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O restaurante Satori fica no bairro paulistano da Liberdade, onde até os mal-informados encontram fácil um bom lugar para saborear as delícias da culinária japonesa. Entre fachadas típicas e letreiros que não entendemos, tudo ali é encantamento. Meu palpite, porém, é de que o Satori jamais seduzirá um passante. Porque funciona na sobreloja de um prédio antigo, num canto pouco privilegiado da Praça Carlos Gomes. E não tem placa! (Mesmo com o endereço na mão, tive de perguntar ao jornaleiro.) Mas, à medida que se desenvolvia minha primeira e compulsória incursão no mundo da macrobiótica, esse e outros absurdos foram fazendo sentido.
Porque poucos minutos depois o sinal de que aquele não era um lugar para passantes ou mal-informados estava diante de mim, no prato. Com certa dificuldade, identifiquei sinais de cenoura, nabo, mas o restante era um enigma de verduras cozidas com bem menos sal do que eu gostaria. Bebidas? Nem água. Em seguida, o prato quente: arroz com arroz. Para conquistá-lo é preciso ir até o balcão da cozinha, com seu pratinho na mão. A cozinheira: "Como você quer? Normal?" Como assim, normal?
O dono do restaurante é Tomio Kikuchi, líder do Instituto Princípio Único e suas pequenas organizações-satélites, como o Centro Internacional de Educacão Vitalícia, uma comunidade-escola, uma editora e até uma academia de aikidô. Homem baixo, magro, 77 anos, simpático, de uma vivacidade instigante, ele fala com segurança e profundidade a respeito de cereais, verduras, carnes, frutas, e também casamentos, solidariedade, negócios, guerras, futebol e qualquer outro assunto, por mais cabeludo. Aliás, eis um ponto para começar a compreender a macrobiótica: não se trata apenas de uma dieta alimentar, mas de uma nova atitude para consigo mesmo, com os outros, as instituições, a sociedade e todo o planeta. Sob outra perspectiva e antecipando o que poderia ser uma conclusão desta reportagem: a macrobiótica pode mudar sua vida da água para o vinho. Continue na leitura e veja se faz sentido.
A macrobiótica começou a chamar a atenção nos anos 60, empurrada pela contracultura e sua onda orientalista. A origem, contudo, remonta ao início do século 20, quando o japonês George Oshawa (1893-1966) sistematizou grande quantidade de antigas sabedorias do Oriente, baseando-se especialmente no princípio do yin (energia negativa, fria) e yang (positiva, quente). Nos anos 50, dois de seus mais aplicados discípulos desembarcaram do lado de cá: Michio Kushi, nos Estados Unidos, e Tomio Kikuchi, no Brasil, hoje reconhecidos internacionalmente como os mais importantes difusores desse conhecimento.
Há muitos excelentes educadores e centros macrobióticos em todo o mundo, assim como muitas interpretações diferentes da doutrina original. Mas os preceitos básicos da macrô dizem que há quatro atividades vitais: alimentação, respiração, movimento e pensamento. Conhecendo-as bem, equilibrando-as através do controle responsável e previdente, nos conscientizaríamos de todos os problemas que enfrentamos durante a existência.
Mas enquanto nos alimentarmos sem critério, ou seja, deixando de observar a quantidade certa de yin e yang no que comemos e bebemos, desequilibraremos o organismo e provocaremos as doenças, tanto as do corpo quanto as emocionais e as do espírito. Assim, quantidades indesejáveis de uma ou outra energia são expelidas naturalmente, mas em excesso transformam-se em toxinas. E toxinas produzem doença, que em última análise é uma manifestação clara do organismo, sinalizando que as coisas não estão funcionando de forma ideal.
Quando a casa cai, conforme a interpretação dos macrobióticos, tudo que a medicina tradicional pode fazer, e vem fazendo, é liquidar a doença, ou mesmo extirpar o órgão doente, já que não leva em conta e sequer compreende a delicada relação entre o que comemos e o que somos. "A medicina tradicional é sintomática, não preventiva", afirma Kikuchi. "Nossa medicina é a de Hipócrates, o pai da medicina. Ele deixou uma mensagem muito importante: fazei do alimento o vosso remédio, porque toda doença começa na imunidade do organismo."
