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Um dos mais belos conceitos da matemática chama-se "limites". Apesar da complexidade de sua definição formal, que não cabe neste texto, trata-se de uma idéia de bases simples, criada pelo gênio de Arquimedes (aquele do "Eureca!"), em Siracusa, há mais de 2 mil anos.
Faça o seguinte exercício: desenhe um quadrado em uma folha de papel. Ele tem quatro lados iguais, é claro. Se você aumentar o número de lados para oito, estará diante de um octógono. Dobrando o número - passando, portanto para 16 -, terá criado um hexadecágono. Essas figuras chamam-se genericamente polígonos. E é claro que, à medida que você for aumentando o número de lados, estes ficarão cada vez menores.
Continuando nesse processo, chegará um momento em que cada lado da figura se tornará tão pequeno que se confundirá com um ponto. Nesse momento, o polígono terá virado uma circunferência. O momento em que uma figura geométrica com "lados" transforma-se em outra com "pontos" (um polígono virando uma circunferência) é designado como o "limite".
A beleza desse conceito reside no fato de que, ainda que não possa ser identificado na prática, pode ser demonstrado matematicamente. Sabemos que existe um limite para dobrarmos os lados, depois do qual surgem os pontos. Que momento mágico é esse? Você pode imaginá-lo? Pode sim, e, creia, cada um de nós cria essa imagem à sua maneira.
A vida também é assim. Há pessoas que não se acomodam em sua condição presente e continuam multiplicando seus vários lados indefinidamente, na tentativa de criar esferas capazes de rolar cada vez mais rápido. Outros, entretanto, interrompem muito cedo essa multiplicação, pois ela exige certo esforço, e continuam sendo quadrados tentando mover-se. Com pouca esperança e pouco alcance, é claro.
Eis o dilema: como transformar o limite em alcance, sem ser irresponsá-vel ou incoerente? Conhecer os limites pessoais às vezes nos obriga a parar, mas parar não significa concordar com a interrupção, muito menos conformar-se com a derrota. Saber parar pode significar uma tomada de posição, cujo objetivo é a recuperação da força, ou o tempo necessário para que se construa a condição imprescindível ao passo seguinte. O cubo, antes de virar esfera, precisa conscientizar-se de que é um cubo, mas que não precisa sê-lo para sempre.
De acordo com Gurdjieff, o ser humano é dotado de dois acumula-dores de energia. São eles que nos fornecem a fantástica energia da vida. Um esforço como o descrito acima seria capaz de esgotar o primeiro acumulador, o que é muito grave, mas teria o mérito de disparar o segundo, necessário para garantir uma sobrevida, por assim dizer. Não aconselho ninguém a fazer tal expedição na neve, e sim a começar a prestar atenção nesses dois possíveis acumuladores.
Todos nós, mortais comuns, já passamos por situações em que tudo parecia perdido, não tínhamos mais forças para continuar, mas algo, de súbito, pareceu nos trazer a energia necessária para os passos finais, permitindo seguir até onde queríamos. Bem, acreditar que essas coisas acontecem assim pode ser o segredo para que elas realmente aconteçam.
Não há pensador, antigo ou moderno, que não tenha abordado o tema. Desde Sócrates, com seu "conhece-te a ti mesmo", que, ao estimular o autoconhecimento, esperava criar consciência dos limites pessoais, até Friedrich Nietzsche, que em 1892 lançou o clássico Assim Falava Zaratustra, abordando o intrigante tema da superação humana.
Há controvérsias, mas duas verdades são inquestionáveis. A primeira: o limite é individual. A outra: o limite não é fixo. O fato de sermos "indivíduos" nos torna singulares, únicos. O que somos, incluindo aí nossos limites, deriva da interação de nossa genética com o aprendizado acumulado ao longo de nossa vida. Não somos só biologia ou só sociologia. Somos ambos. O pensamento pertence à nossa condição humana, mas é aprimorado pelo convívio social, pela percepção do mundo com todas suas belezas e mazelas.
Empurrar os limites significa aumentar o raio de ação, ganhar mais espaço para viver e criar vida ao nosso redor. Não é possível "não ter limite", mas é possível trabalhar para que o limite obedeça à nossa vontade, ao nosso pensamento racional aliado às nossas melhores emoções, e não à tirania dos modelos absorvidos de fora para dentro de maneira cega e cordata. Aceitar que "não podemos" só porque alguém acha isso, baseado em sua opinião a nosso respeito ou na projeção que ele faz de sua própria pessoa, de seus próprios limites, nos condena a uma vida "autômata" e não "autônoma".
O limite não é fixo, e por isso mesmo a grande vantagem de se conhecer o próprio limite não é saber "até onde posso ir", mas descobrir o que fazer para "ampliar o limite", aumentando o potencial realizador. A verdade é que o limite é o mais móvel dos valores humanos. A única coisa que fazemos, quando trabalhamos em nosso desenvolvimento pessoal, por meio de estudo, leitura, trabalho, diálogos, ginástica, é aumentar nossos limites.
É nesse ponto que vamos encontrar a diferença entre as pessoas. E essa competência é desenvolvida especialmente através dos "diálogos internos", aqueles em que nós fazemos as perguntas que nós mesmos responderemos. É claro que para tanto usamos também, sabiamente, o farol que emite luz de fora, do mundo, das experiências da humanidade, e que serve para que possamos ver melhor nosso interior, nosso mundo íntimo.
Então, se você deseja transformar um quadrado em um círculo, será responsável por esse desejo e pelo esforço necessário para desenvolver a habilidade que lhe permitirá chegar lá, aumentando os lados, até que virem pontos. Infinitos, sem limites.
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