Serenando a mente
Você já nasceu sabendo: é só deixar que a meditação se instale e trabalhe a seu favor. Não requer habilidade mas exige prática.
por Heloísa Helvécia com Ana Holanda | fotos Araquém Alcântara
É mais fácil praticar do que definir meditação. A prática, seja qual for a técnica usada, é sempre um jeito de fazer a mente complexa voltar à simplicidade. A definição, seja qual for a linguagem usada, ou é muito complicada ou é banal demais.
Que a meditação é milenar e se difundiu a partir do Oriente você já sabe. Então, vamos poupar papel, paciência e palavras em sânscrito. A meditação é a razão de ser e a finalidade última do yoga, por isso muitos a identificam com a perfeição da postura de lótus. Mas não é exclusividade de yogues e monges. É patrimônio da humanidade. O mergulho na consciência está em muitas religiões e culturas. É comum a árabes e judeus, cristãos e pagãos, acontece no templo e na rua, no silêncio e no caos.
Muitas formas de meditação são transmitidas apenas em rituais de iniciação. Essa seria uma maneira de preservar o conhecimento das diluições e dos "despreparados". Mas há quem veja em tanto segredo uma espécie de reserva de mercado. Com ou sem guru, meditar é um direito humano e é gratuito. As técnicas são milhares, a essência é uma só e a fórmula absoluta não existe. "Se alguém disser que está ensinando meditação, desconfie", escreveu Iyengar (pronuncia-se "aiengar"), um dos principais mestres indianos da atualidade.
É como andar de bicicleta: alguém lhe diz como fazer, mas o aprendizado é solitário. "Tombos e pedaladas são por sua conta", na comparação da professora de yoga Márcia De Luca. Às vezes, sem querer, a mera contemplação da natureza é suficiente para alterar o nosso estado de consciência. A sensação, boa mas fugaz, mostra que a paz é espontânea.
Ninguém precisa se esforçar para meditar, assim como ninguém se esforça para respirar, é o que repete nos seus cursos o médico e escritor Deepak Chopra, indiano radicado na Califórnia. Todos nós trazemos a memória do bem-estar. Para acordá-la, basta praticar, deixar acontecer. Se você deseja mesmo o aquietamento mental, já tem 90% do necessário. Falta abrir um espaço na agenda, escolher uma técnica e insistir, dia após dia, para que a meditação se imponha e faça o resto (você não precisa fazer mais nada).
Há sempre um estilo adequado à personalidade, crença e aos hábitos de cada um. Procedimentos simples, como a meditação na respiração, mantêm o praticante no nível da atividade. Outros ultrapassam esse patamar, caso da meditação nos sons.
É o grau de concentração, também, o que diferencia a meditação do relaxamento e das práticas de visualização. Os três exercícios são partes de um só processo. Na visualização guiada, o praticante é levado a um estágio de serenidade a partir da sugestão de imagens. A mente se ocupa tanto com a criação de formas e cores que bloqueia emoções e pensamentos, ficando pronta para ir mais longe. "Fica difícil conectar a intuição na presença de emoções negativas", diz o filósofo Robert Happé, especialista em tradições orientais. Esse holandês, radicado no Brasil, usa relaxamento e visualização como preparação para estados mais profundos de concentração. Tanto o relaxamento quanto a vizualização são feitos na postura horizontal. Já a meditação exige um nível de alerta que pode ser comprometido se ficamos deitados.
Na maioria das técnicas, a percepção da respiração é ferramenta básica. Inspirar e expirar com consciência é a atitude capaz de alterar o humor e a mente. Muitos métodos usam também a visão: a concentração é atingida na contemplação da chama de uma vela, de símbolos religiosos, mandalas etc.
Os próprios estados da mente, tarefas e acontecimentos cotidianos servem como focos de atenção. O meditador é testemunha de si mesmo, observador desapegado de pensamentos, sensações, atos, sentimentos. Essa busca da consciência plena faz o praticante ater-se ao presente, chave do estado meditativo. "Integrar a meditação à ação é a base, objetivo e propósito", segundo o princípio budista expresso no Livro Tibetano da Vida e da Morte.
Nessa linha, há a Meditação Andando, ensinada no livro de mesmo nome pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh (Vida Simples, 1a edição). Para a filosofia zen, a caminhada favorece o equilíbrio e o recolhimento. Ao andar, a pessoa presta atenção na expiração e na inspiração, sem interferir. Pisa suavemente, observando o movimento dos pés.
Outros exemplos de meditação dinâmica saem da escola fundada, nos anos 1920, pelo russo George Ivanovitch Gurdjieff, pensador que rodou o mundo antes de construir uma sólida síntese de tradições espirituais do Ocidente e do Oriente. Segundo ele, as pessoas passam a vida separadas de si mesmas, tragadas pela confusão externa e por apelos dispersivos de um mundo barulhento. Mas podem despertar, treinando sua atenção e sintonizando o silêncio interior.
