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A cura essencial

Inspirada nas relações naturais entre tudo o que existe, a ayurveda está deixando de ser apenas uma antiga sabedoria indiana para se tornar uma medicina moderna e completa também no Ocidente

por Heloísa Helvécia | fotos Eduardo Delfim | Cabelo e maquiagem Beto

O nome é áspero ao ouvido ocidental, a teoria é vasta e a embalagem, exótica. Mas a ayurveda, ou "ciência da vida", é simples. Tem um pouco dela nos hábitos da roça, nos conselhos das mães e em toda cura baseada na observação da natureza, como a praticada pelos índios.

Antigüidade não é selo de qualidade. O que fascina na medicina indiana não é tanto a origem milenar mas a facilidade de se renovar e adaptar a culturas e épocas. Sua força não está no passado, tem a ver com o presente. Hoje, a ayurveda é a segunda razão que leva turistas à Índia (a primeira é a busca religiosa). Na Europa e nos Estados Unidos, há um mercado forte de remédios, temperos e cosméticos dessa linha terapêutica.

Por aqui, a despeito de termos 80% das plantas usadas na Índia, a ayurveda ainda é coisa de spa de luxo e clínica de beleza. E é pena que um método preventivo e barato fique restrito à elite e à estética, quando até a Organização Mundial de Saúde o recomenda aos países pobres.

O rejuvenescimento é só o efeito mais vistoso de um sistema completo, que trata corpo, mente e espírito. De início, a teoria diz o óbvio: somos parte da natureza, devemos nos alinhar a ela para viver mais e melhor. Saúde pede integração. E conhecimento.

A cartilha ayurvêdica classifica de "ignorância" a aceitação do mundo físico como única realidade. Nosso corpo (e toda a Criação) seria a manifestação restrita e transitória de uma consciência maior. A matéria é tida apenas como uma espécie de ilusão. Essa concepção vem dos Vedas, os velhos textos hindus que nos mandam levantar o véu de "maya" (ilusão), ou seja, ver a essência por trás da aparência.

Por aqui essa história pode soar religiosa demais, mas - graças a Deus - o médico indiano Deepak Chopra já adaptou a coisa toda à mentalidade ocidental. Usando conceitos da física de ponta, ele mostrou que a ayurveda não faz mágica quando altera a matéria alterando a energia, já que esta vem antes daquela. "O corpo físico é um rio de átomos, a mente é um rio de pensamentos e o que os mantém unidos é um rio de inteligência", escreveu ele no livro O Caminho da Cura (Editora Rocco).

Entrando no fluxo
Chopra gosta de dar o exemplo dos ossos, que, apesar da aparente solidez, se renovam a cada três meses, célula por célula. É mais que um exemplo, é um alento para quem quer transformação. Parece tarefa hercúlea mudar o corpo, o estado de espírito, a vida? A ayurveda diz assim: olha como tudo muda o tempo todo no universo; aproveite, entre no fluxo, seja o universo - e mude você também.

É essa "genial simplicidade" que torna a tradição tão atual, nas palavras do médico ayurvêdico Danilo Maciel Carneiro: "A física quântica já mostra que matéria e energia são uma coisa só". É a ciência atravessando o véu de maya.

A consciência que move o mundo, na visão ayurvêdica, se manifesta por meio de Espaço, Ar, Fogo, Água e Terra. A "matéria-prima" é sempre essa, mas reunida de formas diferentes, o que resulta na diversidade que vemos.

Comprar essa idéia é meio como assumir a responsabilidade pelo cosmo, porque se você e eu e tudo o mais somos os cinco elementos, estamos conectados para o bem e para o mal, sujeitos às mesmas forças.

Cada ação individual pode gerar saúde ou desequilíbrio, para o indivíduo e a humanidade inteira. "Um pensamento negativo aqui causa um ato violento lá na China", afirma a consultora de ayurveda Márcia De Luca, autora do livro A Idade do Poder (Tornado Editorial).

Os três humores
Combinações entre os elementos geram os três princípios da ayurveda: são os "doshas" (tipos), ou humores, através dos quais a inteligência do universo se expressa nas pessoas.

Espaço mais Ar dão o biótipo "Vata", que representa movimento, agilidade. É a instabilidade do vento. Fogo e (pouca) Água dão "Pitta", que representa metabolismo, irritabilidade. É a combustão do fogo. Terra e (muita) Água dão "Kapha", que representa estru-tura, estabilidade. É o peso da lama.

