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Conhecendo seus limites

Você reconhece o momento de parar de fazer o que está fazendo? Quanto dá para exigir de si mesmo? Será que os limites estão fora ou dentro de cada um? Afinal, você sabe até onde estica sua mola?

por Eugênio Mussak | fotos André Spinola e Castro e Flávia Sakai

Um dos mais belos conceitos da matemática chama-se "limites". Apesar da complexidade de sua definição formal, que não cabe neste texto, trata-se de uma idéia de bases simples, criada pelo gênio de Arquimedes (aquele do "Eureca!"), em Siracusa, há mais de 2 mil anos.

Faça o seguinte exercício: desenhe um quadrado em uma folha de papel. Ele tem quatro lados iguais, é claro. Se você aumentar o número de lados para oito, estará diante de um octógono. Dobrando o número - passando, portanto para 16 -, terá criado um hexadecágono. Essas figuras chamam-se genericamente polígonos. E é claro que, à medida que você for aumentando o número de lados, estes ficarão cada vez menores.

Continuando nesse processo, chegará um momento em que cada lado da figura se tornará tão pequeno que se confundirá com um ponto. Nesse momento, o polígono terá virado uma circunferência. O momento em que uma figura geométrica com "lados" transforma-se em outra com "pontos" (um polígono virando uma circunferência) é designado como o "limite".

A beleza desse conceito reside no fato de que, ainda que não possa ser identificado na prática, pode ser demonstrado matematicamente. Sabemos que existe um limite para dobrarmos os lados, depois do qual surgem os pontos. Que momento mágico é esse? Você pode imaginá-lo? Pode sim, e, creia, cada um de nós cria essa imagem à sua maneira.

A vida também é assim. Há pessoas que não se acomodam em sua condição presente e continuam multiplicando seus vários lados indefinidamente, na tentativa de criar esferas capazes de rolar cada vez mais rápido. Outros, entretanto, interrompem muito cedo essa multiplicação, pois ela exige certo esforço, e continuam sendo quadrados tentando mover-se. Com pouca esperança e pouco alcance, é claro.

Eis o dilema: como transformar o limite em alcance, sem ser irresponsá-vel ou incoerente? Conhecer os limites pessoais às vezes nos obriga a parar, mas parar não significa concordar com a interrupção, muito menos conformar-se com a derrota. Saber parar pode significar uma tomada de posição, cujo objetivo é a recuperação da força, ou o tempo necessário para que se construa a condição imprescindível ao passo seguinte. O cubo, antes de virar esfera, precisa conscientizar-se de que é um cubo, mas que não precisa sê-lo para sempre.

Expedição na neve
É claro que a superação exige energia pessoal, e muita. O polêmico mas respeitadíssimo pensador George Ivanovich Gurdjieff [autor de Encontros com Homens Notáveis, obra resumida nesta edição de vida simples] descreve uma cena que representa um verdadeiro esforço na determinação do limite humano: imagine caminhar dois dias e duas noites sob neve forte, sem ter o que comer, e ao final chegar a uma cabana aquecida pelo fogo, banho quente, comida e bebida farta e, então. rodar nos calcanhares e voltar na escuridão, trilhando o mesmo caminho até o ponto de partida.

De acordo com Gurdjieff, o ser humano é dotado de dois acumula-dores de energia. São eles que nos fornecem a fantástica energia da vida. Um esforço como o descrito acima seria capaz de esgotar o primeiro acumulador, o que é muito grave, mas teria o mérito de disparar o segundo, necessário para garantir uma sobrevida, por assim dizer. Não aconselho ninguém a fazer tal expedição na neve, e sim a começar a prestar atenção nesses dois possíveis acumuladores.

Todos nós, mortais comuns, já passamos por situações em que tudo parecia perdido, não tínhamos mais forças para continuar, mas algo, de súbito, pareceu nos trazer a energia necessária para os passos finais, permitindo seguir até onde queríamos. Bem, acreditar que essas coisas acontecem assim pode ser o segredo para que elas realmente aconteçam.