Esse despertar deve ser buscado na vida como ela é, não na paz dos mosteiros. Nessa visão, a agitação e o caos são estímulos à meditação, que depende mais de referenciais internos do que externos. É possível encontrar praticantes desses ensinamentos sentados em um shopping ou em outro lugar prosaico. Estão lá para observar o automatismo humano, lutar com as distrações dos sentidos e, daí, fortalecer sua atenção.
Nas técnicas clássicas, o meditador busca tanto o silêncio externo quanto o interno e fica sentado imóvel, em postura ereta. Isso para que a energia da base da coluna ascenda até o topo da cabeça, despertando gradualmente, no trajeto, cada um dos centros energéticos do corpo.
Para quem não se adapta à postura de lótus ou à do índio (sentado no chão ou sobre almofada, com pernas cruzadas à frente), uma caldeira de espaldar reto resolve. O essencial é o conforto, pescoço e cabeça alinhados, de forma a relaxar sem sair do estado alerta. Dica: sentar-se bem apoiado sobre os ísquios (ossos dos quadris), sentindo-os contra o solo ou o assento, o que ajuda a corrigir as costas.
O ideal é meditar 30 minutos, duas vezes ao dia, mas tudo bem começar com cinco minutos por dia. Qualquer estilo de meditação deve devolver a inocência à mente, detendo aquela profusão desordenada de pensamentos que nos deixa exaustos e nos afasta de valores essenciais. É importante persistir e praticar sempre na mesma hora e lugar, para fixar o hábito. E jamais julgar a experiência, porque não há certo ou errado em meditação.
Se nas primeiras vezes você não puder controlar as divagações, relaxe. Quantos tombos tomou antes de correr na bicicleta? Com o tempo, fica fácil reconduzir a mente ao foco da atenção, seja ele um mantra, uma imagem ou o vaivém da respiração.
No início, pode ser um pouco desconfortável. Surgem acesso de tosse, cãibra, tédio, inquietação ou, ainda, um pensamento autoritário exigindo que você pare e vá fazer algo "inadiável". É assim. É o ego tentando sabotar a nossa autonomia. Contra o ego, só mesmo a teimosia.
A tática para estancar a agitação mental não é tentar "parar de pensar". Não lute com o material que surge na meditação. Até espere que bobagens como "acabou a ração do gato" ou "tenho que pagar a conta" invadam sua cabeça. Basta não dar importância, observar "de fora", aceitar esses turbilhões de idéias sem se apegar a elas. Com a assiduidade, os intervalos entre os pensamentos aumentam e é nessas brechas que sabedoria, intuição e essência são conectadas.
Quando vira cachaça
Para espiritualistas, a meditação é a volta ao lar. Para médicos, é o repouso que regenera a massa cinzenta. O neuropsiquiatra americano John Ratey, de Harvard, é fascinado por tudo o que possa ser comprovado em tomografias computadorizadas. Nem ele hesita em recomendar a meditação, no seu livro mais recente O Cérebro, um Guia Para o Usuário, que resume as mais novas descobertas da neurociência.
As respostas físicas ao estado alterado de consciência já foram exaustivamente comprovadas: a atividade do sistema nervoso simpático cai, os batimentos cardíacos diminuem, todo o metabolismo fica mais lento, o fluxo sangüíneo decresce. São reações que ajudam a reduzir hipertensão, dores crônicas, enxaquecas, depressão e outros males do nosso tempo. O estado de "alerta tranqüilidade" faz mentes mais espertas: a atividade elétrica cerebral muda e, em vez daquela tempestade usual de sinais descentralizados, a pessoa experimenta o alívio de grandes quantidades de neurônios disparando em harmonia. Porque a meditação libera endorfinas, substâncias que provocam alegria, e reduz a produção dos inimigos da juventude como adrenalina, cortisol e radicais livres.
Quem medita responde melhor às dificuldades e às pressões diárias, segundo pesquisas e experiências pessoais reunidas pelo psicólogo Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional. No livro A Mente Meditativa, ele também mostra que o hábito aumenta a velocidade de raciocínio e as capacidades de concentração e aprendizado.
As universidades estão cheias de estudos provando que a meditação pode reverter fobias, obesidade, vícios. E o mercado também está cheio de técnicas dirigidas para redução do estresse, aumento do "poder pessoal" etc. Por mais apetitosos que sejam esses apelos, eles nada são diante do sentido máximo da meditação. O real contexto da prática é a vida espiritual. Com o simples ato de ser e se observar - sentado, andando, dançando que seja -, é possível transcender a consciência ordinária, achatar as mesquinharias da vida, aumentar o senso de comunhão com o todo.
Para além da moda mística e das esoterices, do conselho médico, do fast-food esotérico e do marketing das celebridades "zen", meditação é transformação, um caminho para dentro, sem alardes. Às vezes, o que deveria ser a presença divina na alma é mera "musculação do ego", como diz Pedro Kupfer, formador de professores de yoga e autor do livro Guia de Meditação. Algumas pessoas se viciam na prática, usando-a como droga. O grande risco é o fanatismo, a subserviência compulsiva a um "mestre" ou grupo, segundo Kupfer: "Há quem faça desse instrumento de libertação uma fonte de escapismo. Pode virar cachaça para anestesiar tensões da vida".
