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A horta numa casca de noz

A tendência é mundial: cada vez mais gente planta alimentos em casa

por Otávio Rodrigues | fotos Roberta Dabdab / Ivan Shupikov

Universidades e estudiosos respeitáveis garantem que nossas casas ou condomínios, num futuro próximo, recuperarão aquele hábito ancestral da horta e do pomar no fundo do quintal. Isso deu na Time, mas nem precisava dizer, porque está na cara: cada vez mais gente, em todo o mundo, está preocupada com a qualidade dos alimentos. Daí que plantá-los nós mesmos parece idéia bem razoável, ainda mais se considerarmos os aspectos desestressantes da atividade - outra obviedade do tamanho de um bonde.

Claro, já há fornecedores de alimentos orgânicos nos grandes centros, inclusive com entrega domiciliar (lá em casa sempre chega uma simpática mensagem da Carol e da Marina, da Caminho da Roça, informando sobre os produtos da semana). É uma bênção para quem empalidece só de ouvir falar em pôr a mão na terra ou esterco de galinha (se formos buscar alguma mitologia, digamos que entre nós temos agricultores, caçadores, pescadores.). Para os resistentes, serviços como os de Carol e Marina serão a salvação da lavoura.

Mas outro aspecto que precisa ser levado em conta é que no tal do futuro próximo, parece que daqui a uns 15 ou 20 anos, a preocupação com gastos de energia crescerá muito. Então, plantar em casa, além de 100% confiável e bem mais prático, implicará economizarmos recursos naturais e gerar menos impactos, o ambiental e os de qualquer outra ordem. Pare um pouco e pense a respeito do tanto de combustíveis fósseis empregados na agricultura tradicional e mesmo na orgânica - os tratores, os caminhões etc.

Outro indicativo: o fenômeno das ecovilas. Essas comunidades, que crescem em quantidade e variedade conceitual em vários países do mundo, apontam para uma saída de bom senso que poderá garantir o emprego dos futurólogos e resolver nossas expectativas por alimentos mais saudáveis, mais confiáveis.

Ecovilas são, como parecem, comunidades sustentáveis, e muitas delas estão dentro ou bastante próximas de espaços urbanos. Cada qual se forma com um tipo diferente de "cola", ou seja, um motivo que aproxima um determinado número de famílias, um motivo pelo qual todos irão investir ou trabalhar cooperativamente ou solidariamente. Há quem se junte em torno de crenças ou práticas espirituais, alimentação saudável, destinação de lixo, energia limpa etc., ou combinações desses e outros objetivos. Não é de surpreender, mas é significativo: a agricultura orgânica, mãe da alimentação saudável, é a cola que mais aparece nos censos das ecovilas.

Plantando no cimento
Meu vizinho acabou com o quintal dele. O incômodo dos caminhões na porta, trazendo areia e outros materiais, ou a caçamba de entulho encostada na calçada, nada me doeu tanto quanto descobrir que a operação destinava-se a liquidar com a terra da área nos fundos. Onde antes havia um gramado, árvores, arbustos e flores, agora existe uma contínua e inclemente plataforma de cimento, adornada com um sei lá o quê de cerâmica.

Gosto não se discute - ao menos não aqui e agora -, mas drenagem do solo, sim: toda a água que cai na casa dele é devolvida ao sistema público de captação, vai parar nos rios, contribuir com as enchentes. Conto essa história porque muita gente se esquece de pensar nisso na hora H, então decide "valorizar o imóvel". Valorizar? Bem, como aparece em nossa Atitude deste mês (página 50), depende do ponto de vista.

Um dia, lá, meu vizinho provavelmente vai precisar das idéias de Regina e Eduardo Borges, casal de Jundiaí, cidade no entorno da metrópole de São Paulo. Eles moram no centrão e a única área com boa insolação - condição primordial para o desenvolvimento da maioria das plantas - é a laje, lá no alto. A solução foram as bombonas, aqueles barris de plástico azul, que se encontram por aí a 15 ou 20 reais cada um. A técnica consiste em fazer 24 orifícios nas paredes da bombona, depois plantar as mudas nesses buraquinhos.

