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O ar da graça

A respiração correta pode transformar sua vida para muito, muito melhor

por Alessandro Meiguins | fotos Kiko Ferrite

Preste atenção na sua respiração. Observe o trabalho do seu corpo.

Não é interessante perceber que à medida que volta a atenção para os movimentos do tórax, mesmo que continue lendo, algo muda? Conte alguns segundos enquanto observa o movimento.

Pois não é que você pode estar, neste momento, melhorando sua postura, ampliando a respiração, dilatando mais as narinas e aumentando a quantidade de ar que inspira?

E como estava sua respiração antes? Curta? Você quase não expirava? Difícil lembrar?

A questão mais importante sobre a respiração se resume em uma palavra: Atenção.

Desde o primeiro suspiro até hoje, seu pulmão só parece `respirar sozinho` - na verdade, ele tem um duplo comando: um automático, que faz com que você continue respirando mesmo durante o sono; outro que pode ser influenciado e comandado por processos conscientes.

Com isso, quando você foca a consciência na respiração, pode controlar o ritmo e a intensidade do processo. De uma hora para outra, o que funciona sem que você tenha sequer que pensar a respeito torna-se consciente. Mais que isso: ajustável.

Preste atenção mais uma vez. O ar chega até o tórax percorrendo nariz, faringe, laringe, traquéia, brônquios e bronquíolos. O tempo todo, sem parar, nosso sistema respiratório entra em contato com o ambiente externo e toma emprestada parte da atmosfera. No microcosmo do nosso corpo é possível imaginar uma corrente de vida misturando-se às células, tomando parte em nós.

Inspire de novo. Sinta. Há quem perceba nisso o sopro de Deus.

Os pulmões contêm uma estrutura semelhante a uma esponja, com cerca de 300 milhões de sacos microscópicos, os alvéolos, extremamente finos e irrigados por pequenos vasos sangüíneos. "A superfície total, se esticada, alcançaria 100 metros quadrados de área", explica Geraldo Lorenzi Filho, pneumologista da Universidade de São Paulo (USP). Nos alvéolos o ar inspirado e o sangue são colocados em contato, separados por uma distância que praticamente só existe no papel - apenas 0,0001 metro. Nesse encontro, as moléculas de oxigênio migram para as células sangüíneas a bordo das quais partem para uma jornada pelo corpo humano.

O sangue, portanto, embarca nos pulmões o oxigênio e, com seu ilustre passageiro, percorre nosso cérebro, nossos órgãos, braços e pernas, deixando moléculas de O2 em cada uma das células do corpo. Por fim, passa novamente pelos pulmões, trazendo o produto da combustão das células, o CO2 - dióxido de carbono -, que é expelido para dar lugar novamente às moléculas de O2.

E depois tudo de novo e de novo...

Em apenas um minuto, ocorrem cerca de 12 respirações completas. Em média, inspiramos e expiramos 17 280 vezes por dia, fazendo circular quase 7 mil litros de ar em nosso corpo - inalamos cerca de 400 mililitros a cada inspiração. Ocorre que a capacidade vital do pulmão é muito maior: 4 litros de ar. Inalamos 400 mililitros, mas nossos pulmões poderiam, no máximo da expiração e inspiração, dez vezes mais!

No dia-a-dia, uma respiração sem tensões poderia alcançar entre 800 e 1 600 mililitros. Por outro lado, quando estamos estressados, respiramos apenas 100 mililitros de ar. Nesse território imenso, entre os 100 mililitros e os 4 litros, pode estar um dos maiores "segredos" da saúde e do bem-estar do ser humano.

Em muitas culturas, respirar é a chave para alcançar integração com a natureza, o equilíbrio corpo-mente, a iluminação espiritual. Iogues, budistas, sufistas, taoístas, monges zen, cristãos e todos que buscam o sagrado sabem que é preciso respirar da melhor forma possível. Não só pelo precioso oxigênio.

Em meditações ch'an (zen), a respiração é essencial para a absorção do ch'i - nada menos que a energia celestial. `Com essa força circulando pelo corpo, podemos transformar a mente e alcançar o vazio, a iluminação`z, diz Jou Eel Jia, médico acupunturista e mestre ch'an. "Quando estamos calmos, a respiração é lenta e tranqüila. Se ficamos angustiados, o movimento torna-se curto e brusco. A respiração reflete nosso estado emocional interior."

