Ela não deixa barato
Esta ecologista indiana joga duro: mexeu com o planeta, mexeu com ela
por Fabiano Burkhardt | fotos Alan Mendonça
O sorriso fácil de Vandana Shiva pode enganar os incautos: impossível ver nessa indiana simpática e com jeito de mãezona qualquer vestígio da ecologista feroz que inspira terror aos executivos do agrobusiness. Apontada como uma das principais ativistas do movimento contra os abusos da biotecnologia, quando fala ela parece inspirada por alguma misteriosa divindade das florestas do Himalaia, onde nasceu e passou os primeiros anos de sua vida.
Vandana Shiva pertence à geração de intelectuais indianos da qual saiu o Nobel de economia Amartya Sen. Formada em física, ela ficou surpresa ao constatar que o desenvolvimento científico da Índia pouco ajudou a reduzir a pobreza do país. Decidida a mudar isso, fez doutorado em filosofia da ciência, voltou para sua cidade, Dehra Dun, e tornou-se militante do movimento das mulheres camponesas da região.
Seu ativismo não cabe nos limites convencionais do movimento ecológico. Sua crítica aos desvãos da sociedade capitalista se estende do cultivo de sementes geneticamente modificadas ao uso privado da água dos rios da Índia, da biopirataria aos modernos sistemas de propriedade intelectual. A síntese dessa luta aparece em seus livros, como Biopirataria - A Pilhagem da Natureza e do Conhecimento (Editora Vozes) e Monoculturas da Mente (Editora Gaia). E aparece também, chamativamente, nas mãos dela: cada um dos anéis que Vandana Shiva usa simboliza um compromisso com as causas importantes que abraçou. "Eu trago minha filosofia nos dedos", ela diz.
Quando foi que você se tornou uma ecologista militante?
Passei os primeiros 20 anos da minha vida nas florestas do Himalaia, onde meu pai trabalhava. Em 1973 ou 1974, conheci as camponesas de um grupo chamado Movimento de Chipko, que lutavam para evitar a destruição das florestas. Elas se abraçavam aos troncos das árvores para impedir o corte, e por isso eram conhecidas nas aldeias como "as abraçadoras de árvores".
Você participava desse movimento?
Acabei me tornando participante voluntária. Depois disso, lutamos para parar as atividades de mineração na região. Atualmente, estou trabalhando para impedir que grandes empresas, como a Monsanto, tenham o monopólio da produção de sementes, e para manter áreas livres de químicos, de corporações e de patentes.
Algo a ver com a biopirataria?
Sim, porque queremos evitar que as pessoas sejam impedidas de usar o conhecimento tradicional e de fazer agricultura do jeito que acharem melhor. O conhecimento é livre, não pode ser patenteado, assim como a água de uma corredeira não pode se tornar propriedade de uma companhia.
Como definir biopirataria?
Biopirataria é um maravilhoso fenômeno moderno por meio do qual as pessoas e as companhias mais ricas roubam as comunidades pobres, tirando delas uma herança cultural de milênios. Um exemplo foi a tentativa de registro de patente de uma árvore chamada neem, por uma indústria química norte-americana, em 1994. Na Índia, essa planta é conhecida como "farmácia da aldeia", porque é o melhor remédio para doenças de pele, tem propriedades antissépticas e é usada como contraceptivo. A empresa tentou registrar uma árvore usada há séculos na Índia como uma invenção sua!
Quando foi que tudo isso começou?
Quando as leis de propriedade intelectual do Ocidente começaram a ser globalizadas. Os Estados Unidos têm leis muito estranhas, segundo as quais tudo tem de ser propriedade de alguém. Quando isso foi globalizado, criou-se uma epidemia. As pessoas começaram a tentar se tornar donas do patrimônio tradicional de camponeses, mulheres, de tribos e aldeias inteiras. Se não pararmos com isso, comunidades tradicionais certamente perderão sua base cultural e econômica.
De que forma a biopirataria afeta os agricultores?
Os fazendeiros indianos estão cometendo suicídio. Ao substituírem as sementes tradicionais por sementes geneticamente modificadas, controladas por grandes companhias, estão assumindo um custo muito maior, porque as novas sementes são bem mais caras.
Mas o argumento usado a favor dos transgênicos é que sua produtividade seria maior. A troca não valeria a pena?
Depois de anos de pesquisas, as grandes empresas que controlam a maior parte da produção de sementes no mundo não têm nada de maravilhoso a oferecer. A produção de soja geneticamente modificada, por exemplo, exige a compra de agentes químicos para controlar pragas às quais a soja não é resistente - e que são vendidas pelas mesmas empresas que produzem as sementes. Os fazendeiros são obrigados a comprar agrotóxicos e, no final, o custo é maior. Não estão nos vendendo tecnologia, estão nos vendendo mentiras. E mentiras não podem ser melhoradas com tecnologia.
Como os agricultores poderiam resistir à pressão das empresas?
Guardando suas sementes tradicionais e criando movimentos de boicote. Na Índia, há experiências bem-sucedidas de distribuição de sementes locais para os produtores - como um movimento chamado Sementes de Liberdade - que já barraram a entrada de grãos fabricados por grandes corporações, como a Monsanto.
Áreas urbanas também são afetadas pela biopirataria?
É claro, estamos ingerindo cada vez mais alimentos contaminados por tóxicos e pagando cada vez mais por medicamentos que existem na natureza. Mas isso não é o pior. O mais grave é que as pessoas estão perdendo suas identidades culturais ao permitirem a apropriação privada do conhecimento deixado por seus antepassados. Um dos resultados da perda da identidade é o aumento da violência, seja pelo aparecimento de gangues de rua entre adolescentes, seja pela ação da gangue do senhor George Bush.
Como podem reagir a isso as pessoas que vivem nas cidades?
Bem, acho que o melhor caminho é a rotulagem de produtos, o que pode manter as pessoas informadas sobre o que realmente estão comprando. Acredito também no trabalho de produtores de alimentos orgânicos e no incentivo à produção local.
Existe algum risco de empobrecimento da alimentação nas cidades?
Sim, não apenas nas cidades. Quando concentramos toda a produção de alimentos nas mãos de meia dúzia de grandes empresas, estimulamos a monocultura e a centralização de poder. Em uma região vizinha à minha, na Índia, os fazendeiros foram estimulados a plantar batatas para o mercado global. Com isso, a Pepsi e o McDonald's puderam comprar batatas bem mais baratas, mas os fazendeiros deixaram de produzir outras coisas. Estamos perdendo não apenas nossa diversidade, mas também nossa saúde.
É possível falar do futuro da produção de alimentos?
O futuro da alimentação, na minha opinião, está na produção ligada à natureza, na comida feita com as mãos. Se não pensarmos seriamente nisso, não haverá biodiversidade e passaremos a ingerir veneno e comida ruim. O melhor exemplo vem dos Estados Unidos: no país mais rico do mundo, 60% a 70% da população têm problemas de obesidade relacionados com a má alimentação. Este não precisa ser o futuro do restante do mundo.
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