Não há pensador, antigo ou moderno, que não tenha abordado o tema. Desde Sócrates, com seu "conhece-te a ti mesmo", que, ao estimular o autoconhecimento, esperava criar consciência dos limites pessoais, até Friedrich Nietzsche, que em 1892 lançou o clássico Assim Falava Zaratustra, abordando o intrigante tema da superação humana.

Idéias de super-homem
Nessa obra, Nietzsche reescreve as idéias de Zaratustra, ou Zoroastro, um profeta do século 6 a.C., que teria escrito o código moral, político e religioso dos antigos persas, e que se referia ao fato de que os homens, em algumas circunstâncias, deveriam se superar, ampliando seus limites, transformando-se em super-homens. Nietzsche concordava com Zaratustra, mas dizia que essa capacidade quase ilimitada de ampliar limites não era para qualquer um, e sim conquista de alguns poucos, "escolhidos" pelo destino. Dizia ele que a maioria das pessoas é comandada pelos sentimentos de medo, rancor, superstições, ciúmes, inveja, o que as aprisiona a uma mentalidade e a um comportamento de escravos. Poucos seriam os eleitos pela natureza ou pela vida para ser übermensch - a palavra alemã que significa algo como "um humano melhor", e que foi popularizada como "super-homem".
Por uma vida autônoma
Voltemos à vida prática, cheia de desafios, problemas, prazos, ansiedades, esperanças. Todos esses fenômenos, muito claros ou pouco perceptíveis, recheiam a vida de quem trabalha, paga contas, namora, estuda, cria filhos, monta empresas, ou seja, a vida de todos nós. O limite do prazo, o limite da competência, o limite do saldo bancário, o limite da paciência seriam, na verdade, projeções do limite interno de cada pessoa, o limite do humano?

Há controvérsias, mas duas verdades são inquestionáveis. A primeira: o limite é individual. A outra: o limite não é fixo. O fato de sermos "indivíduos" nos torna singulares, únicos. O que somos, incluindo aí nossos limites, deriva da interação de nossa genética com o aprendizado acumulado ao longo de nossa vida. Não somos só biologia ou só sociologia. Somos ambos. O pensamento pertence à nossa condição humana, mas é aprimorado pelo convívio social, pela percepção do mundo com todas suas belezas e mazelas.

Empurrar os limites significa aumentar o raio de ação, ganhar mais espaço para viver e criar vida ao nosso redor. Não é possível "não ter limite", mas é possível trabalhar para que o limite obedeça à nossa vontade, ao nosso pensamento racional aliado às nossas melhores emoções, e não à tirania dos modelos absorvidos de fora para dentro de maneira cega e cordata. Aceitar que "não podemos" só porque alguém acha isso, baseado em sua opinião a nosso respeito ou na projeção que ele faz de sua própria pessoa, de seus próprios limites, nos condena a uma vida "autômata" e não "autônoma".

O limite não é fixo, e por isso mesmo a grande vantagem de se conhecer o próprio limite não é saber "até onde posso ir", mas descobrir o que fazer para "ampliar o limite", aumentando o potencial realizador. A verdade é que o limite é o mais móvel dos valores humanos. A única coisa que fazemos, quando trabalhamos em nosso desenvolvimento pessoal, por meio de estudo, leitura, trabalho, diálogos, ginástica, é aumentar nossos limites.

A luz de fora
Não há limites para quem sonha? Há sim: sua competência em transformar os sonhos em realidade.

É nesse ponto que vamos encontrar a diferença entre as pessoas. E essa competência é desenvolvida especialmente através dos "diálogos internos", aqueles em que nós fazemos as perguntas que nós mesmos responderemos. É claro que para tanto usamos também, sabiamente, o farol que emite luz de fora, do mundo, das experiências da humanidade, e que serve para que possamos ver melhor nosso interior, nosso mundo íntimo.

Então, se você deseja transformar um quadrado em um círculo, será responsável por esse desejo e pelo esforço necessário para desenvolver a habilidade que lhe permitirá chegar lá, aumentando os lados, até que virem pontos. Infinitos, sem limites.

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