Segundo Eduardo, naquela laje de apenas 16 metros quadrados, mais que suficiente para sete bombonas de 200 litros, obtém-se produção contínua de verduras e legumes para uma família de seis pessoas (o casal, três filhos e um neto), sem complicação, sem sujeira, nem grandes investimentos. "Na horta tradicional, são neces-sários 10 metros quadrados por pessoa", afirma Eduardo. "Com as bombonas, quase não temos problemas de ervas daninhas, que não encontram espaço para se desenvolver, e esquecemos o que é dor nas costas, mal comum a todos que vivem se abaixando para cuidar das plantas."

Se você estiver realmente pensando em experimentar as bombonas em sua casa (eu vou fazer isso), sugiro com franqueza comprar o manual Horta Vertical Orgânica, que Eduardo e Regina produziram, à venda no site (o serviço em vida simples voltou para o final dos textos). Porque, desde que começaram a desenvolver essa nova tecnologia de plantio em pequenos espaços, eles erraram na quantidade e na dimensão dos orifícios, testaram as espécies que se adaptam melhor à bombona. Enfim, eles já pagaram todos os micos por nós.

Outra boa idéia, como você viu na foto das páginas de abertura da reportagem, é fazer a horta na banheira. Por favor, amigo, leve em conta os gritos de sua mulher e desista de entrar com baldes de terra na suíte do casal! Prefira uma banheira velha, relativamente fácil de achar num ferro velho ou demolição, e instale-a no quintal de casa ou qualquer outra área de excelente insolação.

Oásis de mudas
Para começar uma produção caseira, com ou sem espaço, na manha ou no grito, você precisará de boas mudas. Seguindo uma indicação do bem informado paisagista Raul Cânovas, reencontrei as irmãs Sílvia e Sabrina Jeha, que hoje tocam um negócio muito urbano chamado Sabor de Fazenda. É um paraíso das mudas, sementes, ervas medicinais, cursos de cultivo, jardinagem, paisagismo e aromaterapia.

Elas pegaram um terreno da família na Vila Maria, zona norte de São Paulo, uma área grande utilizada antes como depósito de entulho, e fizeram do lugar uma chácara, como era comum vermos pela cidade até o início dos anos 70. Perguntei se o negócio ia bem. "A procura tem aumentado muito, estamos trabalhando no limite", disse Sabrina. "Nossa especialidade não é administração, não temos todos os números na ponta do lápis, mas já dá pra trocar de carro." Segundo ela, a empresa vende entre 7 mil e 8 mil mudas por mês.

No dia em que estivemos por lá, havia uma palestra acontecendo sob uma generosa mangueira, com uma dezena de bananeiras ao redor - não fosse o barulho da avenida, dificilmente eu diria que era São Paulo. Cerca de 25 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, prestavam aquela atenção às ensinanças do engenheiro agrônomo Marcos Furlan. O tema era "O Jardim Ecológico", e ele falava sobre plantas comestíveis, espécies medicinais, ensinava como preparar o composto orgânico, como aproveitar os restos das plantas nos próprios canteiros, devolvendo tudo para a terra (não dá mais para falar de jardinagem ou horticultura sem equilíbrio natural). "As pessoas chegam aqui e não acreditam: 'Isto ainda existe?', algumas perguntam."

Minha impressão foi de que, além de plantas e técnicas de cultivo, as pessoas ali também procuravam sentimentos (vi vários deles passando durante nossa visita).

Jabuticabeira no apê
O paisagista David Abrão é um dos que resolvem a vida de quem não gosta ou não se dá bem com o plantio: ele monta vasos ou cochos especiais, com uma útil variedade de ervas condimentares e medicinais cultivadas. "Várias pessoas que moram em apartamento têm me procurado para esse tipo de trabalho", diz ele.