"Nossa atividade é solidariedade, solidariedade interna e externa", afirma o professor Kikuchi, atrás de uma sóbria mesa de madeira, enorme, mais provável num escritório dos anos 50. Aliás, tudo naquela sala, cuja porta dá para o corredor, junto à da cozinha e ao salão do restaurante, parece fora de época e simples. Diz ele que temos cinco bocas e com todas elas nos alimentamos: a boca, propriamente, então os olhos, os ouvidos, o nariz e. o umbigo (ora, a boca principal durante a gestação). Por meio do controle dessas cinco bocas, conforme a explicação, podemos direcionar nosso destino, ampliando a longevidade e mesmo nossa percepção da existência na Terra. "Precisamos de uma alimentação psicossomática", diz Kikuchi. "A gastronômica não vai funcionar."
Michio Kushi, o discípulo de George Oshawa que se radicou nos Estados Unidos, organizou as coisas de uma maneira, digamos, americana. Por exemplo, ele bolou uma pirâmide apresentando o que seria a dieta macrobiótica ideal. No topo da pirâmide estão os alimentos opcionais, não freqüentes ou indicados nas chamadas dietas de transição, como carne vermelha, frango, ovos e laticínios. No centro da pirâmide aparece a comida de consumo ocasional, como peixes de carne branca e frutos do mar, condimentos como sal marinho, molho de soja e missô, doces à base de grãos ou frutas, sementes, castanhas, nozes e frutas. Evidentemente, na base da pirâmide vêm os alimentos do dia-a-dia, como óleos vegetais, feijão e subprodutos, algas, verduras, picles (pequenas quantidades), grãos em geral - com destaque para arroz, cevada, trigo, aveia e milho -, massas e outros produtos à base de farinha de trigo.
No domingo que se seguiu, fui a um encontro na Comunidade Escola Musso, dirigida por Kikuchi, num sítio em Mairiporã, a 40 minutos do centro de São Paulo. De novo, a mesma impressão sobre o lugar, as coisas e as pessoas: simplicidade extrema, despojamento, quietude. A não ser pela fartura na comida, que até sobrou, não se diria, do sítio ou do pequeno restaurante na Liberdade, que são lugares de prosperidade - pelo menos não do jeito que a compreendemos habitualmente. Muito intrigante. Entre os presentes estava Carlos Rennó, jornalista, compositor, organizador do livro Todas as Letras - aquele com as músicas de Gilberto Gil. É parceiro do ministro em algumas músicas, e também de Arnaldo Antunes, Chico César, Lenine, Tom Zé, Rita Lee e Zé Miguel Wisnik, entre outros.
De acordo com Rennó, que também faz parte da equipe de apoio nas atividades do Instituto Princípio Único, a tal mudança ocorre de maneira profunda, efetiva, concreta, real, e não meramente imaginatória. "Você muda a partir do seu sangue. Quem transforma seu sangue transforma a qualidade de seu pensamento, de seu sentimento, da sua vontade. E aí muda sua vida." Esse aspecto ele conseguiu me explicar, eu acho, de modo muito original. "Na verdade, a vida muda dinamicamente, para melhor e para pior e para melhor e para pior e para melhor, sendo que cada pior e cada melhor não são como os anteriores, mas diferentes. Porque o processo não é linear, mas espiralado. Não existe nada absoluto. Assim, só nos são possíveis a liberdade e a felicidade relativas."
As impressões dele têm base na filosofia de Kikuchi, o discípulo de Oshawa, que por sua vez bebeu nas velhas sabedorias: toda face tem um dorso. A se tomar a máxima como verdadeira, o que não é difícil, não se pode conceber o bem sem o mal, o dia sem a noite, a vida sem a morte.
