definir os rumos de nossa vida profissional. Isso é lindo, mas cria problemas novos, para os quais talvez não estivéssemos bem preparados.

Peter Drucker, considerado o maior pensador sobre administração e gestão de tempo, alguém que raramente se engana a respeito de qualquer coisa, afirma que, no futuro, os historiadores descreverão nossa época como aquela em que, pela primeira vez, um grande número de pessoas pôde fazer escolhas. Assim, de um lado nos entusiasmamos com a possibilidade de escrever nossa própria lenda, mas de outro, empurrados pela avalanche de informações e demandas, nos angustiamos por não saber o que fazer ou que rumo seguir. Ou se estamos fazendo o que deve ser feito com as ferramentas certas, e no tempo certo. Mais ainda, se nossos esforços pela sobrevivência colaboram ou prejudicam o planeta e seus habitantes.

Como sair dessa? O que fazer com a liberdade de escolha? Onde está o tão desejado equilíbrio? Como se livrar do estresse - ou, ao menos, como conviver inteligentemente com ele? Fomos atrás de respostas para essas perguntas, na esperança de encontrar algumas pistas para o santo graal da simplicidade no trabalho. Das centenas de boas idéias, selecionamos as mais proveitosas.

1. Trabalho como missão
Quase todas as pessoas com quem conversei durante esta reportagem disseram que a regra número 1 para ser feliz no trabalho é fazer aquilo de que gosta e acredita ser importante. No livro A Negação da Morte, o antropólogo Ernest Becker escreve que todo ser humano precisa de um "projeto heróico", ou seja, um trabalho que lhe permita encontrar um sentido de missão naquilo que faz.

Os exemplos são importantes e histórias de sucesso são sem dúvida inspiradoras. A experiência pessoal, contudo, é intransferível. Como explica o consultor Pedro Mandelli, muita gente acha que não se realizou profissionalmente porque toma como exemplo casos excepcionais. "A ansiedade pelo sucesso é um complicador. As pessoas olham para os modelos de grande sucesso e não percebem patamares mais modestos que também podem ser altamente satisfatórios." De repente você já é feliz no trabalho e não sabe.

2. A parada estratégica
Um plano infalível para sabermos se estamos ou não escrevendo nossa própria história é a parada voluntária (se bem que a involuntária, nem sempre confortável, também pode ser útil). Reavaliar a rota longe da rotina é algo que está acontecendo com freqüência. "Ao contrário do que acontecia antes, as pessoas não se orgulham mais em dizer que trabalham 14 horas por dia", afirma a consultora Ana Maria Cadavez. "Muitos executivos hoje me dizem isso até com vergonha, prometendo arrumar tempo para a família e o lazer. As pessoas estão olhando para os lados e vendo colegas que tiveram crises de estresse ou infartos fulminantes."

O consultor em desenvolvimento humano Herbert Steinberg ficava angustiado em ver quanta gente atingia as metas profissionais mais elevadas, mas não tinha projeto próprio de vida. Um dia, o suicídio de uma querida amiga o fez considerar que ele próprio estava no barco dos sem-projeto.

Então ele largou tudo, deu um beijo na família e foi fazer o Caminho de Santiago (ele contou a história bem contada na edição 2 de vida simples). Durante esse sabático (é esse o nome oficial dessa parada estratégica), enquanto caminhava aqueles míticos 800 quilômetros, o consultor diz que pôde reavaliar toda sua vida, e que isso hoje lhe dá a firmeza necessária para não dar bola para o que é desimportante, nem atender a ritos sociais sem significado. "Coloco minha energia naquilo que vale a pena e, no trabalho, penso sempre em ajudar as pessoas a resolverem seus problemas. Meu objetivo profissional maior não é mais aumentar meu patrimônio."

3. O foco e o tempo
Em nível terreno, em ilusória distância dos apelos da alma, há um universo de medidas que podem tornar nossas manhãs de segunda-feira muito mais agradáveis e descomplicadas. Para Christian Barbosa, especialista em administração do tempo, foco é a palavra-chave para tornar nosso trabalho mais simples enquanto nos preparamos melhor para, digamos, entrar no céu. Ele sugere que a gente defina alguns poucos objetivos e os escreva solenemente num pedaço de papel. Depois é necessário voltar sempre ao que escrevemos e relembrar as metas principais da vida, sejam pessoais ou profissionais.

"Manter o foco em alguns poucos projetos é melhor que vagar sem rumo pelas infindáveis tarefas diárias", diz ele. "Se você pretende trabalhar oito horas por dia, planeje as tarefas como se fosse trabalhar seis, pois sempre surgirão contratempos." Outra sugestão, óbvia mas necessária, é concentrar-se primeiro nas tarefas de alta prioridade. "Nessas horas desligo e-mail, telefone, tudo, e peço para ninguém me interromper." Ele também desenvolveu uma ciência para os e-mails. "Respondo na hora aquilo que pode ser feito em poucos minutos. Os que demoram mais, agendo um tempo para respondê-los."