Numa varanda pequena, conforme ele nos mostrou, é possível ter, além do cocho com salsinha, cebolinha, manjericão e outras delícias, um maravilhoso pé de jabuticaba. "É uma árvore ótima para apartamentos." Um vaso pronto, com uma jabuticabeira já dando fruto, custa entre 250 e 300 reais. E, antes que pareça extravagância, vale dizer que, ao menos nesse caso, a combinação de horta e pomar na varanda não tomou o lugar da mesa, duas cadeiras e uma namoradeira. (Insisto na questão do espaço, porque se trata de um dos argumentos mais usados por quem está adiando a decisão de plantar em casa.)

Quem dispõe de uma hortinha caseira acaba trazendo mais poesia ao cotidiano. Por mais que a poluição e o barulho insistam em nos lembrar que não estamos no Sítio do Picapau, algo de bom certamente é incorporado em nossa vida. O crítico gastronômico Josimar Melo, que evidentemente conhece e preza as ervas com seu paladar refinadíssimo, conta que até há pouco tempo cultuou uma produçãozinha na janela do apartamento. "Meu canteiro foi destruído por um pedreiro, que teve de estancar um vazamento de água no apartamento de baixo", diz ele. "Mas é bom ter as coisas à mão. Você inventa de fazer alguma coisa na cozinha, vai lá, pega a erva de que precisa. E, quando ela está fresca, seu aroma é muito, muito mais intenso."

Bem, estamos numa reportagem, não num livro, portanto não há espaço para falar de muitas outras coisas importantes. Por exemplo, que o cultivo caseiro, especialmente o que inclui espécies arbóreas, de boa sombra, colabora para o decréscimo da temperatura nos ambientes interno e externo, trazendo muito mais conforto para os moradores. Ou que as plantas, e bastante as árvores de frutos, atraem passarinhos, companhia desejável para gente de todas as idades. E, ainda, que uma hortinha ou um pomarzinho podem inibir alguns tipos de erosão em terrenos inclinados, além de ajudar na absorção de águas pluviais.

Mas, agora que a semente está plantada, com certa alegria voltaremos ao assunto numa das próximas edições.
Dando vida à sua muda
O passo-a-passo do plantio

1. Escolha um vaso com um furo no fundo, coloque um pedaço de caco de telha sobre o furo, em seguida pedras (brita ou pedrisco). Nos vasos de plástico, como este da foto, o recurso do caco de telha é dispensável.

2. Sobre as pedras, coloque uma fina camada de areia e depois um pouco de terra preparada (partes iguais de areia, terra comum e húmus de minhoca ou composto orgânico).

3. Ajeite a muda de maneira que ela esteja bem no centro e dois dedos abaixo da borda do vaso. Complete com a terra preparada.

4. No primeiro dia, regar até a água sair pelo orifício do fundo do vaso. Depois, regar sempre que a camada superficial estiver seca.

Dicas
Nos primeiros dois dias, o vaso deve ficar em local com claridade indireta. Depois desse período, coloque-o em lugar ensolarado. O ideal são cinco a seis horas diárias de sol.

Adubar a cada 40 dias com húmus de minhoca ou algum tipo de composto orgânico.
Técnicas e dicas fornecidas pela equipe da Sabor de Fazenda.

Para saber mais
Sabor de Fazenda
fone (11) 6631-4915
site: www.sabordefazenda.com.br

Caminho da Roça
fone (11) 3733-6727
caminhodaroca@uol.com.br

Horta Vertical
site: www.hortavertical.com.br

Beija-Flor Garden (David Abrão)
fones (11) 3662-3390 / 9958-4068

Guia A-Z de Plantas ("Beleza" e "Condimentos") - livros de Paula Negraes, com ilustrações de Monica Negraes, Editora Bei, 280 páginas, 58 reais cada volume

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