Uma piada ayurvêdica ajuda a entender como esses humores nos regem. Se um avião atrasa, o passageiro do tipo Vata reage preocupado, antevê um desastre na sua agenda e dá um jeitinho de se culpar pelo incidente: "Eu devia ter previsto isso. E agora?" O passageiro Pitta, decerto irritadíssimo, ameaça o representante da companhia e cobra uma solução, com o rosto rubro de raiva. O passageiro Kapha, bem zen, aproveita a confusão e faz uma boquinha na lanchonete.

Cada dosha tem comportamento, traços físicos e metabolismo próprios. Não que a ayurveda catalogue toda a fauna humana em três estereótipos. Ao contrário, cada pessoa é tratada como única - a grande diferença em relação à medicina ocidental. Um médico indiano não cura nem gripe usando a mesma receita para dois indivíduos.

Todo mundo recebe influências de Vata, Pitta e Kapha, em proporções diferentes. É mais comum a pessoa ter um dosha dominante e outro em proporção elevada. Nesse caso é classificada como Vata-Pitta, Kapha-Vata etc. A leitura da descrição de cada dosha ajuda na identificação mas para um diagnóstico preciso só mesmo numa consulta ao vivo.

Serpente, rã e cisne
Sempre se espera um pouco, num velho sofá coberto por um pano: estamos na clínica-casa do professor-doutor Bokulla Ramachandra Reddy, maior autoridade em ayurveda em nosso continente, o único médico indiano radicado no Brasil. É dono de um monte de títulos, mas não tem jeito de medalhão. Ele mesmo atende o telefone, ele mesmo abre o portão para os pacientes. E chama a todos de "amigo" e "amiga". Na despedida, inclina-se e junta as mãos no peito em clássica saudação de "namastê" (o mesmo que "o Deus que mora em mim saúda o Deus que mora em você").

A mesa do doutor Bokulla pode ser pequena para tanto papel, mas é boa porque deixa mínima distância entre quem senta atrás e à frente dela. Fica protegida pela imagem de Ganesh, o removedor de obstáculos da mitologia hindu. Nas paredes, há fotos do médico abraçado com o amigo Deepak Chopra e com a amiga Márcia De Luca. Num sotaque forte, às vezes duro de entender, ele fala baixo e pouco, mas o que interessa mesmo é que observa, e muito.

O diagnóstico começa com o exame do pulso. Bokulla usa os dedos indicador, médio e anular para perceber as freqüências de Vata, Pitta e Kapha - os três diferentes humores da ayurveda.

Com diferentes pressões, mede 15 pulsações, rastreando a situação de órgãos e tecidos e detectando desequilíbrios, antes que virem doença. "O pulso de Vata é rápido e irregular, igual ao deslizar da serpente. O de Pitta é quente e ativo como os pulos de uma rã. A pulsação de Kapha é lenta, estável como um cisne nadando", afirma.

Para o seu olhar treinado, o rosto é outro mapa do estado físico e emocional: "Rugas revelam tudo. Se houver distúrbio, estará indicado na face, o espelho da mente". Da sua visão não escapa, por exemplo, aquela linha vertical entre as sobrancelhas, que do lado direito indica emoções reprimidas no fígado, mas do lado esquerdo aponta problemas no baço.

Depois do diagnóstico, Bokulla monta um tratamento com dietas, massagens, exercícios, meditação e remédios de ervas. Tudo para purificar corpo, mente e espírito.

A busca da pureza
O segredo da saúde, nessa medicina, é reconhecer, eliminar e reduzir a captação de toxinas, que bloqueiam o fluxo da energia vital. É claro que um médico pode fazer muito para que cheguemos lá, mas o auto-estudo é fundamental: cada um precisa aprender a ligar seu próprio detector de venenos.

Na guerra às toxinas, a meditação é arma obrigatória, indicada como prática diária para higienizar a mente. A dieta alimentar, que é adequada a cada dosha, é outra forma de controlar o acúmulo de impurezas.