O ch'i, que os hindus chamam de prana, é tido como uma energia pura e límpida presente em toda a natureza e que tem a propriedade de nos manter vitalizados, plenos de entusiasmo. Essa energia é responsável pela harmonia do corpo e também por nossas boas vibrações. Sem dúvida, você já a sentiu. Lembre-se de como um pequeno passeio ao ar livre, longe do ar-condicionado, refaz seu dia. Ou do bem-estar trazido pelo ar das montanhas, pela brisa de um beira-mar. Nesses locais o prana está mais puro, mais vibrante. É fácil absorvê-lo.

A prática hindu de respiração é chamada pranayama. Envolve o controle do mecanismo respiratório através da restrição e da suspensão da inspiração ou expiração. É um conhecimento muito antigo, anterior mesmo aos primeiros registros no Rig Veda, as escrituras sagradas dos hindus, que contam mais de 5 000 anos. Às vezes, exercita-se o fluxo de ar em uma só narina. Ou se encosta a língua no céu da boca. Há técnicas que exigem total imobilidade, outras com atividades físicas - a yoga, por exemplo. Pode-se praticar em silêncio ou entoando cânticos, os mantras. A essência dos exercícios está na pausa respiratória. Gerenciar o processo nos obriga a focar a atenção e assim diminuir a agitação mental, criando condições para a meditação. Faz todo sentido.

Shotaro Shimada, professor de yoga há 44 anos, recomenda um pranayama muito simples para quem quer experimentar a respiração dos iogues (veja quadro ao lado). Basta contar o tempo.

Um simples exercício como esse mostra muitas coisas. Por exemplo, que nossa expiração é muito rápida (na maioria dos casos é). Em nível biológico, a respiração curta dificulta a troca gasosa descrita anteriormente. Algumas células podem demorar para eliminar o CO2 e assim envelhecem bem mais depressa.

Mas não faltam razões para irmos além da matéria, do corpo. `Respirar é estar conectado a toda a criação divina`, diz o reverendo Edmundo Pelizari, da Igreja Nacional Jansenista da Holanda e estudioso do Cristianismo primitivo. Essa compreensão é comum a inúmeras culturas e sociedades e está registrada no significado das palavras. Em hebraico, "respirar" vem de ruach, que significa "alma e espírito, sopro e alento". Em latim temos spirare, que gerou spiritus. Em grego, psyche significa ao mesmo tempo "respiração e alma". O mesmo para atman, na língua hindu.

Nas antigas tradições cristãs, o vento trazia a inspiração, o transe, a mensagem. `Os primeiros adeptos do Cristianismo praticavam técnicas de respiração para acessar o mundo interior, em busca de visões e até mesmo de encontros com Deus", comenta o reverendo. Segundo Pelizari, no batismo original uma das técnicas utilizadas era assoprar o rosto da criança. Aliás, desde o princípio...

`E o Senhor Deus formou o homem Do barro da terra E inspirou-lhe nas narinas O sopro da vida. E o homem se tornou um ser vivente.` Gênesis 2:7

Na Palestina, entre o século I e II, utilizava-se o terço para inspirar e expirar calmamente, contando uma respiração a cada conta. No século IX, alguns praticantes se dirigiram até a Grécia, no Monte Atos, onde sons e outras técnicas foram adicionados. Na inspiração pronunciava-se a sílaba "je", na expiração "sus". Alguns praticantes buscavam sincronizar as fases da respiração com as batidas do coração. Faziam dietas, adotavam posturas e ensaiavam projeção mental. Os cristãos da Grécia "respiravam" o ícone de adoração (Jesus ou Maria). Durante a respiração, o movimento simbolizava fluxo e refluxo entre o praticante e a imagem. Acreditava-se que os adeptos absorviam a força divina. É muito semelhante a algumas respirações praticadas no Budismo tibetano.

Com a respiração absorvemos o ambiente ao redor, interagimos com ele - mas isso pode ser bom e pode ser ruim.

Porque nem tudo o que está ao nosso redor queremos absorver. Para não enfrentar uma nuvem de fumaça e também tensões emocionais ou psicológicas, muitas vezes prendemos a respiração. Com medo de sentir, para evitar sensações desagradáveis ou ameaçadoras, paramos de respirar por segundos. Como se nos anestesiássemos. E isso prende as emoções no corpo. "Uma respiração curta reprime não apenas as sensações desagradáveis, como também as agradáveis", diz a psicóloga Dulci Duek. "Quem não consegue respirar profundamente, acaba tornando-se incapaz de sentir prazer. Ou amor."