Na minha cabeça, veio a imagem-símbolo do yin/yang, não na versão que conhecemos, plana e de linhas muito certas e acabadas, mas sim um yin/yang tridimensional, com as duas forças empreendendo um embate, um contínuo grande confronto produzido por infinitos pequenos confrontos. Mas não convém arriscar essas trips diante da vastidão do conhecimento oriental. Segundo Kikuchi, existe ainda uma terceira força, o rang - algo que ele interpreta como um "desequilíbrio reequilibrador" -, mas isso pode ficar para uma outra vez.
Com a ajuda de Rennó, cheguei até um caso extremo: alguém que curou câncer por meio da prática macrobiótica. Chama-se Antonieta Luzia Vertullo, tem 55 anos, sem filhos, é assistente social aposentada. "Apareceu num exame, em 93, e um ano mais tarde, depois de várias sessões de químio e radioterapia, os médicos decidiram pela mastectomia." Segundo ela, não resolveu, e logo vieram outras e outras sessões de químio e rádio. "Estava debilitada, pesando 35 quilos, e sentia que, se continuasse naquilo, eu iria morrer." Longe da alopatia, conta que decidiu submeter-se a um tratamento com Tomio Kikushi. "Com ele entendi que ter o câncer é receber um presente. Na hora, essa idéia parecia loucura, mas de fato foi a macrobiótica que mudou minha vida." Luzia diz que os exames vêm atestando a regressão contínua da doença, e que além do bem-estar geral, nunca mais precisou de remédios, nem para dor de cabeça.
Ao final da reportagem, acumulando algumas horas de convívio e entrevistas com praticantes e ex-praticantes, várias leituras e uma palestra - "Casamento, A Falha Infalível", que Tomio Kikushi desenvolveu por cinco horas naquele domingo, sem uma gota de água sequer (em geral, a concepção macrô faz restrições ao excesso de líquidos) -, eis algumas observações que podem ser úteis para quem está buscando compreender a macrobiótica e, quem sabe, seguir seus ritos.
Primeiro, que a macrobiótica não é mesmo para todos. Qualquer pessoa pode experimentar esse caminho, mas deve levar em conta que a escolha provavelmente a afastará de velhos hábitos e aspirações e, em alguns casos, até de velhos amigos. Os praticantes mostram-se satisfeitos e há vários estudos sérios dando-lhes força para isso. Mas a medicina não dá seu referendo e também não faltam ex-praticantes desgostosos - um deles declarou que seus meses de macrô foram "tempo perdido". Outro alerta é quanto ao risco de a macrobiótica tornar-se um culto, em que o mais importante seja superar aos outros e a si mesmo na prática dos princípios - algo que acomete dez entre dez agremiações ou confrarias.
De resto, siga seu coração e boa sorte. Ou boa sorte no azar, ou azar na sorte - sinceramente, já não sei.
Ingredientes:
60 g de cebola
20 g de cenoura
50 g de shunguiku (vegetal folhoso da culinária japonesa) ou agrião
1 colher (chá) de gergelim branco tostado e moído
1 colher (chá) de óleo de gergelim
molho de soja (shoyu)
Preparo: Corte a cenoura em lâminas de 5 mm por 4 cm, a cebola em gomos de 3 mm e o shonguiku em 4 cm. Unte a panela um pouco grossa aquecida e refogue a cenoura, espalhando uniformemente e apertando um pouco em fogo bem fraco, tampada. Encoste a cenoura no canto, refogue a cebola na mesma panela. Coloque a cenoura sobre a cebola e cozinhe em fogo bem fraco, tampada, até ficar meio mole. Acomode o shunguiku embaixo da cebola. Quando o shunguiku ficar bem mole, misture cuidadosamente. Controle para não queimar. Prepare o molho de gergelim na hora de servir, macerando bem e diluindo com shoyu. Misture levemente.
* Reproduzido do livro Autocontroleterapia - Transformação Homeostásica pelo Tratamento Independente, de Tomio Kikuchi, Musso Publicações, 1995, 492 páginas
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