Acontece que um filme de ação pode ser mais tóxico que uma feijoada - isso depende da sensibilidade de cada um. Podemos não perceber como a saúde é afetada por uma cena na TV ou uma palavra atravessada, mas o saber hindu dá extrema importância ao que entra pelos buracos da nossa cabeça. Como é através dos sentidos que se conversa com o universo, as práticas da ayuverda querem refiná-los, para que sempre extraiam do meio um máximo de energia e um mínimo de toxinas. Natural que a massagem tenha tanta ênfase: a pele, além de ser nossa proteção, é o maior órgão dos sentidos.

Massagem na alma
Você pode ler a teoria, mas outra coisa é deitar, fechar os olhos e se entregar, por exemplo, ao conforto que vem de um fio de óleo morno, descendo contínua e lentamente sobre a testa. Esse toque curativo, sem mãos, chama-se "shirodara" e é só isso mesmo: sobre a cabeça do felizardo, a tigela presa a um suporte verte um preparado de ervas medicinais.

Na sessão, a percepção vai sendo atraída, suavemente, para o ponto, entre as sobrancelhas, que está sendo acariciado pelo calor e a viscosidade do líquido. O relaxamento é tanto que há um vislumbre de expansão de consciência, talvez porque o estímulo esteja localizado na região conhecida como "terceiro olho" - o chakra ligado à nossa espiritualidade.

Naqueles 60 minutos, nada mais existe, só o prazer de estar ali. Não há turbulência mental que resista ao poder de shirodara. A técnica harmoniza os hemisférios cerebrais, combate estresse, depressão e insônia.

Todo mundo merece, também, passar pela "abhyanga" (que significa "mãos amorosas"), a massagem ayurvêdica mais difundida. A pessoa é banhada em muito óleo morninho e tem os dois lados do corpo friccionados ao mesmo tempo, por quatro mãos sincronizadas.

A técnica, usada para acelerar a liberação de toxinas e fortalecer o sistema imunológico, tem uma versão de automassagem, para ser feita todo dia, e uma dedicada aos bebês.

E é mesmo como um bebê que a pessoa é recebida e cuidada, na versão da abhyanga a quatro mãos. É fácil regredir ao útero em meio a tanta proteção, num leito quente e inundado de óleo. As manobras ritmadas dos terapeutas, um à esquerda, outro à direita da maca, dão mais coerência ao corpo. É como se tudo se encaixasse quando os seus dois lados ganham toques simultâneos. É como se você deixasse de ser cabeça, tronco e membros para se sentir um todo.

Outra delícia é a massagem que ativa os "marmas", os centros de energia vital onde os tecidos do corpo se encontram, na definição do doutor Bokulla. Os marmas, também vistos como elos entre matéria e consciência, correspondem aos pontos trabalhados na medicina chinesa.

Como há por aí um uso não lá muito ético do nome da ayurveda, antes de deitar e relaxar é melhor perguntar como, onde, com quem e em quanto tempo o massagista se formou. Não custa saber que o Estado de Keralla, no sul da Índia, é o berço e a cena dessa ciência; que a Califórnia é o grande centro de estudos e difusão; que os médicos norte-americanos David Frawley e Vasant Lad são os únicos ocidentais considerados no métier e, principalmente, que ninguém vira terapeuta ayurvêdico após um workshop de fim de semana.

O relógio da natureza
Se fosse para seguir os Vedas ao pé da letra, teríamos de nos aquietar como os passarinhos depois do pôr-do-sol. Mas como conseguir isso, se já tem luz elétrica na aldeia e a agenda tem mais compromissos do que horas do dia disponíveis?

A alternância de ação e repouso, proposta na rotina ayurvêdica, é um tremendo desafio, mais premente que nunca. Só muito recolhimento e muita meditação para fazer frente a esse tempo nervoso - um típico distúrbio coletivo do dosha Vata, na análise do médico Aderson Moreira da Rocha, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

"Como tudo é cíclico, o que virá depois dessa loucura será um retorno aos hábitos simples", afirma a professora Márcia De Luca. Segundo ela, quem não aprender a se aquietar vai sucumbir. "O futuro pede intuição, criatividade, competências desenvolvidas no silêncio, na meditação, de dentro para fora. Já nos afastamos demais de nós e da natureza. Toda doença é saudade do lar."