Esse é um aspecto muito interessante. A cultura ocidental nos ensina duas formas de trazer ar aos pulmões. A mais conhecida é traduzida pela expressão "barriga pra dentro, peito pra fora" - a chamada respiração torácica. O outro modelo, a respiração abdominal, centra-se na expansão e na contração do diafragma, algo fácil de ser observado na calma de uma criança dormindo. É a barriga que se movimenta, muito mais que o peito. Porém, se essa criança toma um susto e começa a chorar, o peito incha e desata em espasmos.

É sempre assim? Com essa enorme diferença entre as formas de respirar?

Basta uma curta caminhada ou um lance de degraus para descobrir: a respiração alterna-se inúmeras vezes entre o modelo torácico e o abdominal para viabilizar mecanicamente o que estamos fazendo. Quando andamos é de um jeito. E de outro quando dirigimos, comemos, tomamos banho, corremos, fazemos amor, dormimos...

Os músculos das regiões torácica e abdominal estão dimensionados para alongar admiravelmente. Com uma expansão pequena, eles se atrofiam. Pouco, mas o suficiente para virar armadilha, uma gaiola que dificultará ainda mais a expansão do pulmão. Sem a elasticidade natural do conjunto, o diafragma deixa de realizar plenamente uma massagem natural no miocárdio, principal músculo do coração. Que, simbolicamente, é a emoção. Ou amor.

Dulci Duek utiliza a respiração holotrópica com seus clientes, uma técnica desenvolvida na Califórnia pelo psicólogo Stanislav Grof no final da década de 60. O paciente fica deitado de uma a duas horas, respirando de forma mais acelerada que o normal, o que o induz a um estado alterado de consciência. Antigos traumas e sentimentos são liberados. Tem semelhanças com o rebirthing - renascimento - que também surgiu na Califórnia nos anos 60. O terapeuta Leonard Orr propôs uma respiração diferente da que usamos no dia-a-dia. Mais fluida, como a de um bebê. "Mal termina a inspiração, já começa a expiração. Não há pausas", explica Tárika Lima, do Instituto de Renascimento de São Paulo. "Ao respirar, a pessoa pode dissolver tensões que ela mesma prendeu no corpo."

Pra lá da Califórnia, a sagrada mitologia hindu afirma que tudo que somos, vivemos, sentimos e amamos desde o início dos tempos, não é nada senão a ocorrência ínfima de uma grande respiração. Brahman, a divindade universal, essência do cosmo, cria todo o universo e as formas de vida em uma única expiração - que, nas contas terrenas, dura bilhões de anos. Hoje estaríamos próximos do final de uma dessas magníficas expansões.

Em seguida, conta-se que Brahman irá inspirar a criação, trazê-la de volta ao seu interior. Então, irá expirar de novo e de novo e assim continuamente. Imitando a gente.

Respiração com ritmo Kúmbhaka pranayama

Sente-se no chão confortavelmente, de modo que sua coluna fique reta.

Ok? Inspire em quatro tempos: 1, 2, 3, 4.

Segure o ar em quatro tempos: 1, 2, 3, 4.

E expire em oito tempos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8...

Conseguiu? Expirar foi mais difícil? Tente mais uma vez, sem forçar a expiração.

Deixe que ela ocorra naturalmente, sem esforço.

E pratique por uns cinco minutos.

Se quiser, reduza o padrão para 3-3-6.

Ou até 2-2-4.

Para saber mais
Na internet:
www.holotropic.com, site sobre Stanislav Grof
Respiração holotrópica www.kdham.com
Site do Centro de Pesquisa Kaivalyadhama, da Índia www.renascimento.com.br,
Site do Instituto de Renascimento de São Paulo www.yogashimada.com.br, site do Instituto de Cultura Yoga Shimada

Na livraria Ciência Hindu:
• Yogue da Respiração, Yogue Ramacháraca, Editora Pensamento, 2001
• A Força Curativa da Respiração, Marietta Till, Editora Pensamento, 1997
• Respiração e Espiritualidade, Gunnel Minett, Editora Pensamento, 1998
• A Aventura da Autodescoberta, Stanislav Grof, Summus Editorial, 1997
• Ch'an Tao - Essência da Meditação, Jou Eel Jia, Norvan Martino Leite, Lilian Fumie Takeda, Editora Plexus, 1998
• Respirando, Michael Sky, Editora Gente, 1990

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