4. O verdadeiro sucesso
As livrarias estão inundadas por manuais que indicam o caminho para o sucesso. São tantos livros, e neles alguns princípios também tanto se repetem, que não raro banalizamos algumas idéias. Por exemplo, em Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, o norte-americano Stephen Covey fala da importância de sermos proativos, ou seja, a atitude de fazermos nossa parte com iniciativa e inteligência, independentemente da ajuda direta dos outros. É o que se espera do profissional moderno que "quer chegar lá".

A segunda metade desse best seller, porém, é dedicada aos hábitos que transcendem os interesses particulares, e nesse ponto a ciência administrativa de hoje se confunde com as filosofias espirituais. Covey prega que não existe sucesso verdadeiro e duradouro se não rompermos a barreira do egoísmo.

A base da realização profissional não dependeria tanto de técnicas e, sim, do cultivo de alguns valores fundamentais: honestidade, integridade, altruísmo e interdependência construtiva entre os seres humanos.

"Temos uma grande oportunidade de transformar o trabalho num campo de serviço à humanidade", diz Ken O'Donnell, da Brahma Kumaris. "Nossas relações de trabalho precisam ser virtuosas, pois estamos aqui para dar e receber felicidade. Essa atitude gera bom karma e o Universo nunca nos negará o que é razoável. Se você trabalha com honestidade, paga suas contas e ainda ajuda os outros, que mais pode querer? Esse é o verdadeiro sucesso."

5. A alma no negócio
Cada vez mais, os especialistas em relações humanas usam um dialeto antes comum apenas entre os espiritualistas. Ganham força movimentos como o Spirit in Business, grupo internacional de empresas que assumem valores da espiritualidade no trabalho. No Brasil, o Instituto Elos (sigla para Espiritualidade e Liderança para Organizações Saudáveis), assim como o Ethos e outros de menor fama, também representam uma parcela crescente de empresários e executivos que não se preocupam apenas com lucros, mas com lucros alinhados com o bem-estar dos funcionários, da comunidade e de todo mundo - inclusive o bem-estar do próprio planeta. Felicidade para todos, ou nada feito para ninguém.

Eduardo Afonso, diretor de planejamento da Brother Cast Planejamento e Consultoria de Comunicação Corporativa, diz que a iniciativa veio de profissionais em posições de comando, que buscavam um novo significado para seu trabalho - o que é bem diferente do que se conhece como assistencialismo. O sonho de uma civilização mais equilibrada, tudo indica, também passa pelo propósito de cada um em seu trabalho, sozinho e em grupo. (Ora, se não é a idéia de que varrer o chão pode ser muito mais que varrer o chão...)

6. O estresse a seu favor
Mesmo afinados com a idéia do trabalho como missão, mesmo fazendo o que gostamos de fazer, e ainda que nos tornemos grandes mestres no controle de nosso tempo, não é certo que adquiramos a capacidade de aceitação de tarefas desagradáveis, ou superpoderes para gerenciar a agenda ou algum tipo de invulnerabilidade ao estresse.

A saída, de acordo com a monja Susan Andrews, coordenadora do Parque Ecológico Visão Futuro, no interior de São Paulo, é que o equilíbrio bioquímico das emoções pode ser buscado na meditação e no yoga. "Quem tem uma disciplina interior se equilibra e não depende do meio externo para ficar bem." Segundo Susan (personagem da seção "Conversa", na edição 6 de vida simples), o estresse pode ser visto de maneira positiva, como desafio estimulante. "O yoga e a meditação ajudam a direcionar os pensamentos para o que é positivo em cada experiência, porque a meditação, comprovadamente, ativa o lado pré-frontal esquerdo do cérebro, associado às emoções positivas", afirma a monja. "O mundo é difícil, existem milhares de coisas de que não gostamos nele, mas se meditarmos poderemos obter a gratificação interna e manter o equilíbrio bioquímico num patamar ideal. Assim, preservaremos um ambiente interior harmonioso. Podemos trabalhar numa rotina estressante, mas mantendo o equilíbrio, como se uma mão invisível nos guiasse através do milagre da vida."

Aposta nos funcionários
Claus Ebert, presidente da Semikron, fabricante de semicondutores, reduziu níveis hierárquicos, cortou a burocracia e assim aumentou a produtividade.

"No começo dos anos 1990, precisávamos cortar custos e então ampliamos as responsabilidades dos nossos empregados. Foi um sucesso. Hoje todos somos responsáveis pelo resultado. Os operários estão em contato direto com o pessoal de vendas e também vão à logística solicitar material quando é preciso. Antes, tínhamos uma estrutura tradicional e 16 pessoas faziam o planejamento. Agora as próprias pessoas envolvidas com a produção fazem o planejamento, com melhores resultados. Eu mesmo não tenho mais secretária. Aprendi a passear pela fábrica e conversar diretamente com os funcionários. O resultado é que tivemos um aumento de produtividade da ordem de 30%."