Muito além da saúde, essa volta para casa promete felicidade mesmo, acesso pleno ao poder sem tamanho do universo. O caminho, invariavelmente, é o do autoconhecimento, esse "remediozinho ayurvêdico" sem contra-indicação nem prazo de validade, que vem sendo receitado há uns cinco mil anos.

vata - O humor do movimento
Vata governa a circulação, a respiração, o fluxo de idéias, sentimentos e pensamentos. A pessoa é agitada, magra, com estrutura física leve e organismo seco. Tem olhos pequenos e lábios finos.

Sente muito frio e odeia vento. Os passos são rápidos. É tagarela e não escuta os outros. É instável no apetite, no sexo e no humor. Em desequilíbrio, é ansiosa e sofre de insônia. Em equilíbrio é entusiasmada, muito criativa, ágil e comunicativa.

Vata se desequilibra no outono e deve evitar agitação.

kapha - O humor da estabilidade
Kapha governa a estrutura corporal.

A pessoa tem constituição pesada, ombros e quadris largos. Tem tendência a engordar e, às vezes, é atarracada. A pele, os olhos e os cabelos são bonitos, lubrificados.

Os lábios, grossos. A digestão é lenta e as ações idem. Apresenta letargia matinal, tende à depressão e é sensível à umidade e ao frio. No amor e no sexo é constante e sensual. Em equilíbrio, é diplomática, amorosa e tolerante - finalmente, um dosha que sabe ouvir. Em desequilíbrio, é preguiçosa, pessimista e apegada ao passado. Kapha se desequilibra no inverno e deve evitar buscar conforto emocional na comida.

pitta - O humor do fogo
Pitta rege o metabolismo, as transformações químicas do corpo, a fome, a sede, a energia e a temperatura corporal. A pessoa tem estrutura média, não é gorda nem magra.

A pele é clara e quase sempre com sardas. Tem muito apetite, é sensível ao calor e transpira demais. Extrapola na comida (mas não engorda), no sexo e no trabalho. Fala menos que Vata, mas também não escuta o outro, porque se sente superior.

Em desequilíbrio, tem temperamento inflamado: julga e critica, é intolerante e irritada. Em equilíbrio é perfeccionista e determinada. Pitta se desequilibra no verão e não pode abusar do sol.

A revelação do seu dosha
Se você já teve alguma aproximação com a ciência ayurvêdica, deve estar estranhando não ter encontrado aqui aquele questionário para que a pessoa encontre sua classificação - Vata, Pitta ou Kapha. De acordo com o doutor Bokulla, o médico indiano radicado no Brasil, é comum esse teste gerar mais dúvidas que certezas. A maioria de nós tem um humor predominante e um segundo bem atuante também.

Mais raras são as pessoas que recebem influência dos três tipos na mesma proporção e ainda mais incomuns são as regidas por uma só natureza.

Portanto, parece bastante adequado procurar a ajuda de um profissional reconhecido, em vez de brincar com as forças dos cinco elementos.

Emoções na ponta da língua
Cardápio balanceado à moda indiana se conhece pelo paladar. Toda refeição deve combinar os sabores doce, ácido, salgado, picante, amargo e adstringente. A cada sabor corresponde uma emoção: em sânscrito, a palavra "raza" é usada para as duas coisas.

O sabor doce representa amor e apego e tem a função de nutrir e formar os tecidos. Está no leite, nos grãos, nas massas, nas carnes, no azeite, em castanhas e nozes e em algumas frutas como manga, abacate e papaia.

O ácido, ligado a audácia e ressentimento, abre o apetite.

As fontes principais são frutas cítricas, queijos e iogurte.

O salgado tem função sedativa e se relaciona a prazer e cobiça. Além do sal, valem molhos, peixes e algas.

O papel do picante, que simboliza ódio, raiva e impaciência, é atiçar o metabolismo, facilitando a digestão. Está na berinjela, no gengibre e em quase todos os temperos e condimentos.

Além de desintoxicante, o sabor amargo é antiinflamatório. Está relacionado a tristeza, frustração e desejo de mudança.

O café e os vegetais verdes e amarelos, por exemplo, são classificados como amargos.

O adstringente ajuda o funcionamento do intestino. As emoções envolvidas são medo e insegurança. Na lista desse sabor, a ayurveda considera feijão, lentilha, soja, tofu, milho, cogumelos, batata, repolho, couve-flor, chá preto, maçã, pêra, caqui, banana, uva e brócolis.

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