Meditação no som primordial - o campo dos desejos
Teoria A meditação concretiza nossos sonhos, diz Deepak Chopra, autor de
As Sete Leis Espirituais do Sucesso.
Ele diz que a repetição de um som específico nos transporta ao "campo da pura potecialidade" atraindo sincrônicos.
Prática Duas vezes por dia, 30 minutos, em silêncio e na postura ereta. Sons primordiais escolhidos a partir de data, hora e local de nascimento da pessoa. base em cálculos de astrologia oriental.
Meditação dinâmica - a coreografia da consciência
Teoria O indiano Mohan Chandra
Rajneesh, o Osho, desenvolveu várias meditações em movimento, mesclando bioenergética e hinduísmo. O objetivo, além de relaxar os músculos, é manter a mente longe dos pensamentos.
Prática Dura uma hora. O ideal é praticar pelo menos uma vez em grupo, com um instrutor. É feita pela manhã, de estômago vazio e com olhos fechados ou vendados, com muita música e dança.
Meditação no "one" - a busca da neutralidade
Teoria O cardiologista americano Herbert Benson desenvolveu uma técnica não-associada a qualquer tradição religiosa. A repetição da palavra inglesa "one" é usada para reduzir o fluxo de pensamentos. O som "neutro" escolhido lembra "Om", tido como o mais poderoso e sagrado.
Prática "One", ou "um" faz as vezes de mantra e, no resto, a meditação é clássica: pratica-se sentado, com coluna reta e em silêncio, de olhos fechados.
Meditação do budismo tibetano a libertação do ego
Teoria Na visão budista, o cerne da confusão é o ego, que nos parece real, e que nos faz buscar neuroticamente conforto, segurança, prazer. Esse ego, na verdade transitório, não nos protege do sofrimento.
Prática A meditação no budismo tibetano visa duas etapas: a pacificação mental e a "visão superior", que traz o desapego do ego. É feita com diferentes mantras, vocalizados, cantados ou repetidos mentalmente, como o clássico "Om Mani Padme Hum".
O quarto caminho - eu me lembro de mim
Teoria O rumo apontado por Gurdjieff (1877-1949) não é o do mago, nem o do yogue e nem o do faquir, mas o do homem comum. Para ultrapassar o mundo dos sentidos e ganhar outra dimensão existencial, ele deve treinar a atenção, mapeando emoções, pensamentos, sensações, "lembrando-se de si".
Prática No trânsito, ao dirigir, perceba como seus músculos estão crispados e relaxe-os, dividindo a atenção entre a tarefa de guiar e a percepção do estado da sua musculatura.
Meditação transcendental - néctar para céticos
Teoria A meditação mais popular deste hemisfério foi formulada em 1957 pelo mestre Maharishi. Ele adaptou o saber védico à cultura cética usando linguagem científica, abolindo restrições morais e comprovando os efeitos objetivos da técnica. Aqui, não importa se a motivação do iniciante é "material", como reduzir estresse ou combater doenças. "Com a prática surge o homem espiritual, nada mais que alguém capaz de viver feliz sem machucar os outros", diz Marcos Schuler, diretor do centro de MT em São Paulo. Para o guru Maharishi, a dualidade, causa de todo sofrimento, é transcendida na repetição de um som pessoal, dado ao iniciado a partir de critérios secretos.
A técnica dirige a mente "às camadas mais ricas e ordenadas da consciência, sem esforço de concentração", segundo Schuler.
Prática A técnica é transmitida em um curso de seis dias. Depois, deve-se praticar 20 minutos, duas vezes por dia, sempre sentado em posição confortável. "Não existe autodidatismo em meditação", acredita Schuler.
Meditação na respiração - o milagre de existir
Teoria
A energia vital, que no yoga é chamada de "prana", está no ar.
O mero ato de respirar com consciência é suficiente para aumentar a captação dessa energia e alterar o nosso estado físico, mental, emocional.
Prática Sente-se em postura ereta, feche os olhos e observe sua respiração, sem interferir. Não resista se houver qualquer mudança no ritmo, só observe. Quando perceber que se distraiu com algum pensamento, retorne a atenção à respiração, suavemente. Tente ficar assim por 20 minutos, apenas existindo.
Qual é a sua família ideal: aquela formada pelos parentes ou pelos amigos?|0
Qual é a sua família ideal: aquela formada pelos parentes ou pelos amigos?|0
Qual é a sua família ideal: aquela formada pelos parentes ou pelos amigos?|8
Como você lida com as coisas que ocorrem fora do seu controle na vida?|14
O que você faz para liberar sua criança interior?|5
O que você achou do projeto gráfico da Vida Simples?|53
O que você faz para simplificar a vida?|13
O que o deixa mais inseguro?|35
Você é realmente livre?|13
Você gostaria de andar de bike pela cidade?
Se já anda, conte sua experiência.|23
Educação emocional|6
Movido a paixão|1