Alegria de ajudar
A executiva Vânia Maria Ferro viu o faturamento da empresa de tecnologia que dirigia saltar de 5 para 250 milhões de dólares ao ano. Mas lhe faltava a alegria, algo que ela foi buscar na posição de diretora-executiva de uma ONG.

"Já me sentia realizada financeiramente e chegou o momento em que fiz as contas para ver de quanto precisava por mês para viver. Desde então, tudo o que ganho além disso, divido com quem precisa. Também saí da 3Com para me dedicar ao trabalho social.

Desde o final do ano passado, assumi a direção da Care no Brasil, uma instituição que luta contra a pobreza em várias partes do mundo. Hoje trabalho tanto ou mais do que antes, mas me sinto muito mais recompensada. Estou de certa forma recomeçando a carreira e aprendendo bastante, mas também tenho muito a oferecer com minha experiência."

O poder da criatividade
Washington Olivetto, diretor de criação da W/Brasil, diz como usa a criatividade no próprio trabalho, e não apenas na campanha dos outros.

"Optei por meu trabalho sabendo das exigências e tensões. Mas eu as neutralizo com senso de humor. Procuro misturar tudo o tempo todo: trabalho com lazer, lazer com trabalho, publicidade com música, pintura, literatura e futebol. Com o passar do tempo, criei coragem de me afastar de tempos em tempos, para descansar, coisa que antes não fazia.

Deixei de freqüentar atividades profissionais travestidas de sociais.

Na agência não temos salas, trabalhamos todos juntos. Somos festeiros e brincalhões. E partimos do princípio que um problema não é uma tragédia, mas algo que tem de ser resolvido. Quando sentimos o clima tenso, mandamos comprar 200 picolés de chocolate e servimos para toda a galera."

Vizinho do trabalho
O jornalista e analista de marketing Jorge Marcelo Córdova Jarufe mudou-se para perto do escritório e resolveu a vida dele.

"Todo dia, eu perdia mais de duas horas no trânsito para ir ao trabalho. Como sempre achei isso um absurdo, procurei uma nova casa e hoje moro a três quarteirões do escritório. Vou a pé e em 15 minutos já estou na mesa de trabalho.

Com o tempo que sobra, estou praticando yoga e penso em começar a correr. Afora isso, tenho tempo para almoçar em casa e ainda economizo mais de 100 reais por mês em gasolina."

Para simplificar
na prática

1. O importante é fazer o que se gosta. Pense nisso, sempre.

2. Arrume tempo para família, esporte e lazer. E tire as férias atrasadas.

3. Uma parada geral pode lhe trazer novas energias e compreensões.

4. Mesmo se você estiver contente com o que faz, veja se é nisso que quer continuar trabalhando daqui a dez, 20 ou 30 anos.

5. Felicidade não é a mesma coisa para todo mundo. Colocar exemplos extremos e alheios de sucesso como meta pode lhe angustiar.

6. Não perca tempo com badalações e rituais sociais de trabalho se isso não lhe acrescenta nada.

7. Foco nas tarefas do dia-a-dia. Escreva os objetivos na agenda. Faça primeiro as coisas urgentes e depois as importantes.

8. Mude-se para perto do trabalho e livre-se da complicação do trânsito: vá andando, feliz da vida.

9. Se não tomar muito tempo, responda seus e-mails na hora em que eles chegam e agende os mais complicados para mais tarde.

10. Planeje menos horas de trabalho do que você pretende trabalhar. E, quando for fazer algo importante, desligue tudo e se concentre.

11. Seus funcionários ou subalternos podem lhe surpreender. Acredite neles e aproveite oportunidades para corte nos níveis hierárquicos.

na filosofia

1. Se seu trabalho tiver um sabor de missão, tudo será mais fácil.

2. Tenha pensamento ecológico, preocupe-se com o todo e não só com seus interesses pessoais. O sucesso vem de ações altruístas.

3. Transforme seu trabalho num campo de serviço para a humanidade.

4. O trabalho faz parte da disciplina espiritual de iogues e monges. Encare-o dessa forma e até as tarefas mais chatas ganharão sentido.

5. Yoga, meditação, tai chi chuan... Use as sabedorias ancestrais para encontrar o equilíbrio interior.

Para saber mais

Os Sete Hábitos das Pessoas

Altamente Eficazes - Stephen Covey, Editora Best Seller, São Paulo, 2000

No Olho do Furacão - Brian Bacon e Ken O'Donnell, Casa da Qualidade Editora, Salvador, 1999

Autobiografia de um Iogue - Paramahansa Yogananda, Lótus do Saber, Rio, 2002

Na internet
www.elos-wba.com.br
www.spiritinbusiness.org
www.seculodiario.com/mosteiro
www.visaofuturo.org.br
www.brothercast.com.br www.sabatico.com.br
www.christianbarbosa.com.br
www.mandelli.com.br

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