De bem com o estresse
A monja Susan Andrews explica como simples mudanças de atitude podem tornar a vida mais tranqüila e feliz
por Marcia Bindo | fotos Kiko Ferrite
A norte-americana Susan Andrews estudou 25 anos no Oriente, entre Tailândia, China, Filipinas e Índia, onde conheceu seu mestre e tornou-se monja. Mas o Brasil foi o lugar escolhido para desenvolver seu trabalho espiritual e humanitário. Há dez anos ela coordena o Parque Ecológico Visão Futuro, uma ecovila (comunidade auto-sustentável) em Porangaba, interior de São Paulo. Hoje, dá palestras em todo o país nas áreas de saúde, ecologia e desenvolvimento pessoal, e ensina biopsicologia, técnica que une a filosofia oriental com os mais recentes conhecimentos da psiconeuroimunologia, ou "medicina corpo-mente". Em seu livro, Stress a Seu Favor (Editora Ágora), Susan ensina como driblar o estresse, harmonizar as emoções e viver melhor.
Por que as pessoas estão cada vez mais estressadas?
Nos últimos 50 anos houve mais mudanças tecnológicas do que nos 40 mil anos anteriores. Para acompanhar esse desenvolvimento, o ser humano precisou se adaptar às mudanças bruscas e ao grande número de informações, que desencadeiam situações de estresse. Por muito tempo, os médicos achavam que a quantidade de mudanças - os fatores estressores - estavam relacionados ao aumento de doenças. Mas pesquisas recentes revelam que não é o estresse o fator-chave na saúde, e sim a forma como percebemos e nos relacionamos com um evento estressante.
Então, o estresse não é o problema?
A resposta de estresse faz parte da reação biológica "lutar ou fugir", que acontece em todos os animais - um instinto desenvolvido para salvar a vida em emergências. Nas situações de perigo, o sistema nervoso simpático é ativado e estimula a secreção de adrenalina das glândulas supra-renais, para agirmos de forma rápida. Mas quando o estresse é prolongado ou é acompanhado de emoções negativas, como hostilidade, o córtex supra-renal começa a secretar o hormônio cortisol, que é associado ao declínio no desempenho, doenças e morte prematura. O verdadeiro vilão da história do estresse, portanto, é o cortisol.
Seriam, então, as emoções negativas que fazem mal à saúde?
Exatamente. O dr. Redford Williams, autor do livro Anger Kills (editora Mass Market, não publicado no Brasil), provou que uma pessoa que se irrita facilmente quando, por exemplo, leva uma fechada no trânsito, fica presa na fila do banco ou trabalha com pessoas que considera incompetentes chega a secretar cerca de 40 vezes mais cortisol do que o normal, e tem uma probabilidade sete vezes maior de morrer antes dos 50 anos. Portanto, para termos uma resposta ideal ao estresse, com pouco aumento de adrenalina e sem liberação de cortisol, devemos treinar corpo e mente.
De que forma podemos encarar as dificuldades de forma positiva?
As pessoas mais resistentes ao estresse têm três qualidades. Primeiro, encaram a situação de dificuldade como um desafio, e não como ameaça. A segunda qualidade é o otimismo, a habilidade de sempre direcionar os pensamentos para o lado positivo. E a terceira qualidade é a dedicação a uma meta maior. A pessoa que tem objetivos como um farol, sempre iluminando o seu caminho, consegue passar por qualquer dificuldade.
Como harmonizar as nossas emoções?
Por meio da biopsicologia, que ensina a harmonizar as emoções com técnicas que atuam nas glândulas endócrinas. Todas as nossas emoções são acompanhadas por mudanças no corpo, que tem uma "assinatura bioquímica": a hostilidade é relacionada ao cortisol; al-ta energia, à adrenalina; amor, à oxitocina; felicidade, à dopamina; bem-estar, à endorfina e serotonina; sensação de status elevado na hierarquia, à testosterona elevada; e inferioridade, à testosterona baixa. Por isso, se quisermos mudar nosso estado de espírito, precisamos atuar no corpo, a via mais fácil para equilibrar as "moléculas de emoção".
Mas como as glândulas se relacionam com a nossa psique?
Segundo a biopsicologia, baseada na filosofia do tantra yoga, as glândulas endócrinas são os correspondentes físicos dos chakras, ou plexos de energia. Os chakras possuem subcentros que geram vórtices de energia psíquica, e cada um corresponde a um estado emocional específico: raiva, tristeza, esperança, falta de autoconfiança, amor, etc. As glândulas endócrinas são, por assim dizer, as "tomadas" onde as ondas mentais dos subcentros dos chakras se "plugam" no corpo físico. Por isso, podemos equilibrar as glândulas no nível corporal e os chakras no nível sutil.
Quais são os métodos práticos para equilibrar a mente e melhorar a saúde?
Exercícios físicos que massageiam as glândulas endócrinas e baixam, por exemplo, a produção de cortisol. As posturas de yoga são eficazes para o equilíbrio hormonal e conseqüentemente trazem tranqüilidade mental, desde que feitas repetidas vezes e acompanhadas de um controle respiratório. Também ensinamos técnicas de relaxamento profundo com visualização nos chakras, especialmente o cardíaco, que estimula a glândula timo e melhora o funcionamento imunológico.
Por que uma ecovila no Brasil?
O equilíbrio social foi profundamente perturbado com o êxodo do meio rural para as cidades. A proposta de nossa ecovila é resgatar a dignidade da vida no campo, oferecendo emprego, educação, saúde e cultura - na forma de cooperativa sustentável e ecológica. Empregamos muitas pessoas na horta orgânica, na padaria, no laboratório de plantas medicinais e no centro ayurvédico. O mundo material é o campo de nossa evolução. Então, ao mesmo tempo que mergulhamos dentro de nós para sermos mais felizes, temos de trabalhar no mundo exterior para criar uma sociedade solidária, em harmonia com a natureza. Vim ao Brasil pela primeira vez em 1991 e senti algo inexplicável. Já visitei mais de 60 países e nunca encontrei um povo com o chakra do coração tão aberto, um povo tão prestes a despertar coletivamente para uma nova consciência.
Por onde devemos começar?
Praticando. Você não ilumina a escuridão lendo ou falando sobre uma lâmpada, é preciso acendê-la. O mesmo acontece com a gente. Temos de aprender a acender a luz interior. A prática da compaixão e da empatia - a capacidade de nos identificar com os outros - é um dos meios mais eficazes para alcançar saúde e harmonia, paz e compreensão. Nossa própria sobrevivência depende do poder curativo do amor.
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